A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves – **Extras!**

Por Joca Reiners Terron

Edições de filmes em DVD sempre trazem como bônus cenas cortadas, depoimentos dos artistas etc. Pode parecer que foi ideia da indústria do cinema essa maneira de vender até as sobras, mas não se deixem enganar, o cinema não inventou muito além do uso da bengala (Chaplin) e dos postes de luz (Gene Kelly) para fins recreativos. Antes disso, a indústria editorial já havia lançado a edição fac-similar do original de The Wasteland, de T.S. Eliot, com garranchos, cortes e resmungos nas margens feitos por Ezra Pound, em muito responsáveis pelo destino grandioso do poema.

Seguem abaixo, portanto, guardadas as proporções, dois trechinhos cortados do livro. Agradecimentos a André Conti, meu “Pound particular”.

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Cena 32 – Na floresta

“No final da fila que enveredava pelas trilhas do parque, a senhora X levantou a criatura e começou a lhe contar mais um episódio das aventuras do leopardo-das-neves. Na história, a senhora X penetrava a gruta do Nocturama. Ela não sentia medo algum. O ar era frio no interior da gruta, e uma sensação agradável de retorno à casa materna tomou conta da senhora X. O Senhor a devia estar protegendo, ela pensou. Com o rosto escondido sob o capuz, a pequena criatura puxava as pontinhas vazias dos dedos de suas luvas de couro enquanto a ouvia. Não falava nada, como sempre. E como poderia falar algo? A senhora X dizia que atingiu um ponto da gruta em que já não era possível enxergar diante de si. Ela tinha caminhado por horas e horas, tropeçando em pedras e cabeceando estalactites. A gruta não tinha mais fim, e a senhora X temia despencar num abismo que de repente se abrisse no breu à sua frente. A temperatura ficava cada vez mais baixa, e dava para sentir sua respiração formando nuvens densas de ar que procurava seguir como forma de orientação. A caminhada se estendeu por tanto tempo que ela acabou esquecendo o que fazia ali, ou quem habitava aquela gruta tão profunda. Foi então que ouviu o rosnado atemorizante. Lembrava um lamento, e a atemorizava ainda mais por esse motivo. Um rosnado triste. A senhora X mirou a vastidão negra de onde pensou ter ouvido o ruído, e viu dois olhos sanguíneos que levitavam na escuridão. Então ouviu uma voz que lhe dizia: “Não avance mais. Cuidado. O silêncio me oprime. Fique aí. Não avance mais. Não.” O ritmo pausado da fala a surpreendeu, pois recordava o de uma criança que aprendia a falar. A voz continuou: “Só lhe peço que nada fale. Apenas ouça. Sou o último dos meus. Estou doente. Nada fale. Ouça. Não tenho futuro. Meus dias chegaram ao fim. Fui abandonado pelos outros de minha raça. Eles morreram. Serei extinto, como dizem. Fique quieta. Morrerei, como dizem. Quieta.” Ao repetir as palavras ditas na história, a senhora X imitava a sintaxe sincopada da fera. O barulho desagradável da saliva seca em sua boca sugeria palavras vindas de uma garganta que não era usada havia muito tempo, quem sabe por quantos séculos. Parecia a porta de um castelo assombrado sendo aberta. A voz prosseguiu: “Não quero mais ouvir vozes. Vozes do passado. Em minha cabeça. Serei o seu último paciente. O terminal. Nada fale. Ouça.” Ao repetir essas palavras, a senhora X percebeu que comprimia o corpo da criatura contra o seu com demasiada força. Por Deus nosso Senhor, podia machucá-la, a pobre era muito frágil. Mas a criatura permaneceu em silêncio, ao contrário do leopardo-das-neves que falava através da senhora X: “Não quero mais ouvir a voz humana. Aposente sua piedade. Nada fale. Silêncio.” Então a senhora X se calou. Os olhos da criatura luziam no fundo escuro do capuz. Seus dentes brilhavam no que parecia ser um sorriso. Um sorriso triste, se isto é possível.”

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Cena 51 – No circo

“Eles me fazem lembrar de um poema que li certa vez. O poema contava a história de um urso que todos os dias vestia sua máscara de homem, sua pele de homem e suas roupas de homem, e seguia até a cidade para trabalhar no mercado financeiro. Ao longo do dia, o urso operava com altas e baixas da bolsa, mas sob suas luvas humanas continuavam a existir as patas peludas de um urso. Um dia se casou com uma mulher e teve uma filha. A filha adorava ir ao circo, e, num domingo ensolarado, os dois assistiram ao espetáculo de uma velha ursa num monociclo. O urso então pensou que aquela velha ursa podia ser sua mãe, e disfarçou as lágrimas que lhe escorreram no seu rosto de urso sob a máscara de homem.”

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, acaba de ser publicado. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

2 Comentários

  1. Acabei de ler “A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves”.
    Gostei muito mas achei estranho um crime ter sido cometido e não percebi.
    Que doença vc imaginou para a crianca(criatura)?

  2. Daniel Abreu disse:

    Cheio de subliminaridades… Gostei.

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