Final feliz

Por Luiz Schwarcz


Professores do Colégio Rio Branco em 1972. O professor Caricatti é o primeiro em pé da esquerda para a direita.

Há alguns anos resolvi que não aceitaria mais convites para debates e conferências. Foi um alívio. Eu não gosto de falar, principalmente porque me falta tempo e disciplina para preparar o que dizer, e assim nunca me satisfaço com o resultado. Sempre saía desses eventos me queixando com o pobre coitado(a) que me acompanhava e me recriminando por não ter dado a devida atenção ao convite.

A única coisa que não eliminei da minha agenda foram as visitas às escolas, quando a Mariana me dá a boa notícia de que algum dos meus dois livros infantis foi adotado, e um professor deseja contar com a minha presença para falar com os alunos.

Na semana retrasada a motivação era ainda maior. O convite vinha do Colégio Rio Branco, onde estudei por dez anos. Minha vida de estudante lá não foi das mais felizes, mas mesmo assim guardei um grande carinho pela escola. Talvez eu já tenha contado que sempre fui bom aluno, mesmo nas disciplinas de que não gostava. Sentia obrigação de dar alegria a meus pais — achava sempre que a vida havia sido dura com eles, e me sentia responsável pela felicidade no lar. Naquela época, não era muito popular prestar atenção nas aulas, trazer os deveres em ordem, ser querido pelos professores. Eu tentava fazê-lo com discrição, mas mesmo assim consegui poucos amigos na escola, até que o futebol me salvou.

Como eu jogava bem, nos três últimos anos em que estive no Rio Branco acabei sendo o goleiro da seleção da classe, da turma da manhã, e por fim do time da escola — de futebol de salão, handebol e futebol de campo. Minha classe foi campeã do torneio interno por dois anos. Era um timaço. Eu frequentava o campinho do pátio mesmo nos fins de semana, para treinar ou simplesmente para jogar uma pelada com os companheiros, que acabaram respeitando o bom aluno, sempre quieto na classe, mas extrovertido ao dar instruções de posicionamento aos zagueiros, ou ao lançar a bola para o ataque. Quando apareci no jornal do Rio Branco defendendo o time do colégio em torneios, ou quando meu nome foi estampado na lista da seleção da escola, a trégua do bulying ao CDF foi estabelecida de vez. No segundo colegial não consegui transferência para a área de humanas e resolvi sair de lá. Fui embora me sentindo vitorioso socialmente (santo futebol!) e já com saudade do que deixava.

O Colégio foi palco de um de meus livros: Em busca do Thesouro da Juventude. Lá faço uma homenagem ao professor de português que leu um conto de Lima Barreto em sala de aula, de forma tão marcante, que considero ter dado ali — naquelas horas de espera pelo fim do conto — meu primeiro passo para virar editor. Nunca consegui encontrar o professor Caricatti para presenteá-lo com meu livro. Soube agora que seu nome completo é José Moscogliatto Caricatti, e que teve uma filha matriculada na escola. Com certeza ele não se lembrará de mim, e muito menos de ter lido “A nova Califórnia” em sala de aula interrompendo a leitura no meio, para desespero de um futuro goleiro, ou herdeiro de uma gráfica de cartões, que acabou virando editor.

Pois ao chegar ao Rio Branco, semanas atrás, a primeira coisa que fiz foi perguntar se havia alguma pista do paradeiro desse professor: fotos, endereço, qualquer coisa. Perguntei também se havia algum registro da minha passagem como goleiro, e as fotos do jornal da escola onde aparecia, talvez as mais importantes da minha vida.

O endereço do professor Caricatti não foi encontrado, mas os jornais da escola, sim, além das pastas com minhas notas, e todo meu histórico escolar. Gelei ao ver as boas notas que recebia transcritas à mão, pelos professores, no boletim mensal. Lembrei delas com orgulho e um longínquo resto de dor. Como se estivesse voltando no tempo e revivendo os impasses de um menino, expressos naquelas pastas de papelão cor de rosa ou azul. Pedi para ir ao campo onde treinei e joguei. Andei pelas escadas de pedra por cujos corrimões escorreguei, e vi com alegria que haviam recuperado o espaço das mesas de pebolim e de pingue-pongue — próximos de onde ficava a antiga cantina, na qual o churrasquinho com queijo derretido no pão francês era disputado quase a tapa no início do recreio.

Contudo, na véspera da conversa com os alunos fiquei preocupado. O convite dessa vez era para falar sobre um conto chamado “O doutor” — dos primeiros que escrevi e que foi incluído posteriormente numa coletânea do selo Boa Companhia. Há muito tempo não leio meus contos. Considero minha carreira de escritor encerrada, a não ser por este blog. Penso nos contos sem saudade, aceitando que, se tenho algum talento, ele se encontra na capacidade de leitura e não na escrita.

Ao reler o conto acabei afrouxando o senso crítico e achando que o dito cujo nem era tão ruim assim. Mas tomei um susto ao notar que havia cenas eróticas no texto, das quais eu não me recordava. Numa delas o personagem principal — um menino pobre que ganha um estetoscópio de brinquedo da mãe — ouve através da parede a sonoplastia erótica do sexo dos pais.

— Mari, como adotaram este conto, com estas duas passagens eróticas?! — perguntei ao telefone, logo ao reler o conto.

— Não se preocupe, Luiz, eles são grandes o suficiente para lidar com o assunto. — ela respondeu.

Fui para a escola no dia seguinte me preparando para responder, sem enrubescer, à possível pergunta sobre os gemidos eróticos da mãe do pobre menino, que acabava usando o estetoscópio só na infância, nunca se tornando um doutor, como a mãe sonhara.

Nenhuma pergunta foi feita a esse respeito e a conversa com os alunos foi emocionante para mim, ainda mais do que costuma ser, pelo contexto todo da visita.

A primeira de muitas perguntas que respondi foi, na verdade, uma reclamação de uma menina, muito graciosa e extrovertida. Ela não gostara do fato da história do Doutor não terminar com um final feliz. Expliquei que nem sempre isso era possível, que nem todas as histórias, na literatura ou na vida, terminam bem. Porém, enquanto respondia à corajosa menina que me criticou logo de cara, pensei que, ao contrário do conto, a história da minha volta ao Colégio Rio Branco terminava da melhor forma possível.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

12 Comentários

  1. Luiz Schwarcz disse:

    Caro professor Jorge Miguel, creio que fui seu aluno também. Se fosse possível eu lhe pediria a gentileza de enviar pelo blog ou por email para eliane.trombini@companhiadasletras.com.br o endereço do professor Caricatti, para que eu possa presenteá-lo com o livro infantil no qual ele é personagem.
    A todos do Rio Branco ou não que vem se manifestado neste blog eu agradeço com afeto sincero.

  2. Jorge Miguel disse:

    É um prazer saber que você foi aluno do colégio rio branco. É possível que você tenha sido meu aluno? Sou colega do Caricati. Estamos sempre juntos. Um abraço!

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