O Rio de Janeiro como personagem (ou o lugar onde se escreve)

Por Mauricio Lyrio

Pitch-up

Ian McEwan, Salman Rushdie e Martin Amis, três velhos amigos, marcam um encontro num prédio da esquina da rua 92 com a avenida Lexington, em Nova York, na noite de 22 de julho de 2013. Contam piadas, falam de seus novos livros, exaltam a genialidade do amigo comum, o recém-falecido Christopher Hitchens, fofocam sobre autores. Amis e Rushdie não resistem à velha mania de quebrar a solenidade de qualquer discussão mais séria declamando títulos reinventados de livros, filmes e músicas. Desta vez trocam “amor” por “sexo histérico”: “Hysterical Sex in the Time of Cholera”; “All You Need is Hysterical Sex”; “Shakespeare in Hysterical Sex”.

A conversa segue leve e ligeira, como deve ser, até que alguém da plateia (sim, o encontro íntimo era acompanhado por cerca de 800 pessoas) arrisca uma pergunta: mudar de país ou de cidade afeta significativamente a obra de um escritor? Rushdie olha os amigos. Prefere não mencionar o fato de que trocou a Índia pela Inglaterra e pelos Estados Unidos. Passa a palavra a Amis, o expatriado neófito, que fez a travessia inversa de Henry James e deixou Londres para morar no Brooklyn há dois anos. Amis pensa e pontifica: sim, o lugar de adoção pode afetar a obra de um autor, mas é preciso tempo de sedimentação para que o novo ambiente seja assimilado não apenas mentalmente, mas fisicamente, como se tivesse de percorrer a espinha antes de produzir sentido. “Stop, in the Name of Hysterical Sex”, diria Rushdie ou McEwan.

O lugar onde se escreve (e o lugar que se retrata) é um tema interessante da literatura, mas não necessariamente central — ao menos fora dos domínios da literatura de viagem ou da literatura regionalista, em que o lugar é o próprio foco (do olhar em deslocamento ou da busca de raízes). Na teoria literária, o espaço é o primo pobre do tempo, talvez porque, como queria Kant, o tempo é nossa forma mais fundamental de experiência, aplicável até àquilo que transcende o espaço: nossos sentimentos, ideias e percepções. Já se disse que o romance como gênero literário talvez seja, no fundo, uma tentativa de enfrentar a questão do tempo.  Depois de Kant e Bergson…, Proust.

Nem por isso o lugar é um não-lugar, ao menos na cabeça do escritor, que sabe da importância, em vários níveis, do espaço em que escreve: como domínio da privacidade (como reivindicava Virginia Woolf no caso das escritoras); como fonte de experiência; ou como cenário de ambientação de uma obra. E nisso não há regras rígidas, especialmente na relação entre ambiente externo e vivência pessoal. Embora o senso comum recomende ao escritor vivenciar o lugar antes de transformá-lo em literatura, tanto a proximidade como a distância podem ser formas de inspiração: Joyce foi viver em Zurique e Paris para escrever sobre a Dublin de Ulysses; e o próprio Rushdie escreveu, em Londres, Filhos da meia-noite e outros de seus romances que se passam na Índia.

Nem sempre a partida física significa um retorno mental. Nem sempre a distância é exílio. Hemingway e Fitzgerald foram à Espanha e à França não para redescobrirem os Estados Unidos de origem, mas para retratarem o Velho Mundo com olhos frescos. Nabokov fez o caminho inverso e encontrou não apenas um novo lar, mas uma nova língua e um novo cenário, casando idioma e ambientação em seus romances norte-americanos, como Lolita e Fogo pálido.

Há aqueles, como Machado ou Beckett, que já não percorriam caminho algum, mergulhados cada vez mais dentro de si, herdeiros de De Maistre na viagem em torno de seus quartos (ou mesmo de suas camas, como no caso de Proust). Há aqueles, como Kafka, Orwell ou Huxley, que conceberam lugares tão distópicos, que nunca foram nem poderão ser visitados senão na própria imaginação.

Não fui o autor da pergunta aos três ingleses, embora estivesse no auditório, ouvindo a conversa amena. Comecei a responder a mim mesmo, porque já me haviam perguntado algo parecido. Como foi a experiência de escrever, na Argentina e na China, o romance Memória da pedra, que se passa no Rio de Janeiro? Por que você quis, a mais de dez mil quilômetros de distância, transformar o Rio numa espécie de personagem do livro, com seus bairros, suas curvas, suas pedras? Respondi ao entrevistador que eu havia morado no Rio ao longo de 26 anos antes de deixar a cidade, e quis retratar o Rio daquele momento em que parti. Talvez eu devesse ter dito que, para melhor expressar aquilo que havia visto e vivido, eu precisava estar no ponto mais distante do planeta — eu, o exato antípoda, noturno e chinês, do carioca que, naquele mesmo instante, saía de casa e pisava o asfalto da rua ou a areia da praia sob o sol morno da manhã. Mas essa não teria sido uma resposta nem charmosa nem necessariamente verdadeira.

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Mauricio Lyrio nasceu no Rio de Janeiro, em 1967. É diplomata e trabalhou em Brasília, Washington, Buenos Aires, Pequim e Nova York, onde vive atualmente. Em 2010, publicou A ascensão da China como potência, pela Fundação Alexandre de Gusmão. Seu primeiro romance, Memória da pedra, foi publicado em abril pela Companhia das Letras.
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