Em Tradução (There but for the)

Por Caetano Galindo

Pois bem.
Entre o mês passado e hoje (quanto tempo!), Infinite jest definitivamente saiu da minha mão. Revisado, relido etcterado.
Crendiospai.
Torçamos.

Ainda devo voltar a falar bastante do livro aqui, inclusive pra dar uma situada geral que andaram pedindo (se bem que, pra isso, dá pra olhar aqui também). Mas por hoje, por esse mês, eu queria falar do que foi meio que o meu banho-de-descarrego do projeto Wallace: um outro livro. E a sua autora.

É o terceiro livro da escocesa Ali Smith que eu traduzo. Descontando volume Rock’n’roll e outras peças, de Tom Stoppard, e Todos os poemas, de Paul Auster, que reúnem em volumes únicos várias obras diferentes, ela é a autora que eu mais escrevi na vida.
E, meu, com que gosto.

Hotel mundo foi o meu terceiro livro aqui pra Companhia, primeiro de ficção. Foi meu décimo livro traduzido, mas até hoje pra mim marca o momento em que eu virei gente-grande (ou essa curiosa versão de gente-média que vem dando pro gasto…), em que eu percebi que aquela coisa mais comportada, menos arriscada, que eu tentava fazer antes era ao mesmo tempo menos responsável, no sentido ético mais pleno sabe?
De chamar a responsa.
De bater no peito e gritar xá comigo!
E isso só aconteceu por causa das exigências do livro, do amor da autora por trocadilhos, piadas verbais, sonoridades, invenções, vozes diferentes… foi traduzindo o monólogo interior de uma adolescente adoentada, presa à cama, que eu atravessei o meu Rubicão, que eu vi como era foda isso de ‘escrever’ ficção, de ser um outro. Isso de eu, macho tosco pardo e (na falta de termo melhor) maduro, virar moça branca delicada e verde. E gostei.

Está rolando na internet um vídeo bem bonito em que Dustin Hoffman se emociona ao falar de Tootsie [http://www.youtube.com/watch?v=xPAat-T1uhE]. A transformação de gênero é a mais marcada, a mais marcante de todas, claro. Mas ele, como ator, sabe que no fundo seu emprego é sempre esse. Sabe que Dorothy Michaels é, será sempre, o símbolo melhor do que de mais difícil e mais encantador a profissão dele oferece. Sempre.
Romancistas também vivem disso.
Mas tradutores, como atores, recebem a dádiva, a encomenda, a tarefa, o dever. E precisam lidar com isso.
A gente não escolhe. A gente lida com o que vem.
E muitas vezes o que vem está acima da tua capacidade. Aí ou você cresce ou some…

Eu comecei a crescer com Ali Smith…

Depois disso fiz um livro de contos dela, genial. Li outras coisas. Inclusive tinha lido esse There but for the logo que saiu, bem antes de traduzir.
Em parte porque virei fã mesmo. Em parte, também, porque eu decididamente não queria só traduzir mais livros dela, mas queria me sentir “o” tradutor de Ali Smith.

Porque eu gosto dela.
Porque de algum jeito muito estranho eu sinto que “pego” o estilo dela. Que “entendo” a cabeça dela.
Esses dois, e agora três, livros são dos que eu mais me orgulho…
E olha, os livros dela são bem cabeludos. E no entanto eu dei conta de uma primeira versão desse romance mais recente em duas semanas. Rindo. Literalmente.
Não sei bem se fui eu que aprendi com ela a entrar melhor em outras vozes ou se foi ela que meio que se apropriou de mim pras coisas funcionarem desse jeito, tão facinhas…
Faz diferença?

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

13 Comentários

  1. […] Já falei de Ali Smith aqui. De como eu me orgulho de ser o tradutor dela no […]

  2. Bruno disse:

    Bem, Daniel, essa informação a respeito da tradução alemã me surpreendeu.

    Ok,sem problemas em esperar mais um pouco!

  3. Bruno,

    Estou achando até bem ágil, para um livro tão complexo. Se não fosse o Galindo o tradutor brasileiro eu ficaria até preocupado com tanta rapidez. Para colocar as coisas em perspectiva: na Alemanha, só o processo de tradução levou seis anos.

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