Diário de Paraty: 4 de julho de 2013 – A ironia perdida da França

Por Laurent Binet (Tradução de Rita Mattar)

Assisti ontem à conferência de abertura da FLIP: Milton Hatoum fez um discurso sobre Graciliano Ramos (no qual cita brevemente Machado de Assis, que eu finalmente li). É genial: O alienista parece um conto filosófico do século XIX, perfeito para ilustrar teses sobre a loucura não desenvolvidas por Foucault.

José Luiz Passos, que encontro na ocasião, me conta que na literatura brasileira não há, como na França, uma tradição forte de voz autoral, e ele usa HHhH como exemplo, assim como Emmanuel Carrère e a prática da autoficção, fortemente difundida entre nós. Segundo ele, essa tendência começa, porém, a se desenvolver um pouco no Brasil e ele vê em Graciliano Ramos, morto em 1953, um precursor no assunto, pois teria escrito somente quatro romances clássicos nos anos 30, depois do que se dedicaria a ensaios, memórias e formas de proto-autoficção.

Penso, por outro lado, nas minhas leituras desses dias, o americano-bósnio Hemon, o brasileiro Machado de Assis, e digo a mim mesmo que, decididamente, existe nos escritores estrangeiros uma propensão à ironia que se perdeu na literatura francesa. Nós não inventamos a ironia, mas de alguma forma a nacionalizamos, no século XVIII, com Voltaire. Mais tarde, certamente porque ela era muitas vezes pesada, grosseira e, acima de tudo, vulgar, nós nos desprendemos por meio do romantismo e a ironia foi progressivamente desertada da literatura francesa, dando seus últimos suspiros com Proust (ou então ela se transformou, e subsiste em uma única forma: uma ironia pérfida, dogmática e maníaca), o que faz com que hoje os escritores franceses se levem tão a sério. Foi Kundera quem denunciou o espírito sério: vivendo na França, serviu-se dele. Não é uma regra absoluta, existem sempre exceções, mas no geral há um drama. Acordo ao nascer do sol, por causa do fuso horário, e me falta energia para falar do caso de Houellebecq (que deveria vir à FLIP), mas digamos rapidamente que Houellebecq, nosso campeão nacional, gostaria de ser irônico e engraçado e na verdade é pífio. A ironia depressiva é fácil demais.

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Laurent Binet nasceu em Paris, em 1972. Formado em literatura pela Universidade de Paris, é escritor, professor e autor de dois livros de não ficção. HHhH, seu primeiro romance, teve calorosa recepção crítica na França e recebeu, em 2010, o prêmio Goncourt para romances de estreia. Ele está no Brasil como convidado da 11ª Festa Literária de Paraty e participará da mesa “O espelho da história” no sábado.

Um Comentário

  1. Cybelle de Lima disse:

    Olá:

    Há quem diga que a ironia é a arma dos que de alguma forma – real ou imaginada – se sentem oprimidos, estão em desvantagem.Talvez a França – de Proust para cá tenha construído uma sociedade menos desigual e este tipo de arma não seja mais necessária. (Mas , estarei sendo irônica?)

    Um abraço
    Cybelle

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