Mesa 1: O dia a dia debaixo d’água

Convidados:

Mediação Noemi Jaffe

Ao se tornar matéria de poesia nas obras dessas três jovens poetas, o cotidiano assume inflexões várias — cômico, melancólico, sublime. A sucessão dos dias, observada naquilo que tem de mais trivial, pode se estender num clima arrastado de tarde de domingo ou sugerir uma possibilidade inesperada de revelação, como indica o título do livro de Alice Sant’Anna, Rabo de baleia. O mergulho na vida íntima, aqui, se constrói por meio dessa tensão entre o campo delimitado pelas paredes da vida privada e um desejo reiterado de expansão.

Noemi: Parece que na poesia de vocês existe um certo desencanto com as palavras, como se o mar fosse um contraponto à poesia que ainda está inevitavelmente submetida à forma das palavras, que como um navio partido afoga-se a seco. Como se o mar fosse uma possibilidade de fuga para um espaço mais informe e que dá mais liberdade. Vocês têm algum desencanto com a linguagem, com as palavras, embora saibam que não existe outra forma para se expressar. E têm desencanto com o mundo fora d’água?

Alice Sant’Anna: (bom dia e agradecimentos) Temos sim um desencanto mas não temos outra maneira de dizer isso. Esse livro Rabo de baleia escrevi querendo fazer um livro sobre viagens. Mas quando eu fui me dar conta de que não estava conseguindo, percebi que estava totalmente mergulhada na rotina e era impossível falar sobre uma viagem sem ter uma viagem nos planos. O livro só existe nas palavras talvez, esse “rabo de baleia” que atravessa a sala. As palavras que criam a viagem, que não é geográfica, mas é possível.

Ana Martins Marques: (agradecimentos) Essa pergunta do mar é uma que sempre me fazem. Talvez por eu ser mineira e lançar um livro em que o mar é tão recorrente. Acho que a primeira resposta é que conviver longe do litoral talvez traga esse fascínio, porque ele não é muito íntimo. Tem uma superfície muito inteligível e uma profundidade informe. Dá pra pensar sim como uma espécie de metáfora da criação poética. O poema é aquilo que vem à tona, dá forma ao informe que está submerso, uma espécia de iceberg. Em relação à desconfiança eu acho que está muito presente sim, como se estivesse sempre batendo a cabeça no limite da linguagem, mas sabendo que não há escapatória. O título A arte das armadilhas vem pouco disso. Linguagem é armadilha, você não consegue muito passar daquele limite estipulado pela linguagem, você vai se envolvendo e criando experimentos.

Bruna Beber: Eu também vivi muito a ideia do mar, de ter nascido longe dele. Mesmo depois de maior e conhecendo o mar melhor eu acho que o que ele exerce em mim é fascínio pelo mistério mesmo. E por ter lido tanto sobre o mar e cantado tanto sobre o mar, na poesia portuguesa e na cultura brasileira. Sobre o desencanto, acho que já fui mais desencantada com o mundo e com as coisas, mas não tanto com as palavras. Sempre acontece um amor e ódio e é normal com quem escreve mas sou muito encantada com as palavras, tenho uma relação quase infantil com elas, lúdica.

(leitura de trechos)

NoemiOntem estávamos conversando e preparando a fala e contei para elas que fiquei surpresa com o que eu entendi como um certo desencanto com as palavras depois de ler os livros delas. A Bruna disse que não é desencantada com as palavras mas é desencantada com a vida, e eu fiquei surpresa porque a Ana, que tem 35 anos, é a mais velha delas. E eu li na poesia de vocês uma maturidade e consciência da linguagem e do tempo que passa e ao mesmo tempo um desencantamento com isso tudo, e me surpreendeu a juventude de vocês. Talvez essa maturidade precoce venha justamente da juventude, porque eu, agora que já passei por isso, procuro o “encanto perdido”. Vou ler uns trechos para o público entender do que estou falando. (lê pequenos trechos). Queria saber como vocês tiraram essa consciência tão aguda do tempo, sendo tão jovens ainda?

Ana: Acho que existe um certo desencanto sim. Tem uma poeta russa, Marina Tsvetaeva, que se refere a ela mesma como uma moça com um vestido muito antigo. Eu me sinto assim às vezes, como se o início já fosse tarde demais. Existe uma certa desconfiança da linguagem que já falamos, do amor, tratado ironicamente, ou como uma espécie de citação. Como se fosse aquilo que você aprendeu nos poemas de amor. Mas também tem um pouco de cena nisso, como se fosse “finjo que não estou nem aí mas quero muito”. Mas acho que os poemas não são tão desencantados assim, existe uma espécie de alegria, uma solaridade, mesmo que pequena e súbita, que você consegue meio de repente. A leitura parece muito uma forma de felicidade nos poemas, então acho que existe uma chave um pouco desencantada mas normalmente os versos finais são uma chave de decepção e ironia como se voltassem no poema desdizendo o que foi dito antes. É interessante porque é comum que eu pense primeiro nos versos finais. Às vezes tenho alguns fins que ficam anos à procura de um poema. Então acho que tem desilusão, mas também algo de alegria sim.

Bruna: A Ana falou isso de solaridade e acho que meus poemas começaram nas trevas e foram clareando aos poucos, não sei se pela passagem do tempo. Acho que a minha consciência da linguagem, que você apontou, e esse olhar antigo, é porque eu trato as palavras muito de perto, me envolvo demais. Talvez eu tenha levado muito a sério essa relação com as palavras quando eu comecei a escrever, no sentido de que é uma brincadeira mesmo para mim. Eu gosto de perder tempo com as palavras e refazer o poema milhões de vezes. Portanto, voltando à velhice, eu não sei dizer de onde vem isso.

Alice: Isso de poema solar, escuro… acho que a gente não é nem um nem outro, é uma a sombra que entra como um meio termo. Essa sombra tem uma capacidade dar outro tom, outra textura às coisas. Não é aquela luz elétrica e chapada, que faz uma sombra irreal,constante, como diz Tanizaki. E o que temos na natureza é a sombra natural, que é móvel, hesitante. Então acho que os nossos poemas têm um pouco disso. Não são escuros, mas não existem sem um pouco de luz. São solares em alguma medida.

Noemi: Como vocês pensam os cortes dos versos? Porque o verso livre existe há quase cem anos, mas a questão de onde cortar o verso ainda é um problema para os poetas. A poesia de vocês é muito coloquial e às vezes sentimos como se estivéssemos conversando com o poema, tão aparentemente espontâneo que ele é. Embora seja uma espontaneidade controlada. Mas às vezes parece que você está batendo papo. É uma riqueza que a poesia de vocês tem. Então como vocês escolhem onde cortar o verso? Afinal, isso decide o poema no verso livre.

Bruna: O corte é uma liberdade mesmo. No meu caso, eu gosto disso que você falou, da oralidade e da sensação de estar próximo ao poema. É importante o ouvido para mim, eu leio e releio mil vezes, gravo, canto, mostro para amigos. O ouvido então seria o mais importante no meu caso. A forma também, mas mesmo nas minhas tentativas de não fazer verso livre e tentar colocar alguma métrica, eu não consigo. A rima também é muito difícil pra mim, e o meu corte é sobretudo feito pelo ouvido mesmo, como se tivesse acompanhando a minha fala e meu pensamento, às vezes tão seco.

Ana: O verso é corte. Tanto é que uma definição meio jocosa de poesia seria aquilo que muda de linha antes do final da página. Normalmente esse corte tem muito a ver com ritmo, mas no meu caso eu penso muito no poema na página, num aspecto visual mesmo. Não tem tanta ligação com a oralidade, não costumo ler em voz alta. Eu penso nele muito graficamente embora não tenha a ver propriamente com poesia visual. Eu penso na disposição dele na página. Acho que os cortes são feitos também num ritmo gráfico. O corte é importante porque muda a relação entre as palavras, e no meu caso é feito poema a poema mesmo, não existe uma regularidade prévia. Não penso se vou fazer três ou cinco versos, vejo o efeito das palavras e essa questão gráfica. Gosto de brincar com os poemas, jogar com essa questão de no final do verso ter uma espécie de abismo, como se as palavras fossem materiais, uma espécie de artefato.

Alice: Cada uma de nós é bem diferente mesmo. Os poemas da Bruna às vezes parecem letra de música, com estrofes e o refrão, e a Ana às vezes tem só uma palavra no verso inteiro, como se as palavras estivessem empilhadas. Acho que eu faço versos mais longos e tento criar uma ambiguidade para ter leitura de dois jeitos. Então nem sempre acompanha a respiração ou o que seria um fim esperado de um verso. Você lê com um sentido ou outro, dependendo de onde você faz a pontuação. Nem sei se vocês reparam mas é algo que tento fazer.

Bruna: É, eu gosto de ter um poema bonito na página, parecendo uma escada, um poste… eu não gosto de colocar versos de tamanhos muito diferentes. É uma coisa que me incomoda visualmente.

Noemi: Outra coisa que reparei e achei muito forte na obra de vocês três. Ela foge do lirismo clássico, ligado à ideia de amor e sentimentos. Na poesia de vocês eu não vejo muito sentimento. Ele se passa mais pela ação, pelos gestos, pelas cenas do que pelo sentimento em si. Vocês acham que fazem um lirismo anti-lírico, sem amor? Vou pegar por exemplo um poema da Alice, “Ausência”. Para mim isso é um poema de amor, mas complicado. É a mesma coisa na poesia da Bruna e da Ana, acho que a Bruna fala que a lágrima que escorre é da pimenta, não da flor. Mas queria saber de vocês: e o amor?

Alice: A coisa mais difícil que tem é escrever poema de amor. Mas é a mais fácil e a mais difícil ao mesmo tempo. Todo mundo começa pensando na poesia como uma forma de se declarar pra alguém (até nesse sentido a poesia tem utilidade). Você escreve um poema como alguém dá uma rosa. Mas ao mesmo tempo que isso é fácil, o mais difícil é fazer um poema de amor que não soe cafona. Acho que a gente consegue falar de amor a partir do cotidiano. Conseguimos personificar um sentimento, sem exaltar a cafonice de que tenho tanto medo. Acho que há outro jeito de falar e acho interessante esse auto desafio sobre algo que não despertaria nenhuma grande inspiração. Pegar uma maçaneta sem graça e fazer um poema a partir dela. Acho que esses poemas são de amor mas estão disfarçados.

Ana: Eu acho que tem a ver com isso mesmo que a Alice falou. Escrever é sempre ter que lidar com essa transição, e vai ser um pouco assombrado sempre, sobre como fazer um poema de amor sem soar errado. Eu não acho que o amor esteja ausente nos meus livros, talvez esteja disfarçado mesmo, se mostre ironicamente. Acho que é isso..

Bruna: Até você me dizer eu achava que falava muito de amor. Eu falava de um grande sentimento, mas não escancaradamente. Falo mais de coração do que amor porque você não sabe onde o amor vai terminar. Acho que nós três temos a característica do tamarindo: um azedinho doce. Uma picada e um beijinho.

Noemi: É, eu senti mais a picada… ainda tô querendo um beijinho. Mas você tem razão, nesse último livro Rua da Padaria tem mais sentimento, mais beijinho. Algumas picadinhas.

Pergunta do público: Por que a poesia?

Alice: Pergunta simplérrima… Por que não a poesia? Posso responder com uma pergunta?

Bruna: É uma pergunta delicada, mas… ontem estávamos até conversando sobre a utilidade da poesia. O que você falou, Ana?

Ana: A poesia não serve para nada. É até um jeito de segurar a liberdade dela. Ela não tem que servir. Eu falei ontem que a poesia serve para não servir, é um inutensílio, um utensílio para nada. Mas serve para abrir uma espécie de clareza, fora da função do trabalho.

Bruna: É, eu fiz uma associação com uma varanda. A poesia é como a varanda, é o lugar que você tem espaço para pensar, dormir, chorar, olhar as flores, respirar, sobretudo. A poesia é esse espaço, eu acho, o espaço que nos damos ao ler e escrever: é uma varanda.

Noemi: Outra coisa que queria falar é sobre a ternura pelos próprios erros. A poesia não serve a nada, não tem dono, não se submete a nada. É uma ternura pelos cacos, pelas frestas. Peguei vários termos nas poesias de vocês. A Bruna tem um poema muito lindo. As pessoas podem não ter mais nada na vida mas sempre têm uma toalha bordada. É uma coisinha que sempre sobra, e nesse sentido é um encanto. É o encanto por um caco. Na Alice também, fala-se muito de uma mesa, uma fresta… Queria que vocês falassem sobre isso, sobre a relação que vocês tem com o erro, o tropeço.

Ana: Eu acho que sempre tem que se lidar com um fracasso de alguma forma. Daquilo que você quer fazer, o que você consegue. Acho incrível isso do Becket de fracassar para fracassar melhor. Agora como que isso entra nos poemas? O amor pelas pequenas coisas… vamos falar numa espécie de tarefa. Ela amplia um pouco coisas que são dignas de consideração. No que vale a pena prestar atenção? A poesia tende a ampliar isso, prestar atenção em coisas que normalmente não prestaríamos, com um olhar inusitado. A poesia acolhe essas coisas. Isso não quer dizer, espero, que não exista uma tentativa de elaboração até mesmo trabalhosa, mas é uma forma que talvez acolha um pouco uma certa desordem. Mas existe um trabalho, sim.

Bruna: É um pouco isso de amplificar as miudezas. Talvez seja um pouco isso, de pegar seu armarinho interno, uma agulha, linha.

Ana: Nos meus dois livros eu tenho sessão que gira em torno dos objetos, da casa, dos espaços da casa. Eu acho interessante uma espécie de força do objeto, tentar ver. Nós somos como que inquilinos na casa dos objetos então devemos prestar atenção neles e não só tomá-los como propriedades. Acho que os poemas das meninas também têm isso, de olhar isso.

Alice: Tínhamos falado sobre os tropeços e acho que a poesia não é capaz de reproduzir fielmente isso mas tentamos transformar o tropeço em passo de dança. Acho que o poeta, pelo menos eu penso assim, é que é uma pessoa fisicamente desengonçada em algum sentido, ou que era muito ruim em algo como educação física, tipo eu. Tentamos nos fazer bom naquilo que somos ruins. De alguma forma, se conseguimos medir o tropeço, tentamos controlar, fazemos uma coreografia com isso.

Pergunta do Ricardo Maciel: Quantos poemas que vocês escrevem falam de vocês mesmas? Existe muito fingimento ou é sempre tudo baseado em experiências pessoais?

Bruna: Eu acho que mistura bastante. Não tem regra. Difícil você escapar de si mesmo de alguma forma mas também impossível não fingir e não criar, falar do outro. Eu acho que eu não escrevo para mim. Eu escrevo para as outras pessoas então nem sempre estou falando de mim porque não interessa muito mesmo.

Ana: Eu acho que sempre que você escreve, mesmo querendo falar de sua vida, você vai escrever outra coisa, porque você vira outra pessoa. A escrita te leva para longe. Então mesmo que você tenha um projeto de escrita da sua vida, você vai viver outra coisa ao escrever. Mas na poesia às vezes nem tem muito sentido falar de ter vivido algo. Eu falo de cadeiras, meus poemas não são autobiográficos nesse sentido, a não ser que você tome isso num sentido muito amplo, levando algo que você viveu até ali. Eu escrevi o poema então a minha leitura e minha experiência e desejo entram ali mas não propriamente autobiográficos.

Alice: Sei lá, acho que até a cadeira pode ser autobiográfica. Acho muito difícil não ser na poesia porque a forma como a cadeira foi olhada por você só poderia ter sido olhada por você. Minha poesia é quase uma radiografia.

Noemi: Quando você fala eu, é você?

Alice: Provavelmente, eu teria que olhar.

Noemi: E vocês?

Ana: Não.

Bruna: Às vezes. Eu tento esconder bastante. Quando eu estou falando “eu”, tento colocar em situações que não me refiro a mim mesma. Tento me esconder ao me referir a mim mesma. Acho que ninguém enxerga… eu acho.

Pergunta do João: Vocês acham que o irônico é incontornável para quem escreve hoje? Eu queria acrescentar: vocês acham que a poesia que produzem poderia ser chamada de poesia atual? Que pertence ao nosso tempo – e por que?

Alice: Acho que a poesia é irônica sim, e uma das partes que mais gosto é a poeta portuguesa Adília Lopes, que faz essa coisa do eu o tempo todo. Ela fala sempre de si mesma. Eu acho que não precisa ser narcisista quando fala-se de si mesmo. Pode falar dele mesmo rindo.

Noemi: É incontornável a ironia?

Alice: Tem muita gente que não é irônica, mas acho que nós três temos algo de ironia.

Bruna: Mas não tão irônicas. E acho que a Adília não é irônica, ela é mais sacana mesmo. Uma pureza sacana.

Noemi: Mas vocês acham a poesia atual?

Alice: Ela é atual pelo modo como se relaciona com o tempo. Não sei exatamente o que é ser contemporâneo mas eu me sinto escrevendo e dialogando com quem escreve hoje, sim. Mas a poesia tem uma espécie de “relógio”, ora atrasado, ora adiantado, meio descompassado. Eu inclusive tenho um poema que fala sobre isso, que o ponteiro dos segundos no poema é mais lento que o das horas. Eu acho que a poesia não está “em dia”, porque o relógio às vezes está atrasado, ou adiantado, pode revelar algumas coisas.

3 Comentários

  1. […] Bruna Beber e Ana Martins Marques em uma conversa sobre poesia.  A transcrição pode ser lida no blog da editora e apresentação da mesa conferida abaixo. Ao se tornar matéria de poesia nas obras dessas três […]

  2. Daniel Abreu disse:

    Material para pensar…

  3. […] vídeo, há apenas o começo. A transcrição completa da mesa pode ser lida aqui. Compartilhe:Curtir isso:Curtir Carregando… Esse post foi publicado em Escrita. Bookmark o link […]

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