Por que quadrinhos? (2)

Por Érico Assis


(Imagem por Pedro Cobiaco)

Na última coluna, deixei a pergunta do título em aberto: se o ofício é tão exigente e a recompensa (não apenas financeira) tende a ser menor que em outras áreas onde o mesmo talento podia se aplicar, por que fazer quadrinhos? Fui atrás de algumas respostas entre quem faz quadrinhos.

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“HQ ainda é hoje como foi o cinema na década de setenta, quando os diretores eram os caras que mandavam, antes dos produtores e investidores transformarem tudo em pesquisa. É como o punk rock e o metal, começando com uns caras numa garagem gravando demo em K-7, antes do esquema de gravadoras que montam bandas pra serem lançadas já fazendo sucesso.

É talvez o último produto de consumo em massa realmente visceral. Não precisa de estrutura, não precisa de equipe, não precisa de pesquisa. Você faz o que quer. O pior que pode acontecer é não fazer sucesso.

Por que quadrinhos? Porque eu posso fazer do meu jeito.”

Danilo Beyruth produziu uma HQ de cangaceiros zumbis com homenagens a Sergio Leone, Martin Scorsese e Alex Toth (Bando de Dois), transformou o Astronauta de Maurício de Sousa em personagem sério (Astronauta: Magnetar), tem 40 anos e resolveu fazer quadrinhos profissionalmente há menos de dez.

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“A beleza do simples é algo que inspira a minha vida, seja em qual aspecto for. Menos objetos, menos complicação. Menos amigos, mas amigos verdadeiros. Uma poesia que define toda uma vida em cinco ou seis linhas. Um quadro que desperta emoções com poucas pinceladas.

A linguagem dos quadrinhos tem isso na sua essência. Posso ler uma tira do Laerte e lembrar dela quinze anos depois, enquanto há filmes de 200 milhões de dólares cuja história eu sou incapaz de me lembrar três dias depois de assistir. Poucas palavras, poucos traços. Um bom trabalho de síntese diz mais que uma biblioteca inteira.

O bom quadrinho é simples — um simples muito difícil de se alcançar. Com o simples, vem a liberdade. Liberdade de criação, liberdade de produção. Não posso prever se vou viver de quadrinhos daqui a vinte ou quarenta anos. Mas vou produzi-los, com certeza. Se eu tiver 100 páginas, faço minha HQ em 20. Se não tiver 20, faço em cinco, em duas, em 1/4. Se não tenho computador, faço com lápis e caneta. Sem lápis, vai na caneta mesmo. Se tenho um ano pra produzir, um mês, uma hora…

Quadrinho é liberdade. Qual artista não quer liberdade?”

André Diniz está adaptando O Idiota, de Dostoievski, para os quadrinhos — sem usar texto. É autor de mais de uma dezena de HQs, sendo que uma de suas últimas, O Morro da Favela, já foi publicada nos EUA, na Inglaterra, na França e em Portugal.

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“Existem duas maneiras de fazer quadrinhos: sendo pago para fazer o projeto dos outros, ou trabalhando de graça (ou pagando) para ver seu projeto próprio lançado.

A primeira opção é a mais difícil! Entrar no mercado é difícil quando se quer trabalhar com editoras de renome, confiáveis e que paguem certinho. Pois trabalhar com caloteiros é bem fácil, exploradores existem em qualquer mercado.

Porém, ao contrário do que dizem por aí, trabalhar com quadrinhos não paga tão mal assim quando se tem clientes internacionais. Eu mesma, enquanto estava na faculdade, fiz a matemática comparativa básica entre o salário de um publicitário formado e o preço de uma edição concluída e… digamos que eu não escolhi a carreira que pagava menos. Lá nos EUA existe uma cultura FORTE de leitura de quadrinhos. O mercado pode ter suas crises, mas ainda tem muito dinheiro circulando por lá. Só que até chegar lá são anos e anos de persistência e adequação de estilo.

Já a segunda opção é a mais fácil. Para fazer quadrinhos você só precisa de folha, papel e um bom roteiro. Isso que é o legal dos quadrinhos: você pode escolher se quer trabalhar em equipe ou sozinho, tendo mais controle. Podemos criar mundos dessa maneira. O problema é conseguir distribuir sua criação pro pessoal. A internet está sendo uma forte aliada.

Então, por que quadrinhos? Porque é um trabalho divertido, porque paga as contas, porque nos dá mais liberdade. Acho que é isso, é a resposta mais prática que tenho pra dar. Sem romantismos, sem eufemismos. Pés no chão.”

Cris Peter colore quadrinhos de super-heróis e outros para editoras dos EUA lá do seu apartamento de Porto Alegre. Também gosta muito de ensinar colorização e vai lançar um livro sobre o que faz.

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“Eu não sei se consigo dizer exatamente o porquê de escolher quadrinhos. Não é uma resposta concreta que apareceu na minha mente um dia e me levou a fazer isso pra sempre. Eu meio que vou descobrindo pedacinhos do porquê a cada dia que passa. Fazendo uma página um dia, e percebendo uma possibilidade incrível ali. Finalizando um quadro e percebendo o quão prazeroso isso é.

Também tem o sentido mais debochado. O quadrinho é uma mídia onde eu me sinto à vontade para satirizar a mim mesmo e estar em casa, sem peso na consciência. O quadrinho pode ser uma arte tão linda e séria quanto o cinema, mas mesmo assim sem ser tão poser. O poder do choque de mudança entre uma imagem estática e outra, o espaço entre os quadros, a união de diversas paixões em uma (escrita, desenho, criação de narrativa).

Eu só sei dizer que não vejo por que NÃO escolher os quadrinhos, mesmo com todas as dificuldades que vêm junto com essa escolha. Não sinto mais necessidade de dizer pra alguém por que eu faço quadrinhos, porque a maioria das pessoas (não é o caso aqui, obviamente) faz essa pergunta de forma pejorativa. Ninguém nunca pergunta pro Tarantino por que ele escolheu o cinema, e ninguém pergunta praquele tio careta por que ele faz contabilidade.”

Pedro Cobiaco tem 16 anos, genes e, como ele diz, uma carreira de quadrinhos “pra sempre” a cumprir.

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Agradecimentos a todos que contribuíram com respostas. Ainda tenho várias para aparecer nas próximas colunas. Outros quadrinistas que gostariam de contribuir estão mais do que convidados. É só me enviar um e-mail: ericoassis@gmail.com

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

5 Comentários

  1. […] quadrinistas brasileiros por que eles e elas fazem quadrinhos. Já rendeu quatro colunas: esta, esta, esta e esta. Seguem inéditas […]

  2. […] quadrinistas brasileiros por que eles e elas fazem quadrinhos. Já rendeu três colunas: esta, esta e esta. Fiz uma pausa na série, mas agora […]

  3. Brontops disse:

    Acabei de chegar em casa e enquanto aguardava o micro abrir (Pois é, não uso smartphone), abri minha (ó o lugar comum)” mais recente aquisição”, Cenas Marcantes, do Dave McKean (Ed New Pop). Deu nesta página e achei especialmente sincronizado com esta sua postagem:

    existe poraí uma narrativa visual mais poderosa, acessível, intimista e democrática que os quadrinhos? Acho que não. Peças precisam de um teatro. Artes narrativas precisam de uma galeria. TV precisa de dinheiro. Filmes precisam de consideravelmente mais dinheiro e duzentos e trinta e sete almoços. Quadrinhos precisam de uma caneta, um pouco de papel, talvez uma máquina fotocopiadora, uma impressora caseira. (…) Mas aqui vai outra sugestão: todos fazem quadrinhos e quero dizer todo mundo. Todos tiram fotografias em férias, certo? ou fotos em casamentos, ou dos filhos. Todos usam essas fotos para contar histórias, relembrando um evento em ordem sequencial, contando a história de uma vida, do nascimento até a graduação.
    é uma das coisas que faz você dizer “hmmmmmmmmm”, não é?

  4. Aliás, o blogue inteiro do garoto é incrível – e só 16 anos? Uau!

  5. Muito legal esse quadradinho de um quadrinho que ilustra o post.

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