A testemunha silenciosa ou Otto Lara Resende

Por Luiz Schwarcz


Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.

O melhor livro que li nos últimos tempos — desculpem-me os demais autores por privilegiar um colega, tendo gostado tanto de muitos livros recentes — foi A testemunha silenciosa de Otto Lara Resende. Estão aí um livro e um escritor que deveriam figurar no mesmo panteão onde se encontram Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Mário de Andrade, entre tantos outros.

Cabe à Companhia das Letras, com o relançamento da obra de Otto Lara, a tarefa de provar o que está na cara e poucos veem: devido a sua timidez e sua insegurança advinda do perfeccionismo, ele permanece ainda como um daqueles autores maiores que precisam ser descobertos pelos que estudam e gostam da melhor literatura brasileira. Mais conhecido como cronista ou como testemunha da vida política e cultural brasileiras, a baixa prolixidade da faceta literária de Otto contribuiu para criar o mito do protagonista de bastidores, em detrimento da imagem merecida do grande escritor, de linha de frente, que o autor de O braço direito sem dúvida foi.

Tentamos provar essa tese na primeira vez que lançamos alguns de seus livros, mas sem grande sucesso. Agora só cabe a nós, e aos críticos literários, chamar a atenção do público que gosta de literatura para esse fato. Temos incentivado alguns estudiosos — que nos disseram espontaneamente terem chegado também a esta conclusão, como Davi Arrigucci Jr. e Augusto Massi — a se manifestarem através de ensaios ou artigos. Expressamos também nossa opinião, que muitas vezes é tida como parcial, para vários órgãos de imprensa. No entanto, é comum que esses esforços demorem a repercutir.

Aqueles que lerem as duas novelas de A testemunha silenciosa provavelmente concordarão comigo, e quem sabe através desta modesta crônica entenderão por que Otto mereceria mais a homenagem prestada no título que ele próprio deu a seu livro, do que a atitude brincalhona de Nelson Rodrigues, que intitulou uma de suas peças de Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende fato que, se não me falha a memória, incomodou muito a Otto e sua família, durante um certo tempo.

Conheci Otto na época de seu ressurgimento como cronista diário na Folha de S. Paulo, em 1991. Creio que foi Matinas Suzuki Jr. quem nos apresentou. A ideia, na ocasião, era publicar uma seleção de crônicas que acabou resultando em Bom dia para nascer, o primeiro livro do escritor de São João del Rey que publiquei, organizado pelo próprio Matinas. Vieram outros, em edições bonitas e sofisticadas, mas em cujas edições a Companhia das Letras não fez um trabalho à altura que as obras bem mereciam. Agora, graças à generosidade da família, o apoio de Humberto Werneck — organizador das novas edições — e do Instituto Moreira Salles, estamos tendo uma segunda chance.

Conhecer Otto Lara Resende e sua adorável esposa Helena foi das grandes coisas que me aconteceram na vida de editor. Na ocasião, Lili e eu já éramos muito próximos de Francisco Iglésias, outro grande amigo de Otto. Nos juntamos aos dois em várias ocasiões, quando os amigos mineiros passavam por São Paulo. Nosso ponto de encontro era um restaurante que nem existe mais, e que atendia pela estranha alcunha de Anexo. Com Otto e Helena vivemos uma noite memorável, no Rio, com a presença de Carlos Castello Branco, o Castelinho, e sua esposa, de Ana Miranda, além de Moacir Werneck de Castro. Foi na casa de Otto, próxima à Lagoa Rodrigo de Freitas. Conversa deliciosa como aquela eu talvez nunca tenha presenciado. (Cheguei perto disto, numa ocasião anterior, quando ainda de fraldas como editor, fui jantar com Caio Graco e Hélio Pellegrino, no Baixo Leblon).

Me recordo de, às 2 horas da manhã, sentir câimbras na barriga de tanto rir com as histórias sobre a visita de George Bernanos — autor idolatrado por uma geração de escritores mineiros, entre eles o próprio Otto. Lembro do dono da casa representando, como exímio ator que era, a forma como os mineiros sabiam sair de uma sala fechada a sete chaves, numa Igreja, sem se fazerem notar. Contava ele como, com as portas e janelas cerradas, os espectadores da palestra do escritor francês, em São João del Rey, saíam não se sabe como, antes curvando-se em cumprimentos cerimoniosos, como se estivessem entrando na sala, andando para trás e abrindo os braços espalmados, na direção do convidado. Em poucos minutos, o francês, que era tedioso ao falar, via a sala vazia. Segundo Otto, alguns certamente saltavam das janelas, sem ao menos abri-las, passavam pelas portas trancadas, como fantasmas, enfim davam um jeito de vencer o suplício que era ouvir Bernanos.

Otto, também na mesma noite, tentou revisar, por horas, a história que sempre lhe foi atribuída, de ter sido ao mesmo tempo o ghost-writer de Roberto Marinho e de Nascimento Brito (o dono do Jornal do Brasil), em polêmica travada entre os dois magnatas da imprensa brasileira. Pediu que Carlos Castello Branco e Moacir Werneck confirmassem que ele falava a mais pura verdade. Os dois peremptoriamente negaram:

— Fala, Castelinho, conta para eles que tudo o que falam de mim, neste caso, é mentira deslavada.

— É tudo verdade, Otto. Ponto final — disse o grande jornalista de Brasília, de enorme papada e poucas palavras, encerrando a encenação.

As histórias que Otto contava sobre Iglésias, na presença constrangida desse outro grande mineiro encabulado, eram impagáveis. Assim como as sobre Nelson Rodrigues, com quem, apesar do “affaire” Bonitinha mas ordinária, manteve amizade inquebrantável. Aí vai uma delas, antes de encerrar minha crônica.

Dizia Otto que Nelson era muito hipocondríaco. Certo dia, o escritor recebe um telefonema do dramaturgo — e nessa hora Otto imitava com perfeição a voz grave do autor de A vida como ela é:

— Otto, estou muito mal, nas últimas. Internei-me na clínica São Vicente, não tenho muito tempo de vida. Venha me ver e traga um jornalista para fazer comigo a derradeira entrevista.

Ao chegarem, Nelson diz ao jovem jornalista :

— Rapaz, você está com lápis e papel na mão.

— Sim, estou pronto.

— Então anota aí: “Marx é uma besta!”

Segue-se um longo silêncio.

— Pois não, já anotei. Como continuamos?

— Não continuamos. Estou melhor. Não vou morrer mais.

Com certeza não consegui narrar aqui o episódio com a mesma graça de Otto. Esses são apenas algum dos casos que fizeram sua fama como “contador de histórias”. Não importa, minha missão agora é outra, mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo: mostrar que muito além de ser o grande contador de histórias que foi, Otto é o grande clássico da literatura brasileira que poucos conhecem. Leiam o posfácio de Cristóvão Tezza para A testemunha silenciosa e verão que não estou só nesta batalha.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

[Devido à mudança na programação do blog durante a Flip, publicamos hoje o texto de Luiz Schwarcz.]