Você trabalha com quê?

Por Juan Pablo Villalobos

No México tem uma pergunta clássica para iniciar conversas interessantes em botecos: ¿estudias o trabajas? É o lugar-comum para começar a paquerar. Porém, resulta que o tempo passa (vocês perceberam?) e de repente você não tem mais esse tipo interessante de conversas interessantes e os seus cenários cotidianos de interação social passam a estar à beira dos parquinhos, à beira do campo das aulas de futebol, à beira da piscina das aulas de natação, à beira dos malditos bufês das festas de aniversário (oh, grande desgraça do Brasil…) e outras muitas beiras onde as crianças ficam no centro.

Quando você fica sabendo que será pai, todo mundo fala que você não vai dormir mais, que já pode esquecer de programas ambiciosos, etc. Ninguém prepara você para o novo tipo de conversa que passa a ter: os bate-papos com os pais dos amiguinhos de seus filhos. Para começar, o ¿estudias o trabajas? vira simplesmente você trabalha com quê? Tudo bem, é uma pergunta inofensiva, mas… e se você é escritor?…

Juro que eu conheço escritores que, para não ter essas conversas, preferem mentir, falar que trabalham com gado, ou que são astronautas ou a pessoa que vai dentro da galinha pintadinha. Confesso que eu estou quase ideando alguma estratégia parecida, aproveitando que sou mexicano. Poderia responder, por exemplo: faço negócios. E guardar silêncio. Se o interlocutor insistir perguntando que classe de negócios, dizer: importações, exportações, coisas do México, não posso falar muito para não pôr você em risco. O que vocês acham? Funcionaria?

No Brasil, sem exceção, a primeira reação do interlocutor quando descobre que você é escritor é a seguinte frase:

Nossa, que legal.

No México:

Órale, qué buena onda.

Ou seja: a perplexidade.

A conversa continua.

Você escreve o quê?

Se você é romancista ou contista, aqui está a última oportunidade de arrumar a situação. Responda qualquer coisa: que você é o correspondente do Taiti Tribune ou que você edita a revista da Associação Brasileira de Criadores de Girafas (a famosa ABCG). Faça-se um favor, não diga:

Escrevo romance, contos… ficção.

Se você disse, se você, ainda sendo um ficcionista, decidiu respeitar a verdade, se prepare. Segunda reação:

Nossa, que legal! Órale, qué buena onda.

Agora chega uma de minhas perguntas “favoritas” (aqui é quando você percebe o tamanho de seu erro).

E de onde é que vem a inspiração para escrever?

Dependendo do olhar da pessoa e da disposição dos músculos do seu rosto, o que realmente ela quer perguntar é:

Você não tem um trabalho de verdade?

Você fica brincando de imaginar historinhas o dia inteiro?

Não tem vergonha com os seus filhos?

Você fuma um?

Eu falei para você: era melhor mentir desde o início. Deu risadinhas com a galinha pintadinha?, não era piada, não. E de onde que vem a inspiração, Zé? Me ajuda! Aí você fica balbuciando qualquer coisa, utiliza expressões empresariais (do tipo: projeto narrativo), assegura que você trabalha de 8 a 10 horas por dia (o que é verdade mas soa a mentira) e até diz que fica estressado por causa dos deadlines (oh, my God).

Não quero entrar em polêmicas sobre a mitificação da escrita e seu caráter sagrado. O fato é que, de acordo com a sociedade atual, escrever é uma profissão como qualquer outra. É verdade que ainda se reconhece que escrever é uma questão de vocação, mas se você escreve é porque é um trabalho e paga as contas. Paga as contas? Ha ha ha. Entramos na terceira fase da conversa: o modelo de negócio. A pergunta tenta ser elegante, mas tirando eufemismos é:

Como você faz dinheiro?

Você queria ser escritor e aspirar a escrever alguma vez alguma coisa transcendente e termina explicando dos royalties, de percentagens, dos agentes literários, das palestras e cursinhos, do pagamento por lauda…

Felizmente, existe o futebol. Você aproveita a primeira pausa da conversa e faz um belo cruzamento: Viu que o Barcelona já acertou com o Neymar? Ufa! E tem pessoas que dizem que o futebol é o ópio do povo… Eles não devem ser escritores. Ou eles são escritores, mas não têm filhos.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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11 Comentários

  1. Mika Lins disse:

    Juan, bem melhor do que quando respondem pra gente. ” Só teatro?”

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