Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo

Então. Primeiro de tudo, como perceberam os mais sagazes ali pelo rodapé e ficaram sabendo os seguidores do lacônico tuiteamento do @FBEbAb, esses textos aqui agora vão aparecer só mensalmente, ok?

Tão tá.

De novo num exercício de futurologia aqui, quando você estiver lendo este texto deverão estar me faltando umas 100 páginas pra terminar a revisão da tradução. Está sendo bem divertido, como sempre, mas meio angustiante.

Deixa primeiro eu te explicar o porquê da angústia, depois falo do depois, e depois canto um hino. Ó, vinde.

A angústia tem a ver com duas coisas. Como eu sempre repito aqui, eu sou tradutor de proverbiais ‘horas vagas’: a minha identidade secreta básica continua sendo a de professor universitário, que como sabem muitos é uma carrada de carreiras (professor/orientador/parecerista/revisor/ensaísta/vice-coordenador de curso [no meu caso, eleito tem coisa de um mês]), e aí o ritmo de trabalho fica meio gago. Se na primeira semana eu encarei 277 páginas de revisão, as duas seguintes, somadas, não chegaram a 250, a quarta foi boa de novo, e entro agora na quinta numa semana em que terei duas bancas de mestrado (tarde inteira), além da carga normal em sala de aula.

Esse lado aí só acrescenta ao segundo. A tradução me tomou tipo 10 meses, que contaram com um intervalo de uns três em que, como sabem os leitores mais ‘fiéis’, a vida (e a morte) me atropelaram e eu não consegui trabalhar.

Ou seja, é trabalho difuso. Feito os poucos.

A ideia da revisão, por isso, seria a de propiciar algo mais próximo de uma visão global. Mas o livro é ENORME. E o trabalho se arrasta. E você acaba que fica com a curiosa sensação de não apenas estar fazendo malabarismo com dezenas de bolinhas, mas de ter que continuar por semanas a fio. E parando aqui-ali com as bolas no ar. Sem deixar nada cair. A sensação daquele monstro que te espreita o tempo todo é bem pesada….

Só na semana passada duas vezes eu acordei no meio da madrugada (um barulho na rua; pressãozinha urinária) e acabei passando belos minutos tentando resolver problemas ainda pendurados (um acrônimo aqui, um nome de personagem acolá [nome? É… nome…: pois o que você faz se há toda uma série de conexões entre os alcoólicos anônimos e o tênis, no livro, que se simboliza muito bem no fato de haver um grupo AA chamado Caring and Sharing e duas jogadoras (siamesas!) chamadas Karyn e Sharyn Vaught?])…

Mas está acabando. E as bolas (aquelas, no ar) vão diminuindo de número.

E aí pronto? Nada. Enquanto releio vou resolvendo (santo ctrl+l) vários problemas de recorrências, tentando matar todas as repetições de termos iguais etc… mas algumas coisas, ou por irresolvidas ou por mais ‘densas’, vão ficando numa checklist que vai render a última passada pelo texto, toda na base do ctrl+l. E essa checklist já está com duas páginas de word.

Mas nem tudo das merdas que eu sempre hei de fazer vai se resolver, nem depois disso. E aí que o que restar dessa checklist vai gerar um outro documento, uma algo alentada carta que como sempre eu vou mandar junto com a versão ‘final’ da tradução (daqui a umas duas semanas, acho) pra pessoa de maior teor de santidade nessa terra.

O preparador!

Já se falou dele (ou dela, na verdade, com mais frequência) por aqui. Por hoje fique só o meu hino de devoção profunda a gente como a Marcia Coppola (a mulher: o mito) ou a Ciça Caropreso, os salvadores dos tradutores desesperados, resgatadores de textos perdidos, os maiores parceiros das melhores traduções e os responsáveis por redimir as piores.

Salvai-me a mim de mim e de mim seu Dave!

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 2° semestre de 2013. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

6 Comentários

  1. J.V. disse:

    Tenho esperança.

  2. Sidney disse:

    O lançamento da tua tradução de Infinite Jest não será prejudicado pela edição portuguesa que já se encontra à venda e com destaque nas grandes livrarias daqui?
    E usas essa tradução para realizar a tua ou finges que ela não existe para não prejudicar o teu trabalho?
    http://apiadainfinita.blogs.sapo.pt/

  3. Não disse:

    Um só texto por mês é cruel. Cruel.

  4. […] Por Caetano Galindo BLOG DA COMPANHIA […]

  5. Bardamu disse:

    Galindo, espero que sua tradução não me dê bolinhas desequilibradas e sei que não, confio em você. Posso pedir algo? Gostaria que m’explicasse um poquin do CONTEXTO da obra na Vida do Autor(o que ele trouxe de Broom of the System, etceteras)…

  6. Ramon de Córdova disse:

    Traduzir deixa mesmo o cara maluco! Por isso que abandonei a tempo esta senda. Bem, é que já nasci maluco. Acrescida a tradução em minha vida, viraria maluco ao quadrado, ou, melhor dizendo, maluco à nona, vez que matemática de maluco é, por assim dizer, e por compaixão, também maluca.

    (ctrl + l)

    Traduzir deixa mesmo o cara maluco! Por isso que abandonei a tempo esta senda. Bem, é que já nasci doidinho. Acrescida a tradução em minha vida, viraria zureta ao quadrado, ou, melhor dizendo, louco varrido, vez que matemática de tan tan é, por assim dizer, e por compaixão, também pancada.

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