A longa marcha das vadias

Por Vanessa Ferrari

257. Feminist Fairy Godmother

Nos dias de hoje, só uma mulher muito tonta preserva a sua castidade por vinte anos à espera de um marido que ela nem sabe se vai voltar para casa, assim como fez Penélope, mulher de Ulysses, a heroína mais íntegra que o mundo já conheceu. Duas décadas se passaram entre a guerra de Troia e o percurso da volta e, para a tristeza dos românticos, o desejo de regresso do herói teve muitas razões, mas nenhuma delas dizia respeito ao amor por sua mulher.

Perdido em um universo paralelo, entre ciclopes e deuses, em algum lugar entre a Terra e o mundo dos mortos, onde os seus valores não valiam nada, nem seus feitos de guerra, tampouco o seu nome, Ulysses precisava voltar para casa para voltar a ser Ulysses, quando por fim o seu périplo de herói seria imortalizado pelo canto das musas. Em outras palavras, Ulysses estava preocupado com a própria posteridade.

Mas tudo isso aconteceu quando a mulher valia o mesmo que uma vaca leiteira. Ou menos. Com o tempo, a situação melhorou um pouquinho, saímos da nulidade social para certo protagonismo duvidoso. Nos contos tradicionais já fomos empregada doméstica de anão, faxineira de palácio, capacho de madrasta, prisioneira na torre. Todas elas heroínas lindas, frágeis, virgens e não muito inteligentes. Todas salvas pelo casamento. Em alguns casos, fomos muito, muito más, em outros tantos, absurdamente histéricas. Mas sejamos humildes, certo protagonismo é melhor que protagonismo nenhum.

No entanto, eis que chegamos à modernidade, quando a vida burguesa nos presenteou com a ideia do amor verdadeiro, e o casamento (sempre o casamento) já não aparecia como tábua de salvação, e sim como o símbolo máximo da realização feminina. Agora sim, estávamos no topo do mundo e nos refastelamos com Elizabeth Bennet e Mr. Darcy em todas as suas variações. E quando parecia que tudo ia bem, quando graciosamente chafurdávamos no rami-rami amoroso, Flaubert nos esbofeteia com a crise existencial de Madame Bovary, que casa com um banana mas, como a felicidade não veio, acaba se agarrando à primeira curva-de-rio que aparece.

Vida de heroína não é fácil. Dentro e fora da ficção a moral feminina é ainda duvidosa. E quando parece que as coisas estão melhorando, sempre aparece alguém para te pôr pra baixo. Mais de dois milênios depois da criação de Penélope, Nietzsche, no seu notório azedume a respeito das mulheres, sairia com essa: “A mulher não teria o gênio para o ornamento não tivesse o instinto para o papel secundário”. Contemporâneo do filósofo, Sigmund Freud também não deixou por menos: “É verdade que a mulher não ganha nada em estudar e que no geral isso não vai mudar nada a sua situação. Além do mais, as mulheres não podem igualar a proeza do homem na sublimação da sexualidade”.

O desprezo que essas duas figuras notáveis (para ficar apenas nesses dois nomes) sentiam pelas mulheres me faz pensar que não dá mesmo para confiar cegamente na genialidade alheia, e que, em uma situação de extrema admiração, há de se cultivar, no máximo, certo respeito cauteloso.

Antes, porém, que me acusem de reivindicar cota literária para as heroínas astutas, me parece que a literatura contemporânea vem, aos poucos, respondendo aos novos tempos. Embora tenhamos tido uma recaída com Cinquenta tons de cinza, cuja protagonista é uma das mulheres mais bobas que já conheci em toda a minha vida, há também — para ficar apenas na seara do entretenimento — as sensacionais Hermione e Lisbeth Salander, heroínas de Harry Potter e da trilogia Millenium.

O filósofo e o pai da psicanálise devem estar subindo nas tamancas no mundo dos mortos, se de lá tiverem acesso às últimas daqui da Terra. Para quem achava um absurdo esses tempos modernos, em que a mulher estaria perdendo os seus “verdadeiros” instintos femininos e se desviando de sua primeira e última ocupação, a de gerar e criar filhos robustos, estes dois pensadores ficariam chocados ao ver que até marcha pelo livre-arbítrio se vê por aí. Uma aberração, Nietzsche diria, uma aberração.

* * * * *

Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.