Sandiegotudes

Por Érico Assis


Faz algumas horas que terminou a San Diego Comic-Con, o que, para inveja da editora deste blog (oi, Diana) ocupou meus últimos cinco dias. A Comic-Con é uma feira teoricamente de quadrinhos — como diz o “comic” do nome —, acontece desde 1970 e é a maior dos EUA. Teve 145 participantes na primeira vez, num salão de hotel. Teve 130 mil no ano passado, num centro de convenções de 57 mil metros quadrados, mais arredores. Foi no mesmo lugar este ano, e dizem por aqui que o público foi um pouquinho menor.

Foi minha primeira vez. Fui testar todas as platitudes, os lugares comuns que sempre ouvi sobre o evento, sobre nerds, sobre a cidade e sobre blockbusters.

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“É um bando de nerd virgem, gordo e suado.”

Depois de tanto ouvir isso, fiquei surpreso com a quantidade de mulheres. E de casais. E de mulheres e casais jovens, e mulheres e casais de meia idade, assim como homens dos 20 aos 40 carregando filhos no colo, trazendo filhos por gostos compartilhados, dividindo o cosplay. E senhores de barba branca fazendo perguntas sobre como ser roteirista de quadrinhos, senhoras enrugadas vestidas de Fênix. E as crianças, muitas crianças em idade de alfabetização, que sabiam trivia do Superman da década de 70.

Não há faixa etária, nem etnia, nem gênero, nem orientação mal representada. O estereótipo não fecha. Se a maioria fosse virgem, eu não veria tantos carrinhos de bebê. Nem tantos nerdzinhos de 5 anos.

Ok, obesidade é um problema nacional. Mas se alguém suou naquele ar condicionado glacial, é porque tem outro problema de saúde.

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“A cidade é tomada pela feira.”

Há anúncios por tudo, realmente. Até umas cinco quadras do centro de convenções, os cosplayers estão passeando, os ônibus e metrôs são adesivados com Kick-Ass, Agents of S.H.I.E.L.D., Breaking Bad. As lojas decoram as vitrines lichtensteinamente, hotéis vestem os funcionários com camisetas bazingueiras. A aura de Comic-Con é forte.

Mas San Diego é maior que a Comic-Con. É a oitava maior cidade dos EUA, vive das empresas que atendem o setor militar, tem o porto, o zoológico, turismo forte e, enfim, é Califórnia, o estado com a nona maior economia do mundo. Na sexta-feira e no sábado, o Gaslamp District, bairro boêmio onde fica o centro de convenções, é tomado por gente que não está fazendo cosplay de Jersey Shore, Real Housewives, nem de “The Californians”, mesmo que se esforce.

Os maltrapilhos na calçada com a placa “Korea Veteran” também não estão de cosplay. Enfim, a cidade está lá, seguindo sua vida, pro bem ou pro mal.

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“Não é mais um evento de quadrinhos, é só pra blockbuster.”

Faz uns sete ou oito anos que Hollywood começou a investir pesado na feira. Aí os grandes chamarizes para cento e tantos mil visitantes viraram os filmes e os seriados de TV, não os quadrinhos. Há quem reclame que o “comic” no título é enganador.

É certo que Hora da Aventura, Guerra dos Tronos e Vingadores têm mais público que qualquer gibi. Mas os gibis estão lá. Todos. Todos mesmo. Desenhos de Batman e Superman feitos por artistas de São Paulo viram painéis de cinco metros. Os irmãos Hernandez dão autógrafos no estande da Fantagraphics. Juanjo Guarnido veio da Espanha, Kazuo Koike veio do Japão, Tom Gauld veio da Inglaterra. Fãs fazem fila para conversar com os autores de Cyanide & Happiness, uma webcomic totalmente independente. Tem desde Neil Gaiman cercado de seguranças até o carinha que escreve, desenha, publica, maneja redes sociais, além de montar e cuidar do próprio estande. No mesmo (gigantesco) espaço.

Os quadrinhos não saíram da feira. Mais importante: não perderam espaço. Ganharam, misturados a vários outros pontos de atração. É óbvio que não vai se formar filas de 15 mil pessoas (como houve para Guerra dos Tronos, Walking Dead e outras coisas do Hall H) para uma programação só de HQ, nem prédios envelopados com arte de HQ. Hollywood tem outra escala, outro modelo econômico, outras necessidades de marketing.

Só é impossível reclamar que as HQs não estão lá. Assim como está todo o espectro entre fanzine e filmes de bilhão e meio na bilheteria. É realmente uma feira onde todos podem viver juntos.

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“Angoulême é que é o evento mais legal de quadrinhos.”

Ok, essa eu não sei dizer. Quem sabe ano que vem?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – TwitterOutros Quadrinhos

3 Comentários

  1. Shannon Matos disse:

    André Conti? Então você foi de Harvey Pekar…

  2. Érico disse:

    Fui de André Conti.

  3. Diana disse:

    E quando você vai contar pra gente qual foi seu cosplay, hein? ;)

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