Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução

Por José Francisco Botelho

Lancheria do Parque

Stanley Kubrick certa vez disse que dirigir um filme é como escrever Guerra e paz em uma montanha russa. Não tenho ideia de como seja dirigir um filme ou escrever Guerra e paz. Mas traduzir Os contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, foi como passar doze meses em uma montanha russa, no meio de um terremoto, tentando equilibrar nas mãos um glossário de inglês medieval. Vou sentir falta dos solavancos.

Mas antes de falar sobre o Chaucer, preciso falar sobre a Lancheria do Parque e sobre o Bom Fim. Mais que um bairro, o Bom Fim é o coração excêntrico de Porto Alegre — o lugar onde tocadores de gaita escocesa se topam com judeus hassídicos impecavelmente vestidos de preto, e onde um sujeito em puídas bombachas de gaucho platino há tempos tenta me vender sua coleção de gibis da Marvel. O ponto nevrálgico do Bom Fim é a Lancheria do Parque — o lugar que serve o melhor suco de laranja batido em todo o mundo sublunar; e onde os garçons gritam os pedidos dos fregueses, a plenos pulmões, para os funcionários do outro lado do balcão.

Quando o editor Leandro Sarmatz me lançou a proposta-desafio de traduzir Os contos da Cantuária em versos — isso foi por volta do início de 2012 — eu alugava um escritório no segundo andar de um casarão histórico, cor de rosa, a meia quadra da Lancheria. Não havendo ar condicionado ali, comecei a traduzir o Chaucer ao sabor das intempéries porto-alegrenses, cujo nome é legião. Completei os primeiros decassílabos em meio ao calvário do verão de Porto Alegre, com a ajuda de um honesto ventilador de canto — mas, quando vieram os meses do inverno, o halo avermelhado de minha estufa apenas acentuava o fato de que meus dedos estavam gelados demais para digitar. Algumas tardes, então, passei a me transferir com livros, papéis e canetas a uma das mesas da Lancheria, onde o ajuntamento de pessoas me proporcionava o necessário calor (humano, no caso) para seguir trabalhando.

Pelos meus cálculos, traduzi três contos inteiros em meio aos célebres brados de “laranja batido!” e “farroupilha de salaminho, prensado!”. Um outro frequentador contumaz do local, notando minha aplicação meio maníaca sobre aqueles papéis, certa vez me perguntou o que eu escrevia. Sofro de uma certa timidez de escritor, que me leva frequentemente a mentir (de forma irracional) sobre o que estou escrevendo. De forma que respondi: é um roteiro, para um filme sobre contrabandistas. (Eu realmente pretendo um dia escrever um roteiro sobre contrabandistas. Seja como for: algumas semanas atrás voltei à Lancheria, e o mesmo habitué me perguntou “como vai o roteiro”. Dei de ombros e respondi: “Larguei de mão”).

Mas antes de prosseguir, preciso falar de Bagé, e dos maçaricos — me refiro ao pássaro, não à ferramenta. Quando eu já havia chegado mais ou menos à metade dos Contos — lá pelo “Conto do Navegador”, eu acho — me mudei de cidade. Por motivos longos demais para este modesto relato, vim morar por algum tempo em minha cidade natal, Bagé, em uma das regiões mais isoladas do Brasil, na fronteira profunda com o Uruguai. Em sua solidão algo orgulhosa, a cidade gosta de recordar certos visitantes inusitados: Omar Shariff costumava jogar bridge no Clube Comercial (era amigo do dono de um haras, aqui perto); Richard Gere era visto tentando comprar pãezinhos em uma padaria local (ele namorou, por um tempo, uma pintora bajeense); e Yves Montand certa vez deu uma canja em um famoso restaurante de pescados (não tenho a menor ideia do que Yves Montand fazia por aqui).

Mas, bem,  o que interessa é que  passei a viver em uma casa antiga no centro histórico de Bagé, com um pátio enorme e decadente, frequentado regularmente por bandos de maçaricos:  eles são pássaros compridos, escuros, cujo canto é formado por piados distintos, sincopados e vagamente ominosos. A essas alturas, a tradução diária de decassílabos já havia se entranhado de tal forma em minha cabeça que eu tentava escandir e metrificar tudo a minha volta. O prazo final se aproximava, e o medo de falhar na empreitada me levou quase a duplicar as horas de trabalho. No supermercado, eu me flagrava contando as sílabas dos nomes dos produtos, na ponta dos dedos; outras vezes, lá estava eu a  escandir as primeiras palavras de minha filha, que na época completava uns dois anos de idade; em alguns momentos do dia, minha esposa era obrigada a me chamar de volta ao já quase esquecido mundo das frases sem métrica: “Chega de decassílabos, Chico”.

Mas, à noite, o ritmo surdo dos decassílabos continuava pulsando entre minha cabeça e o travesseiro.

O clímax dessa história ocorreu certa tarde, quando eu chegara ao nebuloso píncaro de um capítulo, e tudo ao meu redor parecia estranho e mudo; e foi então que um maçarico passou voando pela janela. A sombra bateu em meu rosto, fiquei atordoado por uns instantes, houve um movimento involuntário de meus dedos. E percebi: eu estava tentando escandir os piados do maçarico. Pensei, nitidamente: Agora, sim, estou virando o louco dos decassílabos. Cogitei o desespero por um instante, mas então fiz aquilo que sempre se deve fazer em momentos de espasmo existencial. Eu fui preparar um mate.

Enquanto tomava o chimarrão, a sensação de mau agouro se desfez e percebi que, na verdade, estava tudo acabando, para o bem ou para o mal: faltava pouco, muito pouco para o fim da montanha russa. O verão havia voltado e a loucura dos decassílabos em breve iria acabar. Desde que eu me sentara para escrever o primeiro verso do “Prólogo geral”, minha filha havia aprendido a andar e a dizer “Nabucodonosor”; dois fios brancos haviam surgido em minha barba. Eu havia passado doze meses na companhia de Harry Bailey, o Albergueiro, e sua trupe — em breve, muito em breve, iríamos nos separar. Nesse momento, senti algo semelhante ao que Rudyard Kipling descreve em um dos melhores contos do Livro da selva: “Uma grossa e morna lágrima caiu em seu joelho e, triste como se sentia, Mowgli sentiu-se feliz por estar tão triste — se é que vocês conseguem entender essa espécie de felicidade de ponta cabeça”.

Não chorei, claro — sou hiperbólico, mas não melodramático. Terminei o mate, enquanto minha felicidade de ponta cabeça era invadida por outra sensação igualmente imponderável. Eu sairia dos Contos, em breve, e para sempre — mas, graças aos meandros da vida e da literatura, minhas duas terras estranhas, o Bom Fim e Bagé, ficariam de alguma forma lá dentro, enfeitiçadas e escandidas, entre os loucos, os lordes, os santos e os depravados de meu querido Geoffrey Chaucer.

[A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano.]

* * * * *

José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

10 Comentários

  1. José Francisco Botelho disse:

    Muito obrigado, Geraldo! Um abraço,
    Francisco.

  2. Geraldo Carneiro disse:

    A tradução do José Francisco Botelho é uma obra-prima. Como diria Catulo (o da Paixão, não o outro): talento e formosura.
    Parabéns.
    Geraldo Carneiro

  3. […] (ISBN 9788563560803), the verse translation is introduced to us via two blog posts. In the first (Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução), Botelho describes how he came to translate The Canterbury Tales; in the second (Chaucer e as […]

  4. […] [A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano. Leia o post anterior, "Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução".] […]

  5. Fabio disse:

    Fiquei na expectativa. Tentei ler uma versão em Inglês moderno (por sinal, um Penguin Classic) e tive dificuldade. Imagino a dificuldade de verter o original para o Português.

  6. José Francisco Botelho disse:

    Obrigado, Pelizzari! Aquele cheiro de laranja espremida, que está sempre flutuando ali pela terceira mesa da Lanchera a contar da porta, sempre me ajudou a me concentrar. Hoje, sinto falta.

  7. Sensacional demais, parabéns (e não só por conseguir traduzir Chaucer no meio da Lancheria). Mal posso esperar para ler.

  8. José Francisco Botelho disse:

    Gustavo, os Xis da Lancheria são demais pra mim, mas os pastéis e as torradas deveriam assinar a tradução junto comigo, porque foram essenciais.

  9. Gustavo disse:

    Não sabia que os Canterbury Tales que em breve inundarão as prateleiras nacionais estavam sendo traduzidos a poucos metros de casa. Se tu tivesses avisado, eu teria contribuído com pizzas. Ou com Xis feito pelos homens peludos da Lancheria do Parque.

  10. Ernani Ssó disse:

    Guardem um exemplar pra mim.

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