Um gato por dia

Por Juliana Frank


(Crédito: Iza Figueiredo)

Escritores são pneumáticos. Escrevem com as orelhas. Todos engolem um gato por dia. Conheci um que apagava cigarros na perna e dava nomes às marcas. Alguns são tão verdes que quase brilham no escuro. Por isso, pedia aos malditos deuses que me livrassem da frivolidade de ser escritora. Queria apenas ter muitos livros na estante. Também, não queria chegar ao frívolo pensamento: tudo bem, se surgir qualquer trapaça do destino, tenho os livros. Possuem um peso na estante muito importante para os escritores, que nem sempre precisam ler. Eles engolem um gato por dia, olham as capas, unham as caspas e adivinham o enredo. Mas são artistas, então devem ficar lá. Pensei: tenho uma lamentável condição mental. Meus argumentos são trôpegos. Mas tenho livros. Só de olhar a estante, temia sofrer de dependência intelectual em alto grau. Me via morta batendo os punhos na janela de um asilo, com a camisa branca e de mangas longas e atáveis às costas gritando no ouvido de desprevenidos: sou escritora, ouviu? tenho livros! Por isso, resolvi ser apenas uma garota bêbada casual. E psiquiatra. Era só ir ao bar e ouvir o que a galera tinha para falar.

No bar, escritores estão sempre reclamando de novo. Depois dizem que a vida pode ser linda. Que podemos alçar voo e dar sorrisos redobrados de paixão numa janela pro azul. Tem dias que pra eles tudo é belo, incluindo o que é medonho. E tudo que está mal, na verdade está é bem. Via muito essa doença, felizmente não é contagiosa. Por que essa mania?

Eu sofria o cão por um homem. Saudade roía e como roía a maldita. “Detonada, devastada, sem estrada pra fugir”, cantou a cara Angela Ro Rouca. Um homem nu com tesão às vezes não resolvia minhas teses. Por isso, resolvi me corrigir: escrevi Quenga de plástico. Um livro sobre o que eu não sentia. Sobre o sexo que eu já havia feito e nunca mais faria. Eu estava condenada a contar histórias que eu nunca mais, enfim, gozaria. Minha boceta não falaria tanto. Até hoje digo: Shhh, Quenga de Plástico, assertiva. Shhh, mundo. E o mundo inteiro grita: Vamos trepar!

Depois de publicado, fui expulsa da família e de todo o gênero humano. O que jamais considerei uma falha. Agora eu não era mais escritora e poderia medicar os ventríloucos, poetas da morte, os do asfalto.

Um dia, no bar, um escritor desses que dá o cu por uma frase, disse: hoje não, Ju, hoje não vou te comer. Mas eu não havia pedido. Só estava amarrando meu rabo de cavalo ao lado dele e mexendo as ancas sem querer. E isso bastou para que ele, um famoso escritor, soltasse essa anedota aqui: Hoje não, desculpe, mas não. E aquele ar de poeta-estivador capaz de enganar multidões a respeito de sua rigidez. Eu pensei que fiz uma cara de ‘tudo bem, não queria dar mesmo’. Mas, acabei fazendo a cara errada, a expressão de quem queria dar, porque não havia pensado no assunto.

Achei melhor mudar o seletor. Conversar com os diletantes, vai que alguém topa um assunto sem foda dialética, pensei. Mas pensei errado mais uma vez, porque estavam compenetrados, confundindo suas ambições com suas qualidades. Um deles disse assim: Ju, quer ver o meu pau ou o meu poema?

É. Eu escrevi Quenga de plástico. Também fiquei solteira por causa do livro. Então escrevia secretamente sobre nuggets — pequenos pensamentos oleosos e rançosos acerca do meu afeto rastejante. E depois de fritar uma porção deles, secar com papel toalha e alimentar a alma obesa, pensei: pra que papel toalha?

Mas tinha a Fáu. Parceira em destruir bússolas e errar a hora. Mas hábil como uma ave de rapina quando o ponteiro dizia que cedo ou tarde era hora de contar mentiras a desconhecidos. Uma noite, batemos no bar em um cabeludo com uma camiseta da AK-47. Ele queria sentir a quentura da minha vagina. Noutra, fomos expulsas por grades de ferro verdes. Mas permanecíamos imutáveis ali. Como o velho tio, o frequente frequentador do bar do bairro, o mamífero. Alguns achavam que morávamos ali perto. Outros, os mais espertos, percebiam que já acordávamos por lá. Eu fui civilizada ali, bebendo com inimigos e pedindo dinheiro a estranhos e discutindo com os bêbados ruidosos. E Fáu gostava de sentar do lado de fora do bar, ficar vendo as pessoas passarem, esperava que talvez elas pudessem se dirigir a mim e a ela, irritar bastante. Tem noites em que nada pode ser mais fértil do que encontrar um imbecil. Ela esperava um pouco aflita, roendo o canto das unhas até sangrar. Eu dizia: calma, serumana, em breve aparece alguém aqui, pede um cigarro, esquece de fumar e despeja uma torrente das nossas asnices preferidas. Sempre deu certo. Nos agradava muito dizer o que fazíamos e de onde viemos, sempre mirando o fundo do copo. Combate. Nocaute de bêbado contra bêbado. Louco contra louca. Sempre saíamos ilesas.

Foi então que eu tive uma epifania. Dessas que acometem todos os escritores: dos grandes comedores de merda, até os comedores de merda ainda maiores; dos diletantes até os que ocupam a minha categoria — os diletantãs. Pulei e quase quebrei o piso do bar: vou escrever um livro sobre a Fáu! Vou dizer que ela fica aqui sentada esperando que alguém possa chegar com toda a força para me comer e também para comê-la e isso nunca acontece. Não vou poupar ninguém. Vou relatar nossas conversas duras com caras de pau mole e mostrar que é possível destruir a vivacidade de um bêbado em menos de três rodadas de cerveja. E então nós vamos rir e cantar, guardar todas as nossas armas para o próximo pulha, para a linha de frente e para o próximo livro. Depois de publicar o próximo, serei uma grande psicoetileóloga, e psicóloga e zen budista e reichiana e tomarei um Frontal para transar de lado.

Tudo isso acontecia porque a Fáu tem um coração de pedra-pomes. E ela gostava de dizer isso, ela ainda precisa dizer isso. Ela não quer saber da histeria de Freud. É de pedra-pomes. Flutua. Ela não quer ouvir falar de Freud. Nem eu. E isso não tem nada a ver com o amor. Tem a ver com essas pessoas que não acreditam que simplesmente estamos a fim de rir um pouquinho da miséria legítima. Nós nos amamos do pior jeito. Bebemos bílis e veneno e cuspimos na boca da outra. Sempre fomos amigas de: desce uma cachaça. Nunca teve: amiga, vamos tirar um raio X. Estávamos abertas. Se alguém passasse e quisesse tomar uma conosco, apertar nossa bunda ou simplesmente atrapalhar o fluxo da nossa memória, levava canivetada no joelho.

Preciso escrever um livro sobre Fáu. Sentei. Assoprei os dedos e escrevi. E como uma mulher às vezes tem que fazer o que uma mulher tem que fazer, escrevi. O John Fante me ensinou que um homem tem que começar por algum lugar. Escrevi: Meu coração de pedra-pomes. E lá se foram dez, quinze, vinte páginas. Eu estava exultante porque estava escrevendo um livro sobre ela. Uma das dezessete melhores pessoas do mundo. Eu parava para beber café e fumar um cigarro porque isso estava acontecendo.

Até que resolvi me ler. Escrevi um livro sobre uma personagem que se chama Lawanda. Trabalha em um hospital. Coleciona besouros. É louca de pedra-pomes. Esqueci de escrever o livro dos escritores estivadores e bêbados de pau mole e sobre as pessoas que queriam a nossa saliva.

Por isso, gostaria de deixar aqui uma pergunta: Fáu, você coleciona besouros?

* * * * *

Juliana Frank nasceu em São Paulo, em 1985. É roteirista e escritora e vive atualmente no Rio de Janeiro. Escreveu os livros Quenga de plástico (2011) e Cabeça de pimpinela (2013), ambos pela editora 7Letras, e participou da coletânea 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras, da Geração Editorial. Seus textos também foram publicados no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, e nas revistas CultLado7.
Blog: http://joufrank.blogspot.com.br/

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MEU CORAÇÃO DE PEDRA-POMES
Sinopse: Lawanda é uma faxineira diligente no hospital em que trabalha. Esfrega tudo com afinco, mas gosta de “esconder alguma sujidade, dessas microscópicas, em cantos imperscrutáveis”. Tem um probleminha com os horários — gosta de chegar pontualmente atrasada, sempre — e com o salário miserável. Precisa, portanto, complementar sua renda oferecendo serviços especiais aos pacientes. Mas ela gosta mesmo é de colecionar besouros. E das borboletas. E de José Júnior, claro, o amante que resiste às suas macumbas e nunca larga a mulher.

Evento de lançamento:

São Paulo: Quinta-feira, 8 de agosto, às 19h30 – Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Avenida Paulista, 2076 – Conjunto Nacional

7 Comentários

  1. POha o cara diz que nao entendeu nada…O.o
    pra mim tá velado aí nesse texto o amor que ela sente em ser mulher e por outra mulher diante desse mundo asqueroso e feio… Mulher é tudo de bom…rssrs :P :*

    Abraço, gostei do texto! :D

    Ps.: Se eu tiver dinheiro eu compro o livro quando sair por aqui Recife! ;)

  2. Leonardo disse:

    O título chama a atenção imediata, por aparentar ser um tipo de crítica depreciativa ao esforço diário de algum profissional. Adiante, temos a confirmação, a gozação é com a própria profissão. Porém logo esse arco é abortado.

    Fica a impressão que, ao destilar frases com impacto e debruar argumentos trôpegos, o leitor perde o foco, e com isso o texto.

  3. Ana Clara Barsotti disse:

    Uau! Texto ousado, divertido, iconoclasta. Tomara que Meu coração de pedra-pomes seja tão cheio de imagens mirabolantes e desse charme pós-apocalíptico do texto. E que a Juliana Frank, além de Juliana Frank, seja um pouco a versão feminina do divertidíssimo e sexualmente obcecado Reinaldo Moraes, com seu Pornopopéia.

  4. Daniel Abreu disse:

    Postura firme mesmo, para uma mulher, ainda em tempos de um certo machismo (inclusive meu). Coragem, e talento.

  5. Ramon de Córdova disse:

    Já eu, gostei de tudo o que li. Gostei inclusive da imagem do post e, naturalmente, da imagem na capa – um close da banda direita desse coração de pedra(pomes).
    Não posso, ao contrário do colega anterior, dizer que entendi tudo o que li. Por exemplo: o texto deu-me a impressão de que Juliana Frank se confunde com uma espécie de personagem de Juliana Frank. Será verdade? Viajei de leve na maionese light? Irrelevante, parece-me.
    O que interessa é que o texto me entrou direto na veia. Eu o li com sede! Entrei com fé no ritmo acelerado da escrita e não me arrependi. Na verdade, diverti-me bastante inclusive com as derrapadas e com as capotagens que o humor, a vivacidade, a ousadia e a desobrigação de se fazer óbvia da autora me fizeram sofrer.
    Não entender nada?! Não. O texto definitivamente não é de uma plutoniana.
    Entender tudo? Não. A ideia é não ser, nem pretender vir ser um pretencioso.
    Ler é sair de si (só pra variar um pouco), visitar outras individualidades e, quem sabe até, surpreender-se identificado com o além-pele. E o texto cumpriu deliciosamente tal função.

  6. Hugo disse:

    Não entendi piciroca, piroca, pirombeta de pirombas nenhuma.

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