Diário de Paraty: 3 de julho de 2013 – Machado pode esperar

Por Laurent Binet (Tradução de Rita Mattar)

“Aos dezesseis anos, escrevi um poema sobre Sorge intitulado ‘O homem mais solitário do mundo’ com o seguinte primeiro verso: ‘Tokyo respira e eu não’.”
Aleksandar Hemon, E o Bruno?

Durmo no carro a caminho de Paraty. Não vi o Rio, mas quando abro os olhos reconheço essa cor ocre, própria da América Latina, que já vi na Colômbia e que se pode ver na televisão  em documentários sobre Cuba ou sobre o México: a cor da terra e do adobe, dessas casas feitas de tijolos de alvenaria desajeitadamente dispostos e desnudados, como se tivessem passado por um raio x.

Calculo laboriosamente em meu semi-sono: o mar está à minha esquerda, a oeste, nós vamos em direção ao sul, rumo a São Paulo. O Rio está atrás de nós, mas as sinuosidades da estrada expõem, curva após curva, morros debruçados sobre o mar, paisagens que eu pensava que existiam apenas em fotos. Nada do Cristo Redentor por enquanto.

No sábado, tenho um encontro com Aleksandar Hemon, e me alegro antecipadamente: comecei seu livro, essa mistura de classe, inspiração e gracejo é tão eslava! É lúdico, é brilhante, é emocionante e é belo. Ele é bósnio, tem a elegância eslava. E eu sei quem é Richard Sorge.

Chego ao hotel, meu quarto dá para a piscina e há um monte de livros no criado-mudo, um deles, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, em francês.

De cara fico culpado por não ter lido no avião o outro livro que havia trazido (O alienista, que também encontro no quarto, em francês, o que me faz pensar que é um escritor realmente importante), mas eu não tinha como fazer tudo: Aleksandar Hemon e Machado de Assis, e Hemon tem a vantagem de estar vivo, além do fato de que vou encontrá-lo, então achei que ele deveria ser prioritário. (Além disso, de modo geral, eu tenho uma tendência a me sentir culpado demais). Minha escolha é validada na piscina, quando encontro Hemon, com sua mulher e filha, e ele me diz que gostou muito do meu livro, ao que posso responder que eu também adoro o dele. E é verdade.

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Laurent Binet nasceu em Paris, em 1972. Formado em literatura pela Universidade de Paris, é escritor, professor e autor de dois livros de não ficção. HHhH, seu primeiro romance, teve calorosa recepção crítica na França e recebeu, em 2010, o prêmio Goncourt para romances de estreia. Ele está no Brasil como convidado da 11ª Festa Literária de Paraty e participará da mesa “O espelho da história” no sábado.