Festa na rua

Por Juan Pablo Villalobos


O taxista olha para mim no retrovisor e pergunta: “E agora?”. São 19h30 da quinta-feira 13 de junho e estamos trancados na Avenida Consolação por minha culpa, porque 20 minutos antes, diante da mesma pergunta, eu respondi: “Vamos continuar”. Estou tentando chegar ao SESC Consolação para a estreia da peça de teatro baseada no meu primeiro romance, Festa no covil. Através da janela do carro observo manifestantes subindo a avenida, camionetes da PM descendo na contramão, trabalhadores curiosos presenciando a passeata desde a porta dos comércios, skates circulando entre os veículos, helicópteros que sobrevoam, um moleque que foge e uma garota que corre atrás dele. Uma das pessoas que convidei para a estreia avisa por celular: “Você viu o que está acontecendo? Não vai dar para chegar. O teatro tá no olho do furacão”.

A primeira coisa que penso (defeito de cronista) é que deveria descer do táxi e me enfiar entre os manifestantes. Daria para escrever um belo texto que poderia ser publicado em um jornal ou revista do México. A segunda coisa que penso (defeito de megalomaníaco) é que — porra — o Brasil tinha que entrar em revolta justo hoje só para impedir que eu chegasse ao teatro.

Tento puxar um papo com o taxista sobre a legitimidade da causa dos protestos, mas de imediato confirmo que tenho um ímã para atrair os taxistas fascistas do mundo inteiro, taxistas que acham que as ruas são para os carros e não para as pessoas e que espancariam sem piedade os manifestantes para garantir o sagrado direito da liberdade de trânsito.

Avançamos vinte metros, suficientes para o taxista subir no canteiro central da avenida e entrar na faixa contrária da Consolação, de volta rumo à Paulista. Agora sou eu que pergunto: “E agora?”. O taxista esquece sua pior face (analista político) e assume o orgulho de motorista esperto paulistano: “Agora eu vou levar você ao teatro”. Entramos por um labirinto de ruas tumultuadas pelos efeitos da passeata e chegamos na porta do SESC às 20h, o horário programado para a estreia. Desço do táxi para saber duas coisas: que estamos a cem metros da historicamente revoltosa rua Maria Antônia e que o começo da peça foi adiado quarenta minutos.

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Às 20h40 o ator Marcos de Andrade aparece em cena e diz a primeira frase do meu romance: “Algumas pessoas dizem que eu sou precoce”. Na verdade, ele não fala exatamente isso, fala uma coisa parecida, quase igual, mas não a mesma coisa. Meu desconcerto nos primeiros minutos da peça é enorme: ou seja que isso é o que eu escrevi? A minha primeira reação é uma avalanche de lembranças: lembro que a mesa onde eu escrevia tinha um adesivo vermelho, que a letra h do laptop estava meio solta e fazia um barulhinho irritante, que através da janela do apartamento onde eu morava, por volta das 8 horas da manhã, dava para presenciar o banho da vizinha do prédio que ficava na frente, que eu tomava uma mistura de café colombiano e brasileiro da qual tenho saudades até hoje…

Eu estou pensando em tudo isso, enquanto o menino Tochtli continua com seu monólogo na cena do teatro. Aos poucos vou voltando de Barcelona e do ano 2006 para tentar entender o que está acontecendo no presente. Não é fácil, não: além do barulho psicológico (minha mente que não me deixa em paz), o barulho do exterior entra até a sala, o som dos helicópteros que sobrevoam a região e, de vez em quando, alguma pancada ou estouro que estimula a imaginação da pior maneira. Com um pouco de ironia, até daria para pensar que esses ruídos fazem parte da peça, que a casa onde mora Tochtli e seu poderoso pai traficante está cercada pela polícia e exército mexicano.

A adaptação do romance é provocante desde a primeira decisão e escolha: o ator que representa o Tochtli não é um menino, é um adulto. Gosto muito dessa escolha, porque revela um dos conflitos que mais me interessam ao falar da voz narrativa da Festa no covil: que a voz de Tochtli não é a voz de uma criança, é a voz de um personagem infantil, que a voz de Tochtli não está inspirada em vozes de crianças da vida real e sim da tradição literária. De igual forma, o ator — um adulto — não tenta representar uma criança e sim um personagem infantil. O espectador pode não acreditar no ator e não gostar da peça, da mesma maneira que o leitor pode não acreditar no narrador e não gostar do romance. Mas a peça e o romance fazem um convite idêntico.

Uma peça de teatro (ou um romance) convida o espectador (ou leitor) a deter o fluxo da existência e entrar num universo paralelo, com suas próprias regras, o que é, desde meu ponto de vista, e eu não abro mão de isso, a essência de toda arte. E não é também, por acaso, a essência da utopia? O utopista faz a mesma coisa: decide que a realidade real (em palavras de meu admirado César Aira) pode sumir por um tempo, porque essa é a condição necessária para poder sonhar com outra realidade.

A rua, no final das contas, é o melhor dos cenários, o lugar onde foram e serão escritas as páginas mais belas da história da literatura.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Gostaria de agradecer a Mika Lins, a utopista que imaginou a Festa no covil no teatro e a toda equipe que trabalha com ela.

 

Festa no covil: Sesc Consolação – Espaço beta – 3º andar. Quinta e sexta: 20h. Até 30/8. Mais informações.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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7 Comentários

  1. Herbert silva disse:

    Fico imensamente feliz em ter descoberto este texto e ter corrido atrás para levá-lo para o teatro. Pena que eu não tenha conseguido, mas acredito que a Mika realmente tenha feito um ótimo trabalho. Irei assistir, me deliciar novamente com sua obra, com a nova obra e com minhas memórias de ter amado tanto este projeto.

  2. Ramon de Córdova disse:

    Fiquei com muita vontade de reler Festa no Covil. Principalmente agora que Tochtli já não representa mais o cidadão brasileiro! Tratarei de recuperar o meu livro, emprestado para pelo menos 5 pessoas diferentes. Fico na torcida para que a adaptação para o teatro também venha prestigiar os brasilienses.

  3. […] O texto é uma adaptação do homônimo do Juan Pablo Villalobos. É a primeira obra escrita pelo autor, dedicada ao filho Mateo que estava prestes a nascer. Para conferir o resultado, Villalobos compareceu à estreia do espetáculo e escreveu um relato. […]

  4. Daniel Abreu disse:

    Valeu mesmo essa leitura. Diferençar “criança” de “personagem infantil”, maravilha. Obrigado.

  5. Antonio Kontizas disse:

    BRAVO!!! EXCELENTE !!! Quando estamos em um momentos da vida real, e o “Artista” consegue transforma-lo em uma peça linda de teatro.

  6. Juan,
    Li Festa no Covil no ano passado, no original, quando Mika contou que faria a peça.
    Minha única pergunta foi: e onde você vai achar uma criança para fazer esse monólogo?
    Ela respondeu de pronto que seria um adulto. Tinha a peça clara na cabeça desde aquele momento.
    Essa coisa de desenhar bem deve dar à Mika a capacidade de ver o resultado pronto, muito antes dos outros.
    Não vejo a hora de assistir a peça.
    Pena que quando eu for, infelizmente a cidade não estará em ebulição, como foi seu caso.
    Que pena. Seria realmente um ótimo cenário fora do cenário.

    Parabéns a você e à Mika.

  7. ana quintella disse:

    uau!!! parabéns mika!!! quero muito ver isso

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