Por que quadrinhos? (3)

Por Érico Assis


“Eu não faço quadrinhos pelo dinheiro, porque só uma vez ganhei dinheiro com eles, e não me parece que o cenário vá mudar em pouco tempo. Também não faço para que os leitores, esses tiranos, me elogiem. Não sou tão carente assim. E, pelo amor de Deus, não é por status.

Eu faço quadrinhos porque são pouquíssimas coisas que me dão prazer. A saber: minha namorada, Coca-Cola, Palmeiras e gatos. E materializar uma ideia que existia apenas na minha cabeça, também. Quando eu faço uma tirinha, é como se a minha namorada me desse um beijo, eu tomasse um gole de Coca-Cola, o Palmeiras fizesse um gol, ou que largassem um gato novo aqui na frente de casa.

Portanto, eu não faço quadrinhos pelos quadrinhos. Se eu soubesse transformar ideias em músicas, em filmes ou em quadros, eu faria músicas, filmes e quadros. Mas só sei fazer quadrinhos.

Mas se alguém quiser me elogiar, ótimo. Se quiserem me pagar, ótimo também. E se eu ganhar status para aparecer no programa do Amaury Jr., melhor ainda! Mas não espere que eu faça quadrinhos pelos elogios, para aparecer no programa do Amaury ou para ser pago. Para essas coisas, eu uso meu corpo!”

Andrício de Souza desenha com caneta Bic e ama o Pereio.

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“Por que quadrinhos? Na falta de palavras melhores: Eu gosto. Sempre gostei.

Não acho difícil entrar nos quadrinhos, profissionalmente ou independente. Difícil são os passos seguintes: manter-se fazendo quadrinhos. Difícil é fazer algo com qualidade e não se acomodar.

Ser flexível com algumas coisas e bater o pé com outras. E o que é realmente dificil para mim: quando ser um ou outro nestes casos.

Se dá trabalho? Muito. Mas trabalho pesado mesmo é erguer muro. Quadrinhos possuem uma dose de diversão que compensa bastante o trabalho.

Viver de fazer quadrinhos? Depende. O que você quer fazer com os quadrinhos? Eu queria viver de desenhar. E fazer quadrinhos me deu essa oportunidade desde o começo.

Fama? Isso é relativo. Se tudo der certo, um grupinho de pessoas que também curte quadrinhos vai gostar do seu trabalho. O que, para pessoas tímidas como eu, é bastante fama.

Mas em todos esses anos que trabalho com quadrinhos — ou seja, desde o dia que comecei a receber para fazer páginas de quadrinhos, o que é diferente de viver de quadrinhos — nunca vi as portas tão abertas. Não importa os motivos que te levem a fazer.

E nos momentos difíceis, aqueles em que você se pergunta por que faz o que faz, quase arruinando sua vida financeira, sua saúde mental e física… a resposta que me vem a cabeça é: Porque eu gosto. E muito.”

Greg Tocchini produz quadrinhos principalmente para editoras dos EUA (procure The Last Days of American Crime, com Rick Remender), lança uma e outra produção independente no Brasil (encontre Sequence Shot, antes que esgote) e em 2014 lança sua primeira colaboração original para o mercado francês (Section ∞, com Laurent Queyssi).

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“Não sinto que eu tenha muita opção. Meu motivo principal pra fazer quadrinhos é: porque descobri que era infeliz não fazendo.

Ou que só seria feliz fazendo.

Mas, dito isso, alguns motivos mais me ocorrem:

  • Gosto que seja feito à mão. Tento manter tanto do processo quanto possível nessa fase — faço as letras, os quadros, desenho, cor, arte-final, retoques, tudo à mão. Meu processo poderia ser mais prático criando minha fonte no computador, ou colorindo/desenhando/finalizando digitalmente. Mas acho que passamos tempo demais olhando para telas brilhantes. Existe uma satisfação íntima, atávica, nessas artesanias, na textura, no estar fazendo algo real, físico.
  • Acho que desenhar dentro de quadradinhos diz muito sobre uma pessoa: o conforto da miniatura, a busca por um (impossível) controle, o amor pelo detalhe. É uma vocação e um temperamento.
  • Acho que tem menos ego envolvido do que na literatura ou artes visuais. O prêmio é menor, a glória é quase invisível, o dinheiro é pouco. E, de novo, é uma questão de temperamento — quadrinistas costumam ser almas gentis, não-belicosas e introspectivas. Há um senso de camaradagem entre os colegas/amigos, uma gratidão de sair da caverna quando nos encontramos.
  • Comparado a outras artes com uma história tão mais longa, os quadrinhos são jovens. Não há aquele desespero existencial da literatura ou da pintura, por exemplo, de que tudo já foi feito. Há um entusiasmo, juvenil talvez, dos participantes, de estar fazendo parte de uma linguagem ainda em construção.
  • E, no meu caso, eu gosto de escrever e desenhar. Não conseguiria escolher um e, pra mim, eles se misturaram de forma inseparável.

Então, de novo, juntando as minhas particularidades, temperamento, talentos e disposições, acho que não tinha escolha. Danou-se, era isso.”

Odyr Bernardi é autor de Guadalupe (com Angélica Freitas), de Copacabana (com S. Lobo), da Editora Secreta e das tiras que publica quase diariamente via Facebook e Twitter. Está numa fase de obsessão por Fantômas.

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P.S.: Na semana passada, também me candidatei a responder “por que quadrinhos”. Mas só como editor. Estreou o Outros Quadrinhos, site que publica (por enquanto) uma seleção de webcomics estrangeiras. Sou o principal tradutor e co-editor. A partir de hoje, ele tem atualizações diárias. Acesse http://outrosquadrinhos.com.br/

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – TwitterOutros Quadrinhos

4 Comentários

  1. […] sequência de colunas “Por que quadrinhos?” não acabou. Só teve uma pausa. Volta na […]

  2. Cyro disse:

    Excelente o site “Outros Quadrinhos”. Não pare!

  3. Igor Schizo disse:

    Ótima maneira de conhecer novos talentos. Muito embora eu já conhecesse Andrício de Souza

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