O grande Tanner

Por Tony Belotto

Party! Party!

Todos conhecem aquela sensação, quando estamos envolvidos com um livro, de não querer que a leitura chegue ao final. Cada leitor tem uma técnica específica de retardar o gozo, digamos assim, da última linha. Eu mesmo já vivi essa sensação inúmeras vezes, e desenvolvi subterfúgios inacreditáveis para driblar o final de um romance. Desde recomeçar a ler o livro quando já estou no terço final, até guardá-lo na gaveta de meias por alguns dias, numa atitude digna de um pervertido sexual. Mas nada se compara ao que tem me acontecido ao me aventurar pelo clássico de Scott Fitzgerald, O grande Gatsby.

Permitam-me um pequeno preâmbulo. Sou, como todos sabem, um escritor intuitivo e pouco ilustrado. Identifiquei-me com a Fernanda Torres quando ela declarou que sua formação intelectual era cheia de furos, como um queijo suíço. Pois bem, também me considero um escritor tipo queijo suíço. Posso listar inúmeros clássicos que nunca li, e não por não ter tentado, mas por não ter conseguido. Há livros que me dão muito sono. Mas sou humilde o suficiente para creditar meus fracassos de leitor sempre a mim mesmo, e não aos autores, que são todos geniais.

O grande Gatsby, por exemplo, eu ainda não li. E nem tinha tentado. Nos anos 1960 as pessoas se dividiam entre as que preferiam os Beatles e as que preferiam os Rolling Stones. Mal comparando, na era do jazz sempre fui mais Ernest Hemingway do que Scott Fitzgerald. E até hoje prefiro os Stones aos Beatles.

O grande Gatsby, para mim, era o Robert Redford. Outro dia fui a assistir à recente versão cinematográfica de Baz Luhrmann e — perdão, perdão — adorei. Ao ler depois que todo mundo tinha odiado o filme, e que ele de certa forma conspurcava a memória do clássico — e a crônica da Vanessa Barbara aqui publicada é taxativa nesse sentido —, não pude evitar de ler o romance.

Bem, aí começa o verdadeiro assunto desta crônica.

Comprei a bela edição da coleção de clássicos da Penguin Companhia, com uma foto sugestiva de uma provável Daisy na capa e a promissora tradução da Vanessa Barbara. E eis que antes do texto de Fitzgerald, me deparo com a introdução de Tony Tanner — pelo que informa a primeira página da edição, um crítico literário inglês apaixonado por literatura americana.

E não é que eu me apaixonei pela introdução? Isso nunca tinha me acontecido antes. Eu costumava pular introduções por considerá-las chatas e empata-foda!

Mas a introdução em questão é escrita em linguagem fluente e charmosa, e consegue, ao esmiuçar o romance, transcendê-lo e criar uma personalidade autônoma, que independe do texto que analisa. Essa é uma introdução que se lê como um livro avulso.

Estou há semanas lendo o texto de Tanner. Não só já guardei o Grande Gatsby na gaveta de meias, como já li dois outros livros antes de concluir a leitura da introdução, tudo por puro sadomasoquismo e vontade de potencializar a pequena morte do fim que se aproxima na página 58. Imaginem quando eu chegar ao Gatsby.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.