Dois mil, oitocentos e setenta e cinco dias

Por Daniel Pellizzari

Sete anos, dez meses e catorze dias pode ser bastante tempo. Quando publiquei Dedo negro com unha, em 2005, eu morava em Porto Alegre, era recém-casado, não tinha filhos, pesava pouco mais de cem quilos e meu cabelo era escuro. Agora, ao lançar Digam a Satã que o recado foi entendido em 2013, moro em São Paulo, sou divorciado, tenho um casal de filhos, uma namorada, peso vinte quilos a menos e até a minha barba é grisalha. Não fosse a data e o local de nascimento, os pais e os irmãos, o nome e as memórias, poderíamos falar em duas pessoas. Quem passou um mês inteiro em Dublin para o Amores Expressos foi uma terceira.

Cresci um tanto obcecado pela Irlanda. Primeiro foi a mitologia: Crom Cruach, os Fir Bolg e os Tuatha Dé Danann, o folclore pós-cristão. Logo mais a história, do mesolítico em diante, de celtas e vikings e São Patrício à Revolta da Páscoa, The Troubles e daí em diante. Por último veio a literatura: da batalha de Moytura no Lebor Gabála Érenn ao arquivo Dalkey de Flann O’Brien e adiante, num commodius vicus de recirculação que acabou englobando toda a cultura. Aos 15, 18 anos eu me correspondia (aqui estamos falando de cartas dentro de envelopes selados) com dezenas de pessoas ao redor do mundo usando um pseudônimo cujo sobrenome era O’Tuathail. O adulto que desembarcou solene e roliço no aeroporto de Dublin ainda carregava um pouco dessa visão romântica gestada por outras pessoas com o mesmo nome, RG e filiação. Encontrou, claro, outra coisa.

A viagem e a encomenda do romance me pegaram num momento delicado como escritor, talvez agravado por ter passado um mês como espectro numa terra estranha sobre a qual eu tanto sabia e não conhecia nada. Estava cansado de tanta preocupação formal nos meus livros, de sempre colocar a linguagem em primeiro lugar. Não queria mais falar com a literatura, mas com pessoas. Estava interessado em arcos de personagem, em enredos, em mais sentimento e menos intelecto. Após uma saraivada de fracassos, descobri que não sabia ao certo como fazer isso. Foi uma ruptura considerável. Aos 25, 30 anos eu escrevia ficção com relativa facilidade, tinha segurança técnica e imaginava que isso era o suficiente. Ao me sentar sobranceiro e fornido para começar a escrever um romance sob essas novas diretrizes, ainda guardava um pouco dessa visão romântica sobre mim mesmo e minhas habilidades, gestada pelas pessoas que tinham escrito meus três primeiros livros. Encontrei, claro, outra coisa.

E assim os anos escorreram lerdos e letais como uma inundação de melado (Boston, 1919). Escrevi em parceria o roteiro de uma graphic novel chamada Água peluda, que algum dia talvez termine de ser desenhada, mas exceto por uma coleção bem gordinha de falsos começos pouco avancei no romance dublinense. Tinha apenas os personagens. Na técnica mnemônica dos loci, ou palácios da memória, a memória espacial é utilizada para gravar o que precisa ser lembrado. Se você precisa se recordar de uma lista de objetos, nada mais prático do que espalhar os itens no interior de um local conhecido, seguindo uma rota determinada. Quando precisar da lista ali ela estará, tridimensional, esparramada da soleira da porta até a área de serviço. Visitei tantas vezes alguns locais de Dublin que os conheço tão bem quanto qualquer uma das mais de vinte casas em que morei. Entraram para meu arsenal de palácios da memória, e neles deixei personagens esperando que eu encontrasse o melhor modo de colocar cada um deles em ação. E rapaz, como eles ficaram parados.

Como sempre, procurei ajuda na ficção. Alguns romances me ajudaram a desempacar, mas três tiveram uma influência mais óbvia: Uma fração do todo (Steve Toltz), Skippy dies (Paul Murray, infelizmente ainda sem edição brasileira: se alguém quiser publicar, eu traduzo) e Infinite jest (David Foster Wallace, que está sendo traduzido pelo mestre Caetano W. Galindo). Este último me ajudou mais na releitura, e tenho consciência do quanto dizer isso é pedante, mas é a verdade, então paciência: and remember patience is the great thing, como escreveu um irlandês caolho que gostava de trocadilhos. Digam a Satã que o recado foi entendido não tem relação direta com nenhum desses livros, até onde consigo ver, mas a impressão que a leitura de cada um deles me causou — o ritmo e a interação entre personagens de Toltz, a polifonia e as marcas de enunciação em Murray, a honestidade desarmadora e o humor triste de Foster Wallace — enfim me ajudou a descobrir como dar forma ao que ainda era uma barafunda de elementos na minha cabeça. Depois disso só me faltava voltar aos palácios da memória dublinenses, colocar os personagens em movimento e redigir o romance. Uma página por vez. Ou seja, a parte mais simples e mais trabalhosa de escrever.

Dentro da cabeça de todo mundo existe uma voz que atrapalha o silêncio com seu monólogo incessante. Não dorme jamais, essa voz. (Para não complicar as coisas, vamos ficar no singular). Acredito que essa voz insistente se confunde com aquilo que realmente somos, mas prometo não falar sobre isso por aqui. Há algum tempo li sobre um fenômeno batizado de subvocalização, que consiste em movimentos involuntários das cordas vocais. São discretos a ponto de não produzirem som algum, e segundo alguns pesquisadores refletem esse monólogo interior, em uma forma de compensação cognitiva. Às vezes a subvocalização transborda por um motivo qualquer e as pessoas movem os lábios no ritmo da tagarelice interna, ou chegam mesmo a falar em voz alta. Nos dez meses de reta final eu acordava todos os dias às 6h para escrever Satã por duas horas e meia cravadas, antes de tomar banho e pegar o ônibus até meu emprego da época. Sentava na frente do monitor ainda semiconsciente e seminu. Quase todos os dias, a primeira coisa que me acontecia antes de eu começar a digitar era balbuciar uma palavra ou fragmento de frase qualquer, um pedaço de algum discurso de personagem. Como se aquilo estivesse sendo subvocalizado o tempo todo num processo em terceiro plano, até chegar o momento de virar palavra escrita. E era assim que eu decidia o narrador a ser trabalhado naquela manhã. Ainda não sei bem o que pensar sobre isso, estou guardando para depois. Só achei interessante compartilhar. Desculpa.

Terminei a primeira versão, entreguei ao meu editor (obrigado, André Conti) e aos meus primeiros leitores (obrigado, Daniel Galera e Michel Laub), cortei umas vinte páginas, devolvi a versão final, publicaram. Gostei do romance. É uma sensação nova, não sei o que fazer com ela e nem quero descobrir. Sentir é o suficiente. E a capa ficou bonita, então o que mais posso dizer? Meu trabalho com esse livro terminou, os sete anos, dez meses e catorze dias sem lançar nada terminaram, e agora é com os leitores (obrigado, leitores). Já estou escrevendo um novo romance, que no projeto tem uma 600 páginas. Isso significa que deverá a) levar um bom tempo para ser escrito; e b) ter no máximo 250 páginas na primeira versão, que encolherão para 200 na versão final. Estou nas primeiras anotações e tenho anos de trabalho pela frente. Talvez mais sete, o que pode mesmo ser bastante tempo, mas o tempo pode ser algo que nem existe além do agora. E agora estou terminando este texto, e está tudo bem.

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Daniel Pellizzari nasceu em Manaus, em 1974, e é escritor, tradutor e editor. Em Porto Alegre, fundou com os amigos Daniel Galera e Guilherme Pilla a Livros do Mal, editora por onde publicou seus primeiros volumes de contos, Ovelhas que voam se perdem no céu (2001) e O livro das cousas que acontecem (2002). Publicou também o romance Dedo negro com unha (DBA, 2005). Traduziu obras de autores como William Burroughs, David Mitchell e David Foster Wallace. Em 2012, lançou em seu site a antologia Melhor seria nunca ter existido (Livros do Mal 2.0). Atualmente, mora em São Paulo.
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DIGAM A SATÃ QUE O RECADO FOI ENTENDIDO
Sinopse: Uma agência de turismo especializada em locais mal-assombrados que não existem. Uma seita que quer trazer de volta um antigo deus-serpente dos celtas. Um grupo de terroristas que pretende destruir simbolicamente a Irlanda. É na rota de colisão entre esses elementos que Daniel Pellizzari extrai um romance ao mesmo tempo sombrio e cômico sobre o amor nos tempos do apocalipse. Através das vozes de Magnus Factor, Bartholomew O’Shaugnessy, Demetrius Vindaloo e outros idiotas extraordinários, somos conduzidos por uma Dublin que deve menos aos guias turísticos do que aos becos escuros, às epidemias de tifo e às revoluções impossíveis.

Eventos de lançamento:

São Paulo: Terça-feira, 16 de julho, às 19h30 – Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Avenida Paulista, 2076 – Conjunto Nacional

Porto Alegre: Sexta-feira, 26 de julho, às 19h30 – Palavraria Livros & Café – Rua Vasco da Gama, 165 – Bomfim

11 Comentários

  1. Luiz Schwarcz disse:

    É um prazer enorme contar com toda a equipe editorial da “Livros do mal” agora na Companhia. Bem-vindo Daniel, sua presença na editora ao lado dos colegas desta geração gaúcha tão inspirada é uma alegria para nós.

  2. Diana (admin) disse:

    Thomas, o livro já está disponível como ebook na Amazon sim (e em todas as outras lojas de ebook). Mas se você estiver falando do físico, a Cultura entrega em outros países.

  3. Agradeço os comentários, pessoal. Espero que gostem do livro.

    E por enquanto não há previsão de evento em Brasília, Ramon (nem no Rio de Janeiro). Vou ver o que se pode fazer.

  4. Thomas disse:

    Tchê, e na Amazon? Pra quem mora fora do país, sabecomoé?

  5. Ramon de Córdova disse:

    Esperando este romance sair do forno desde que assisti, entusiasmado, ao video que a coleção Amores Expressos elaborou à guisa de orelha de livro contemporânea. Aquilo lá mais este papo gostoso, generoso e estimulante, que Pellizzari agora nos oferece são razão mais que suficiente para que eu me lance de cabeça na aventura que este contador de histórias do meu tempo nos apresenta(clássicos universais e autores de outras culturas terão sempre a minha atenção, o meu interesse, mas quero muito, tenho especial sede de saber o que tem para dizer o homem da minha cultura, e não só, o homem dos meus dias).
    Essa mesma coleção já rendeu livros impagáveis de tão bons! O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho, por exemplo, é de cair o queixo, é de tirar o fôlego, é de agradecer mil e uma vezes pelo prazer gerado e proporcionado.
    Pellizzari, concordo contigo! A capa ficou show de bola!
    Perguntinha: Brasília terá o privilégio de receber um desses eventos de lançamento do teu livro?
    Pensando em voz alta: E dizem que literatura é coisa para um público restrito! Quem hoje em dia viajaria para Dublin (e não é para qualquer Dublin) por trinta e sete reais?! Literatrua, isso sim, é para quem descobriu que não só o gato pode dar o pulo do gato! ;)

  6. Ana Clara Barsotti disse:

    “E assim os anos escorreram lerdos e letais como uma inundação de melado (Boston, 1919).” Muito bom isso.
    Sei lá, carpideiras à parte, acho que algo de muito bom está acontecendo com a literatura brasileira. Ricardo Lísias e sua purgação autoficcional; Antonio Geraldo (“As visitas que hoje estamos”) e os experimentos com a oralidade; um mega-épico de sexo e humor (Pornopopeia); belos romances de análise psicológica/existencial (Sonâmbulo amador; Memória da pedra); bons romances “realistas” (Diário da queda, Barba ensopada, Passageiro do fim do dia); e agora esse lindo relato e esse novo livro do Pellizzari, provavelmente numa chave DFW, e ainda estamos à espera do próximo Bernardo Carvalho, do próximo Amílcar Bettega…
    Eppur si muove!!

  7. Marco Severo disse:

    Fiquei intrigado com este título e este livro, e adorei esta crônica. Mais do que nunca, este livro está na minha lista das breves aquisições.

    Agora: interessante que, dia desses, li no NY Times um artigo sobre autores que passam longos períodos sem publicar nada. Para alguns deles, isso já faz parte da “mystique” envolvida, como é o caso do Thomas Harris (“O silêncio dos inocentes”), e, aparentemente, do Jeffrey Eugenides. E aparentemente, se dão bem. Mas, para outros, quando tentam retomar, os livros encalham, o que prova que isso também não é pra todo mundo. Muriel Barbery, que escreveu um dos melhores livros que já li na vida, “A Elegância do Ouriço”, não publica nada desde 2006, e eu fico aqui roendo unhas. Mas é a vida. Espero que não passe tanto tempo entre livros, Daniel. E, por outro lado, passe o tempo que precisar. O que nos resta é sonhar com a boa sorte.

  8. Álvaro disse:

    já estou na segunda leitura e, jesuis, o Barry é muito engraçado.

  9. Ricardo disse:

    Ingênuo quem acha que é fácil a vida de escritor. O medo e a ocasional humilhação de ler os gigantes, o pavor de reconhecer clichês e imprecisões suas nos textos ruins ou ineficazes dos outros. E o tempo consumido em mundos e pessoas que só existem, às vezes precariamente, dentro da cabeça. Ainda assim, escritores escrevem. O Philip Roth, em uma recente entrevista (acho que para a New Yorker) tentou dissuadir seu jovem entrevistador (e admirador) de seguir a carreira de romancista. Muitos o crucificaram, dizendo que era um velho egocêntrico e sem generosidade. Eu acho que foi um gesto de carinho do mestre rabugento. Ele sabia que se o sujeito era de fato escritor, nada o dissuadiria, mas ainda assim tinha a obrigação de tentar convencê-lo que melhor seria se aventurar em alguma atividade que alimentasse menos essa voz que atrapalha o silêncio.

    Tenho escutado muitos autores contemporâneos (da nossa faixa etária) falando desse desejo de migrar da preocupação excessivamente formal para uma sensibilidade de comunicação emotiva com o leitor. Acho brilhante. Os brasileiros precisam ser tocados e não dá para arriscar uma mensagem opaca ou oblíqua demais. Os arcos e o enredo são os veículos necessários para se atingir as almas das pessoas e os escritores mais brilhantes da nossa geração não podem mais se esconder atrás de sua erudição (leia-se vaidade) e sofisticação. Poucos admitem, mas o exercício mais foda é conseguir mobilizar os leitores.

    Espero conseguir autografar minha cópia do seu livro no dia 16.

    Sds

  10. rogerio disse:

    Texto maravilhoso. Muito íntegro. O melhor do mês.

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