Do catálogo: Poesia erótica (José Paulo Paes)

Por Leandro Sarmatz

stoned erotics

Vale memorialismo? Pois comprei a primeira edição de Poesia erótica em 1991, na livraria Sulina (Rua Riachuelo, centro de Porto Alegre). Era setembro — dali a um mês começaria a feira do livro (Praça da Alfândega), mas eu não poderia esperar até lá para garantir o meu exemplar com desconto. Não depois que o folheei pela primeira vez, na Livraria do Globo (Rua dos Andradas, née da Praia), e — como falamos de primeira vez — fiquei com os famosos mixed feelings a respeito do que eu estava lendo. Veja bem: eu era bastante jovem, era ainda um teen, mas já tinha alguma quilometragem de leitura de poesia (Baudelaire e Rimbaud a granel graças à Aliança Francesa, A rosa do povo, algum T.S. Eliot). Mesmo assim eu continuava com uma atitude meio solene com a coisa toda. Poesia falando de tédio em Paris, de melancolia na Avenida Getúlio Vargas ou dando o baile metafísico diante do Tâmisa, ok. Mas e “vaselina”, “foda” e “buraco” como substantivos do mais alto lirismo? Podia? Podia mesmo? Sério que podia?

Rapaz, foi uma revelação. A edição — hoje em bolso, mas naquele tempo num sofisticado e inesquecível projeto de Moema Cavalcanti — abriu todo um universo para o então imberbe leitor. Para início de conversa, tinha (tem) a introdução do próprio José Paulo Paes, um passeio erudito e gostoso pela literatura erótica e pela própria discussão acerca de erotismo e pornografia (resumindo à moda da casa: erotismo incita, pornografia excita). O próprio texto introdutório já contava com uma penca de referências para garimpar em bibliotecas e sebos. E eu fui atrás, claro.

Mas aí começava a antologia. Cronologicamente tinha início com os pais de tudo, os gregos, esses safadinhos. Destes passava para Catulo (o do eros latino, não o da paixão cearense), depois para franceses medievais, Aretino (um mestre entre mestres, e posteriormente traduzido com mais fôlego pelo próprio J.P.P.), Século de Ouro espanhol, ingleses, alemães, Pablo Neruda, Apollinaire (onde li o poema sobre vaselina) e grande e assanhado elenco. Tematicamente, se o eixo é o sexo, a sacanagem, as efusões de eros, é possível acompanhar o percurso do desejo tratado de maneira artística ao longo da história ocidental. A linguagem avança, abranda e avança novamente. Os antigos eram crus, depois houve um amansamento da linguagem e em seguida — sobretudo na modernidade — a crueza ou o refinamento para tratar do sexo obedecem não mais a ditames morais ou de escola literária, mas à adequação de cada discurso.

A representação do corpo também muda nessas transições em que a aspereza é limada e dá lugar à metáfora, e qualquer leitor da recente voga do romance pornográfico sabe que o equilíbrio entre crueza e metáfora é que dá aquele tempero a certas cenas…

Há outros elementos presentes em grande parte dos poemas selecionados para o livro. As mulheres, por exemplo, aparecem como brinquedinhos úmidos até, pelo menos, Aretino. Depois mandam ver, são impiedosas, fogosas, vorazes, deixam os caras ainda mais fissurados por elas. Normal, absolutamente natural.

Fora o calor natural a quase todos os poemas, a leitura de Poesia erótica é uma amostra portátil do fôlego, da amplitude e da sapiência de seu tradutor, um dos mais criativos, informados e rigorosos que já tivemos. Além do mais um grande poeta, J.P.P. captura — com imensa inteligência — as vozes e dicções do elenco de poetas reunidos para o livro. E linguagem, em poesia, e ainda mais em poesia erótica, é uma grande encrenca: transpor expressões chulas de gregos e latinos, imagens cultivadas de sonetistas do século XVIII, gírias parisienses de cabaré, tudo isso é para poucos. É preciso ter um amor muito especial pelo seu ofício. Coisa que José Paulo Paes tinha de sobra, mesmo e principalmente quando (parafraseando Drummond) era docemente pornográfico.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

2 Comentários

  1. Sarmatz disse:

    Legal, Ramon, obrigado.
    Sim, O amor natural está em nossa programação. Não para este ano, mas em breve.
    Abraço.

  2. Ramon de Córdova disse:

    Leandro, valeu pela dica! De coração!

    Vou agorinha mesmo adquirir o meu exemplar (a edição de bolso da Companhia está com uma encadernação bem maneira), principalmente agora que descobri que os Carmina Burana estão inclusos no volume!

    Grande abraço e até a próxima dica literária! Siga arrumando sua biblioteca! ;)

    Ps. Aproveitando que você mencionou Drummond pouco antes de se despedir, e aproveitando também o tema do post, vocês não querem, já que estão mesmo relançando o repertório do mestre, presentear os brasileiros trazendo novamente para as prateleiras O Amor Natural???

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