Do catálogo: Seis propostas para o próximo milênio (Italo Calvino)

Por Leandro Sarmatz


Este é um livro que poderia — como aquelas edições do Novo Testamento que encontramos na gaveta do criado-mudo do lado esquerdo da cama em alguns hotéis — estar na cabeceira de qualquer pessoa envolvida em algum ramo de atividade criativa.

Convidado para estar à frente das legendárias Norton Lectures da Universidade de Harvard, uma série de conferências que já foram encabeçadas por, entre outros, Borges, Umberto Eco e Harold Bloom, Italo Calvino (1923-1985) respondeu à altura: datilografou uma série de ensaios articulados entre si sobre aquelas qualidades que julgava essenciais para a melhor literatura. Na esclarecedora (e um tantinho dolorosa) nota de apresentação ao volume, a viúva do escritor, Esther Calvino, relata algumas das circunstâncias que cercaram a composição do volume. Para começar, Calvino nunca chegaria a proferir a série de conferências. Morreria antes, sem ter desenvolvido a última delas, a respeito da “Consistência”.

A cinco anteriores estão magistralmente desenvolvidas pelo escritor italiano no elegante volume que saiu originalmente na década de 1990. São elas: “Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão”, “Visibilidade”, “Multiplicidade”. Antes de produzir um receituário — sua inteligência sutil e penetrante jamais seria dada a este tipo de tarefa —, Calvino constrói aqui uma espécie de fortaleza criativa a favor da melhor linguagem, aquela que não partilha do clichê e da banalização. E isso vale não apenas para a atividade literária. Embora crivado de exemplos da literatura universal, cada conferência é nada mais que uma conversação inteligente sobre a paixão humana pela construção de sentido por meio da arte. E aqui pode ser poesia e prosa, claro, mas também cinema, teatro e qualquer outra atividade artística feita por meio da linguagem.

Há dois horizontes na discussão de Calvino, um deles bem presente historicamente, ao tempo em que o escritor estava vivo, e outro que, quase trinta anos depois da composição original dos textos, ganhou força e parece estar intimamente ligado à argumentação toda. O primeiro é o surradíssimo debate (já na década de 1980) sobre a morte do romance ou mesmo da literatura. Demonstrando um entusiasmo quase juvenil pela milenar arte de contar histórias, o texto de Calvino parece mesmo ser um breve contra o azedume de certa crítica e literatura do período que insistia em enxergar o apocalipse nas páginas da prosa de ficção. A cada grito de “o romance morreu”, Calvino contrapunha com uma leitura original de Stendhal, Gadda, Borges e tantos outros mestres que inovaram na linguagem e na nossa concepção de literatura, projetando-a em direção ao futuro.

O segundo horizonte, que talvez tenha sido intuído pelo escritor mas nunca imaginado, é a internet e toda as consequências do novo mundo virtual para a criação literária e mesmo para o mercado (ebooks etc). Pois não são as qualidades arroladas por Calvino — leveza, rapidez, visibilidade etc — aquelas mais valorizadas por aqueles que pensam a web em toda sua potencialidade? Cada vez mais se discute a importância de nos aprofundarmos nos textos para internet, mas sem esquecer as particularidades desse meio. Que são, olha só, aquelas mesmas que figuram nas conferências do autor de As cidades invisíveis.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.