Ray Manzarek não morreu

Por Tony Bellotto



Ray Manzarek, tecladista do The Doors.

O telegrama – sim, ainda existem telegramas – enviado do pequeno vilarejo de Hammond, no deserto do Novo México, nos Estados Unidos, traz a revelação bombástica: ao contrário do que noticiam os jornais, Ray Manzarek, lendário tecladista do The Doors, a banda californiana que revolucionou o rock nas décadas de 1960 e 1970, não morreu.

Ele teria se retirado para uma misteriosa comunidade de tecladistas de rock, num rancho isolado no deserto, distante centenas de quilômetros de Hammond.

Ali já vivem há anos em constante experimentação estética Ray Charles, Johnnie Johnson – que foi o pianista de banda de Chuck Berry -, Jon Lord, tecladista do Deep Purple, e Richard Wright, do Pink Floyd.

A comunidade foi criada em 2001, logo após os ataques de 11 de setembro, e sua principal finalidade é preservar a integridade física dos tecladistas e arquivar seus trabalhos e depoimentos. Com isso, desejam comprovar a importância dos teclados no rock, um gênero em que a guitarra é considerada o grande esteio.

Pergunto-me por que razão recebi tal telegrama, sendo que sou um guitarrista profissional, e na adolescência abandonei as aulas de piano no conservatório por considerá-las muito chatas.

Talvez tenham me enviado a mensagem por saberem que sou fã de tecladistas roqueiros e que sei, como poucos iniciados, que o verdadeiro inventor dos incandescentes riffs de guitarra de Chuck Berry, seminais para o gênero, foi Johnnie Johnson. Chuck apenas transpôs para a guitarra os acordes e as divisões rítmicas que Johnnie criara no piano.

De qualquer forma, agradeço o engano dos Correios (ou teria sido do FEDEX?), pois andava meio deprimido com a notícia da morte de Manzarek, que me fez pensar na finitude da vida e desencadeou todos aqueles questionamentos que costumam acometer pessoas com mais de cinquenta anos quando leem o nome de um ídolo nos obituários.

A comunidade, sem pressa nenhuma, aguarda um dia a chegada de Matthew Fisher, do Procol Harum – se veio à sua mente o solo de órgão de Whiter Shade of Pale, talvez você também receba um telegrama qualquer dia desses -, Jerry Lee Lewis (já existe uma estátua de Jerry Lee no portal de entrada da comunidade), John Paulo Jones, Tony Banks, Keith Emerson, Rick Wakeman, Elton John e também dos brasileiros Guilherme Arantes, Arnaldo Baptista e Lafayette Coelho, entre muitos outros.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

6 Comentários

  1. Josue P. J. de Freitas disse:

    Que belo post ! O som do Hammond é mágico. Agora, entrando em off-topic, divago sobre o que o Tony acha da El Efecto, banda carioca que ‘concorre’ com eles no Prêmio da Música Brasileira a ser anunciado nesta Quarta (12/06)… na minha opinião, só o fato de uma banda totalmente independente estar concorrendo com dois monstros nacionais como Titãs e Nação Zumbi já é algo fantástico ao ponto de em conseguir imaginar um nascer do Sol acompanhado por um bela melodia entoada por um bom e eterno Hammond.

  2. Emmanuel Hernutte disse:

    Belo Texto Tony!
    Aproveitando o ensejo, tava lendo “No Buraco” e achei um baita livro! Uma pergunta: O parceiro do Teo, o Tiago, seria o Marcelo Fromer? (Inspirado em alguma situação)??

    Abraços.

  3. Tony Bellotto disse:

    Rody, não incluí o Britto, apesar de fã dos teclados dele, porque não quero ficar puxando a brasa pra sardinha da minha banda, sabe como é? Mas ele com certeza tem um lugar garantido no rancho…quanto a temer a morte, bem, tudo que posso dizer é que discos gravados, livros publicados e filhos não garantem tranquilidade perante a ceifadora…
    Daniel, perfeito, “comicidade desencantada”, adorei. Há tempos persigo uma literatura que defino como “erúdula e melancômica”, ao mesmo tempo erudita e chula, melancólica e cômica. Estou longe de alcançá-la, mas só de perseguí-la já me sinto realizado…
    Charlles, você está certo, o que os olhos não veem o coração não sente. Manzarek não morreu!

  4. Pô, Tony! Me pegou desprevenido nessa. Há alguns dias estou longe da net e não sabia da morte do Manzarek. Fiquei muito comovido com seu texto. E que bela ideia: uma comunidade de tecladistas refugiados do mundo!

    Valeu, cara!

  5. Daniel Abreu disse:

    Tony, li o teu Machu Picchu. Comicidade desencantada, não? Gostei. Abraço.

  6. Rody Cáceres disse:

    Cara, eu quase acreditei!

    Faltou o Sérgio Britto, mas entendo o motivo de não incluí-lo na lista (#mórbido).

    Meu, não tema a morte, você gravou discoS, escreveu livroS, fez filhoS; sinta-se realizado. Temo eu a morte, com 31 e só um blog de poemas kkkk!

    Be happy!

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