Diário de Paraty: 6 de julho de 2013 – Essa Copa do Mundo de merda

Por Laurent Binet (Tradução de Rita Mattar)

Ontem à noite, voltando para o hotel, cruzei na rua com um duo de voz e violoncelo. A garota tinha uma voz extraordinariamente quente e sensual e de cara gostei do modo dela de se mexer, sua maciez gingada. O rapaz tocava com uma violência fascinante, era uma explosão de juventude e graça. Fiquei meia hora escutando-os (mesmo estando muito cansado). Estranhei apenas quando eles cantaram uma canção de Nougaro (Tu verras, tu verras) em português (O que será) atribuindo-lhe a Chico Buarque, mas não disse nada (acho que fiz bem).


(www.doismusica.com)

No café da manhã, encontro Aleksandar Hemon, mostro-lhe seu livro que tenho em mãos e digo a ele que estou fazendo minha lição de casa para aquela tarde. Ele me responde gentilmente que vale mais a pena aproveitar o Brasil e, sem saber, toca em um ponto problemático: onde quer que eu esteja, o que quer que eu faça, sinto-me sempre melhor tendo algo para ler. A leitura é a grande paixão da minha vida, e é um pouco triste, se pararmos para pensar, para mim, que gostaria de ser um aventureiro, um agente secreto ou, ao menos, jornalista, arqueólogo, repórter de animais selvagens, algo de físico, arriscado, que não fosse apenas ficar sentado ou deitado lendo e escrevendo… A leitura é uma atividade bela, que traz muito prazer. Porém, sendo do mundo do sonho, ela ajuda a viver, mas não é a vida.

Para me consolar desse humor melancólico, eu vou à manifestação organizada na ponte da cidade em solidariedade aos grandes movimentos sociais que agitam o país. O grande repórter adormecido dentro de mim apanha um bloco de notas, uma caneta e se põe a caminho sobre os paralelepípedos quebra-cara da rua do Comércio que levam à ponte (trezentos metros, uma verdadeira expedição).

Mas, chegando à ponte, constato que não há nada, os turistas habituais continuam a perambular despreocupados. O símbolo da cisão entre “intelectuais” e o “povo”, sem dúvida…

No entanto, Laura, uma jovem estudante de história, me expõe sua opinião sobre a situação de seu país (e salva meu dia de grande repórter):

“Espero que as manifestações continuem, espero que os brasileiros continuem a se revoltar. Sei que na França vocês consideram Lula uma renovação do socialismo, mas na minha opinião não é assim, não se trata da verdadeira esquerda. Por que vocês não falam nunca do presidente do Uruguai, que é, ele sim, um verdadeiro socialista, tanto em ideias, quanto em atos, e que reajustou o país? No começo eu acreditei na Dilma, ela fez coisas boas durante o primeiro ano [já é algo bom, eu penso], mas em seguida não fez mais nada. O PT é corrupto demais. Você imagina que o presidente da comissão de direitos humanos da Câmara, um pastor evangélico, é racista e homofóbico? Ele declarou que os afro-descendentes são amaldiçoados e que se eles não podem fazer nada a respeito do fato de serem negros, os homossexuais, por sua vez, poderiam decidir não sê-lo. Por que Dilma o mantém em seu governo? Porque os evangélicos têm um peso enorme no Brasil. Como sempre, a religião ferra com o mundo.”

Como eu li que Lula havia tirado 4 milhões de brasileiros da pobreza, pergunto a ela se é verdade e ela responde:

“Sim, é verdade, é a famosa classe C [uma classe média-baixa emergente, pelo que entendi]. Um jornalista pesquisou recentemente em uma favela e disseram-lhe : ‘Sim, agora nós temos televisão, mas ainda não temos ruas calçadas e eletricidade’ . Isso é fora de sério. Sinceramente, é preciso escolher entre progresso social e educação e a Copa do Mundo”. E, sonhadora, acrescenta: “Nunca imaginei que os brasileiros pudessem dizer não a essa Copa do Mundo de merda”.

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Laurent Binet nasceu em Paris, em 1972. Formado em literatura pela Universidade de Paris, é escritor, professor e autor de dois livros de não ficção. HHhH, seu primeiro romance, teve calorosa recepção crítica na França e recebeu, em 2010, o prêmio Goncourt para romances de estreia. Ele está no Brasil como convidado da 11ª Festa Literária de Paraty e participará da mesa “O espelho da história” no sábado.

11 Comentários

  1. isadora disse:

    jornalismo de alto nível (risos)

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