Conferência de abertura: Graciliano Ramos por Milton Hatoum


(Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

O encontro com a obra de Graciliano Ramos foi um momento decisivo na vida de um de nossos maiores escritores contemporâneos: Milton Hatoum. Nesta conferência, Hatoum fala sobre Graciliano a partir de uma perspectiva dupla, combinando a recordação de suas experiências pessoais de leitura do autor alagoano com uma discussão panorâmica da obra de Graciliano e do lugar central que esta ocupa na cultura brasileira.

[Leia abaixo um trecho da palestra.]

Graciliano tinha fama de ser áspero e intratável como o cacto do poema de Manuel Bandeira. Mas “um cacto já se humanizando”, como disse Murilo Mendes no poema “Murilograma de GR”. Era afetuoso entre amigos e parentes, e irônico quando se referia a si mesmo como uma inteligência fraca, de matuto.

Como todos sabem, nosso autor nasceu em 1892, em Quebrangulo, uma pequena cidade do agreste de Alagoas, e foi prefeito de Palmeira dos Índios. Não foi um prefeito qualquer, como revelam os dois relatórios de prestação de contas (1929 e 1930), que logo atraíram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, futuro editor de Caetés. São textos muito bem escritos, e neles já se nota uma postura ética irrepreensível, inseparável de uma gestão de fato democrática:

“Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada. Nenhum, creio eu, chegou a trabalhar nos subúrbios…

Encontrei em decadência regiões outrora prósperas; terras aráveis entregues a animais, que nelas viviam quase em estado selvagem. A população minguada, ou emigrava para o Sul do País ou se fixava nos municípios vizinhos […] Vegetavam em lastimável abandono alguns agregados humanos […]

Ataquei as patifarias dos pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor.

Em outra passagem, ele se refere à educação:

“Instituíram-se escolas em três aldeias… Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.”

Não se trata apenas de uma mera “composição burocrática, coberta de cifrões”, como disse o autor. Há, de fato, cifrões que justificam com detalhes os gastos públicos. Mas nesses textos já aparecem claramente os assuntos que seriam explorados em Vidas secas, S. Bernardo e Infância. Além disso, a crítica ferina, o tom desabusado e irônico e as frases breves já apontam para um estilo em que, segundo Otto Maria Carpeaux, reside a maestria singular do nosso autor.

No poema intitulado “Graciliano Ramos:”, João Cabral alude exatamente a essa linguagem:

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca.

A linguagem nítida e precisa, “em que só cabe cultivar/o que é sinônimo de míngua” (como diz o poema), traduz um esforço de estilo, mas talvez seja também uma reação consciente à forte tradição da eloquência, da escrita pomposa e derramada, da qual Graciliano sentia verdadeira ojeriza, e a qual criticou com aspereza em vários artigos e nos três romances narrados na primeira pessoa. Nesse sentido, a linguagem concisa e clara se distancia da maioria dos romances sociais do Nordeste, mas mantém certa afinidade com O quinze, de Rachel de Queiroz, publicado em 1930. Num ensaio sobre esse romance, Davi Arrigucci Jr. assinalou que ele “trouxe a condição moderna da leitura e do gênero para dentro da região do atraso, problematizando-a, sem abdicar da tradição da oralidade”. Ressaltou também que “o romance de 1930 se tornou, entre tantas coisas relevantes, um mapa moral da geografia humana do Brasil”.

De fato, nesse período foram publicadas algumas das obras mais significativas da nossa literatura, e não apenas no Nordeste. Basta lembrar os romances O amanuense Belmiro, do mineiro Cyro dos Anjos, Os ratos, do gaúcho Dyonelio Machado, vários romances de Lúcio Cardoso e Erico Verissimo, e obras poéticas admiráveis, como Libertinagem e Estrela da manhã (Manuel Bandeira), Alguma poesia, de Drummond, Tempo e eternidade, obra conjunta de Jorge de Lima e Murilo Mendes.

O crítico João Luiz Lafetá observou que “a Revolução de 1930, com a grande abertura que traz, propicia — e pede — o debate em torno da história nacional, da situação de vida do povo no campo e na cidade, do drama das secas, etc. Ainda segundo o crítico, “o movimento modernista atingiu, durante o decênio de 1930, sua fase áurea de maturidade e equilíbrio”.

A obra de Graciliano surge nesse contexto de mudanças políticas, sociais e culturais, e o próprio escritor teria uma atuação política importante como diretor de Instrução Pública de Alagoas, cargo que exerceu de janeiro de 1933 a 3 de março de 1936, quando foi preso por militares que reprimiram o Levante Comunista de 1935 e dariam o golpe de 37, que implantou a ditadura do Estado Novo.

3 Comentários

  1. Diana (admin) disse:

    Obrigada pelo toque, Ramiro. Já corrigimos no post.

  2. Ramiro Ribeiro disse:

    Pessoal, Graciliano nasceu na cidade de Quebrangulo.
    Quadrangulo, pelo menos em Alagoas, ainda não foi fundada.

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