Diário de Paraty: 5 de julho de 2013 – Mas também uma carta de adeus

Por Laurent Binet (Tradução de Rita Mattar)

Quando perguntamos a um francês “como vai?”, ele responde “não está ruim”; quando perguntamos a um brasileiro, ele responde, literalmente “beleza”. Em ambos os casos, significa “bem”. Os dois franceses da embaixada com quem jantei veem nisso a explicação de por que somos sempre os últimos colocados na lista de países felizes, enquanto os brasileiros são os primeiros: uma espécie de mal entendido linguístico. Já eu penso que na verdade trata-se de uma realização performativa da língua. Nós somos realmente infelizes, os brasileiros realmente felizes.

Claro, eu havia jurado que dormiria cedo, mas havia uma festa em que os garçons ofereciam sem parar caipirinhas vermelhas (de morango), laranjas (de maracujá) ou brancas (de limão, as tradicionais), e onde eu cruzei com Maria Madeiros, que reconheci imediatamente. É ela que sussura em francês no ouvido de Bruce Willis, em Pulp Fiction, “l’aventure commence [a aventura começa]”.

Eu bebi muito e dormi pouco, mas cheguei a tempo na conferência sobre Barthes e Nabokov no dia seguinte. Infelizmente, a tradução simultânea foi interrompida bem quando Francisco Bosco, um escritor brasileiro muito bonito que se parece com o ator Eric Bana, explica a diferença entre a alegria e o prazer do texto. Quando a tradução recomeçou, eu acho que entendi que em Balzac há a fruição do texto (pois está do lado da cultura), e que Joyce é o prazer do texto (porque é a destruição da cultura), na medida em que questiona nossa identidade — mas não tenho certeza disso. Quando lhe pedem para falar de suas atividades como cancionista, ele responde : “A canção liga a certeza da música com a realidade da linguagem”. E a jovem escritora iraniana Lila Azam Zanghaneh, convidada para falar de Nabokov, declara em português, com sotaque francês, a respeito de seu próximo livro : “Será uma homenagem à literatura que amo, mas também uma carta de adeus a essa literatura”.

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Laurent Binet nasceu em Paris, em 1972. Formado em literatura pela Universidade de Paris, é escritor, professor e autor de dois livros de não ficção. HHhH, seu primeiro romance, teve calorosa recepção crítica na França e recebeu, em 2010, o prêmio Goncourt para romances de estreia. Ele está no Brasil como convidado da 11ª Festa Literária de Paraty e participará da mesa “O espelho da história” no sábado.

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