O ciúme, a janela e o zelo

Por Noemi Jaffe


Grafitti de Banksy

Dizem que a etimologia é uma ciência (pseudo-ciência? prática? saber?) conveniente para aqueles que, como eu, não têm muito apego à precisão. Em caso de dúvida sobre a origem de alguma palavra, encontre uma etimologia provável — e isso não é muito difícil — e tudo se encaixa. Assim, a origem da palavra “instante” pode ser, por exemplo, “aquele que insta” e, nesse sentido, o instante seria a mais urgente das unidades temporais. É poético e persuasivo, mas deve ser bobagem.

Agora, ninguém me convence que fantasio quando percebo uma estreita relação etimológica e, por tabela, também filosófica e/ou psicanalítica, entre as três palavras que dão título a este texto.

“Ciúme”, em português, vem do latim “zelumen” e, mais tardiamente, “zelus”, que é quase como a palavra para ciúme em espanhol: “celo”. Celo, celume, ciúme. Ao mesmo tempo, a sonoridade de “celo” se aproxima de “jealous”, do inglês, “gialosia”, do italiano, “jaloux”, do francês, todos provenientes de “zelus”, que também significa cuidado, posse, avareza. É fácil reconhecer esse zelus que também derivou, no português, no conhecido “zelo”. Daí, por exemplo, “zelador”. O zelador seria, na verdade, um cuidador ciumento, possessivo e avaro de alguma propriedade, que, do ponto de vista etimológico, são a mesma coisa, já que aquele que zela, ou cuida, é também aquele que controla de forma avara e egoísta.

Dizemos admirar o atributo do zelo, mas o que queremos é que os zelosos nos protejam do mundo lá fora, pois, sob sua guarda, nós e nossas coisas passamos a ter um proprietário, com todas as vantagens e desvantagens do inquilinato. A preocupação e a responsabilidade, assim, são problemas deles. Mas o zeloso seria, pela etimologia, um egoísta disfarçado de altruísta cuidadoso. Ora, não seria essa a definição de “ciumento”?

E a janela?

“Janela”, em italiano e também em português antigo, é “gelosia”. E qual seria a relação, além daquela estritamente sonora, entre “gialosia” e “gelosia”? Fácil. Vejamos a definição de gelosia no dicionário: “Grade de fasquias de madeira que se coloca no vão de janelas ou portas, para proteger da luz e do calor, e através da qual se pode ver sem ser visto”. Qualquer semelhança com ciúme ou com zelo não é mera coincidência.

Dizem que a “gelosia” como “janela” vem do árabe. Era um tipo de proteção que os maridos árabes utilizavam para que suas mulheres não fossem vistas por quem passava do lado de fora, sem precisar fechar a janela. A etimologia, como acaba de ser demonstrado, está muito mais próxima da psicanálise do que poderíamos imaginar. Afinal, quem senão um ciumento, disfarçado de zeloso, pede para instalar em sua casa, onde mora uma linda mulher, uma gelosia?

Isso tudo porque, na origem, as palavras estão mais ligadas ao mundo concreto do que na atualidade, em que as abstrações acabam gerando distâncias maiores entre as palavras e as coisas. É só procurar duas palavras aparentemente desconexas e ver que na origem elas eram iguais, para descobrir uma relação oculta entre elas.

Dado e azar, por exemplo. Em árabe…

* * * * *

Noemi Jaffe nasceu em São Paulo, em 1962. Doutorou-se em literatura brasileira pela USP e atualmente é professora da PUC-SP. Seu livro mais recente, A verdadeira história do alfabeto, foi lançado pela Companhia das Letras em outubro de 2012.
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3 Comentários

  1. Jerome Ellis disse:

    Obrigado, Noemi! Será que a senhora poderia recomendar mais para ler sobre esta conexão entre a etimologia e a psicanálise/psicologia? Fiquei muito interessado.

  2. Enquanto lia pensava o tempo todo em uma palavra que não entrou na lista mas caberia bem: gaiola. Muito bom!

  3. Ramon de Córdova disse:

    Que delícia!

    Sorvi este texto linha por linha! Uma verdadeira iguaria! AMBROSIA!
    E também uma viagem… fui para outro continente. Mas não só! Viajei no tempo! O texto me lançou para o passado. E seus eflúvios me presentearam os sentidos com brumas, sonhos de futuro.
    E toda essa farra sem nem sinal de, ao final, me ser apresentada a conta, acrescida dos 10% pelo serviço prestado.
    Noemi, como não te ser visceralmente grato?! A era de aquário, tão almejada, tão generosa, eis que se fez concreta!
    Obrigado!

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