Por que quadrinhos? (1)

Por Érico Assis
Imagem retirada do quadrinho “Umbrella Academy”, publicado pela Dark House. Todos os direitos reservados a Gerard Way.

“Era mais difícil entrar nos quadrinhos do que virar vocalista de banda de rock.”

Quem falou isso foi Gerard Way, vocalista da banda My Chemical Romance, numa entrevista recente. Queria ter sido quadrinista. Ele estudou quadrinhos na School of Visual Arts de Nova York – Will Eisner, David Mazzucchelli, Carmine Infantino já foram professores por lá –, e ouviu de Infantino que todo aluno devia pensar numa carreira Plano B, pois o mercado de HQs estava no buraco. Way formou a banda com os amigos e vendeu quatro milhões de discos na década em que todo mundo parou de comprar disco. Depois foi fazer gibi.

“Era mais difícil entrar nos quadrinhos do que virar vocalista de banda de rock.” Até dá para dizer que Way exagerou na declaração, ou que ela é uma referência a um período, na virada do século, em que o mercado de quadrinhos dos EUA estava realmente no buraco. Mas a frase dá conta de uma realidade de mercado: é difícil entrar no mercado de quadrinhos. É difícil ser quadrinista. Não só nos EUA, mas também na Europa, no Japão, no Brasil e onde mais se quiser.

Fora entrar, também é difícil se manter. O nível de exigência dos editores – em termos estéticos, em termos de prazo, em termos de cada um ter uma ideia completamente oposta do que constitui uma boa HQ – é bastante alto, a concorrência inicial é abundante e quase todo mundo é free-lancer sem benefícios nem previsibilidade de demanda. Publicar de forma independente – fundar a própria editora, fazer webcomics, usar crowdfunding – dá uma trabalheira do cão, na qual fazer uma boa HQ é menos de metade do processo.

Fortuna não é motivação. Por mais que existam milionários do ramo em todos os mercados (inclusive o brasileiro), eles são poucos. A maioria ficou milionária porque enveredou pelo franchising de cinema, desenhos animados, bonequinhos, fraldas descartáveis etc. – é a regra do mercado japonês, cada vez mais do norte-americano. Há um punhado que pode contar seus milhões só de fazer quadrinhos. Mas são exceções.

Há dúvidas constantes. Stan Lee, empregado dos quadrinhos desde a década de 40 (e talvez o milionário mais consistente do ramo), sempre declarou recaídas por outras carreiras: romancista, ator, roteirista de cinema, dramaturgo, poeta. Quase toda entrevista com o Alan Moore questiona por que sua genialidade não foi aproveitada em outras áreas que não os quadrinhos. De tanto ouvir isso, Neil Gaiman, Frank Miller, Joann Sfar, Katsuhiro Otomo, Lourenço Mutarelli e outros foram adiante. Hoje em dia, com um nível técnico e imaginativo sem precedentes, pergunta-se a todo desenhista de HQ por que não trabalha para a indústria de games, ou de cinema, ou de publicidade – todas pagam muito melhor pelo mesmo (ou por menos) serviço.

Se o Gerard Way diz que é mais fácil virar rockstar internacional, com groupies, mansões e milhões – ou o equivalente como artista plástico, roteirista de cinema ou TV, diretor, escritor de literatura –, então: por que quadrinhos?

Espero ter ajuda para responder nas próximas colunas.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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12 Comentários

  1. […] a vários quadrinistas brasileiros por que eles e elas fazem quadrinhos. Já rendeu quatro colunas: esta, esta, esta e esta. Seguem inéditas […]

  2. […] a vários quadrinistas brasileiros por que eles e elas fazem quadrinhos. Já rendeu três colunas: esta, esta e esta. Fiz uma pausa na série, mas agora […]

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