Ode ao ebook

Por Vanessa Barbara


Sou fã do cheiro dos livros, da maciez das lombadas, das manchas de café nas páginas, das dobras no alto das folhas e do volume físico que você pode morder, arremessar e brandir para matar baratas. Mas também sou entusiasta do livro eletrônico.

Quando ganhei um e-reader de presente no ano passado (um Kindle, da Amazon), agradeci polidamente e julguei que nunca iria usá-lo, como se fosse uma incômoda pipoqueira ou uma panela elétrica de fazer arroz.

O primeiro livro eletrônico que comprei foi a biografia do Steve Jobs, por motivos puramente práticos: faltavam menos de 100 páginas para terminá-lo e eu não queria ter que levar para a França um livro de 935 gramas. Rasgar os últimos capítulos não me parecia uma opção adequada. Então decidi concluir a leitura no aparelho.

Naquela temporada, que se estendeu por cinco meses, fui mandando de volta para casa todos os livros já lidos e fiquei com apenas um: aquela engenhoca acinzentada, sem cheiro nem peso, mas que podia conter as obras completas de todos os romancistas deprimidos, poetas suicidas e jornalistas bêbados que eu desejasse.

Foi assim que os acionistas da Amazon.com.br tiveram o melhor Natal de todos os tempos: sim, a culpa foi minha. Passei a comprar compulsivamente os últimos lançamentos em literatura estrangeira, as obras de referência em luto, os manuais práticos para cuidar de quelônios e tudo o que me parecia remotamente interessante (ou barato demais para ser dispensado). Tive acesso a livros que demorariam meses para chegar ao Brasil, a preços razoáveis. Passei a ler três vezes mais do que antes, sobretudo no ônibus, onde é sempre penoso portar volumes pesados. Comprei por engano um título sobre o desenvolvimento macroeconômico dos tigres asiáticos (maldito “Compre agora com 1-Clique”) e fui prontamente reembolsada.

Meses atrás, antes de passar 28 horas no avião, fui às compras e empilhei treze novos títulos na minha biblioteca portátil, diversificando os gêneros: de romances duvidosos a thrillers da moda, passando por tratados sobre a psicologia da rejeição, clássicos da literatura, guias de Hong Kong e contos completos do Conan Doyle. Fui alternando as leituras conforme meu estado de espírito, e na volta precisei comprar mais.

O Kindle básico custa R$299, possui capacidade para até 1400 livros, pesa 170 gramas e sua bateria aguenta 15 horas de leitura ininterrupta. O Kobo custa R$ 259, armazena até 1000 livros e sua bateria dura até um mês. Para quem passa muito tempo no transporte coletivo, é um item de extrema necessidade. É bom também para desdenhar das revistas ruins nas salas de espera dos consultórios médicos.

A oferta de livros em português ainda é muito baixa e os preços não são tão convidativos quanto poderiam, mas este cenário está mudando.

Para quem adora destacar trechos das obras que lê (www.hortifruti.org), os leitores de livros eletrônicos são bem práticos e agrupam todas as marcas num só arquivo, com a nota bibliográfica pertinente (título, autor, página).

Desde que aderi ao leitor de e-books, melhorei da lordose típica de quem carrega livros pesados. Minha mala de viagens também ficou mais leve, embora eu ainda insista em empacotar, junto com a escova de dentes, alguns tomos antigos de valor sentimental ou que não possuem versão eletrônica. (Confesso: a mala para esta Flip não continha um só livro “de verdade” e voltei com apenas dois, o que deve ser uma espécie de recorde às avessas. Por outro lado, a lista de futuras compras eletrônicas só aumenta.)

E a geringonça é discreta: você pode ler as coisas mais vergonhosas sem que ninguém o identifique como fã de Dashiel Hammett, de Agatha Christie ou de livros de zumbis do espaço.

* * * * *

Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista daFolha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook

36 Comentários

  1. […] Vanessa Bárbara, “Ode ao e-book” e aqui também. – Marcelo Coelho, “Tempo de Kindle” – Carolina Araújo Pinho, que também perdeu um […]

  2. Denise disse:

    Vanessa, seus textos são saborosos. Tenho uma excelente biblioteca, mas não dispenso IPad. Creio que um Kindle também me agradaria muito, pois o IPad tem bateria limitada. A discussão tomou um rumo engraçado. É claro que o livro, com cheiro, cores, páginas etc está longe, muito longe do extermínio. Muito pelo contrário! Houve aprimoramento gráfico, as capas ficaram mais charmosas e os leitores mais ávidos. Ás vezes, passeando pelas livrarias, vejo uma reedição primorosa de obra que já tenho e é praticamente irresistível não adquirir. Adquiro e fico bem feliz. Concordo muito com você: o que importa é realmente o que está escrito. O suporte, entretanto, e é uma discussão já quase antiga, modifica ou não a forma como apreendemos o texto? Talvez modifique, sim, a experiência leitoral. E o que isso provoca de diferencial na apreensão do conteúdo? Para mim, em alguns momentos, agiliza anotações como, por exemplo, quando posso destacar um parágrafo e, no momento seguinte, trancrevê-lo e enxertá-lo em um artigo. Mas é claro que a tecnologia tem alterado nossas formas de compreensão do mundo. No caso de filmes, creio que o suporte importa fortemente e acaba modificando as formas de apreensão. Eu também gosto dos livros macios, dos livros lindos e considero irresistível o cheiro de livros, tanto faz se antigos, novos ou quase novinhos ou velhinhos.

  3. moacir inácio disse:

    Legal! Parabéns por você ser uma leitora voraz.Apesar de você ter se familiarizado aos livros eletrônicos gostaria de lhe presentear com um dos meus livros. AS TRADIÇÕES DE UMA FAMÍLIA 192pg. O qual veio a luz ano passado.

  4. Gama disse:

    Queisso, o Dashiel Hammett é divertido, e está na minha lista de bebuns favoritos. Junto dele estão o Chandler, o Faulkner e o Jack London. Claro que não estão em ordem de preferência.

  5. […] 2. Vanessa Barbara fez uma Ode ao E-book (e agora estou convencida a comprar um) ali. […]

  6. Roberto disse:

    Compreendo o ponto de vista, mas acho uma certa injustiça com a panela elétrica, e com a pipoqueira também.

    Quanto aos leitores eletrônicos, estou me especializando na arte de desdenhar (isso requer trabalho e dedicação). Para ver se consigo comprar um usado mais barato. Na pior das hipóteses ele vai fazer companhia para o tablet na gaveta da mesa que fica no quartinho da acumulação. A meta é comprar um até julho de 2014.

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