Chaucer e as metáforas da bebedeira

Por José Francisco Botelho

Drinking

A bebedeira é um dos temas nobres das letras universais. O vexante pileque de Noé em frente aos seus filhos, no Gênesis, inaugura a vasta antologia da ressaca literária. Foi graças a um odre de vinho especialmente forte que Odisseu conseguiu enganar Polifemo, o Ciclope — sempre achei comovente a cena em que o monstro, bêbado e subitamente amigável, tem a cortesia de postergar o esquartejamento de seu hóspede-prisioneiro: “Vou devorar você por último”. No mundo islâmico, existe uma rica tradição de poemas em louvor da intoxicação etílica — vista como uma metáfora do êxtase místico. O sufi persa Rumi, do século XIII, compara o coração de Deus a um recipiente cheio de algum licor delicioso e devastador: “No cântaro do Teu amor, o meu espírito flutua — e arruinada é a pobre Casa de meu corpo”.

Poderíamos falar sobre Falstaff, sobre Hemingway, sobre Malcolm Lowry — mas vamos nos ater ao Chaucer. A bebedeira é um dos temas favoritos e recorrentes nos Contos da Cantuária. Alguns peregrinos de Chaucer falam (e agem e bebem) como autênticos especialistas no assunto. Os efeitos do álcool sobre a fisiologia e o temperamento humano são descritos com verve e detalhismo. Há reflexões sobre a intensidade relativa dos vinhos franceses e espanhóis; onomatopeias naturalistas do ronco dos bêbados; tocantes elegias às bebedeiras da juventude; descrições minuciosas da expressão facial, entonação da voz e coloração da pele em indivíduos alcoolizados. (Vale lembrar que Chaucer nasceu em uma família de comerciantes de vinho e, portanto, tinha um conhecimento mais ou menos profissional sobre o assunto).

As metáforas da bebedeira também são responsáveis por um dos dilemas mais interessantes que encontrei na tradução dos Contos. O enigma surgiu no “Prólogo do Provedor”. Certa manhã, o Cozinheiro aparece tão bêbado que mal consegue se manter no lombo do cavalo. O Provedor, em tom de zombaria, comenta:

“Therto me thynketh ye been wel yshape.
I trowe that ye drunken han wyn ape,
And that is, whan men pleyen with a straw”.
And with this speche the Cook wax wroth and wraw.

Uma tradução circunspecta, palavra por palavra, daria algo como:  “Acho que você está em forma para esse tipo de exercício. Tenho a impressão de que andou bebendo o vinho do macaco, quando os homens brincam com uma palha.” Ouvindo isso, o Cozinheiro ficou furioso.

O que é o tal vinho do macaco? E o que significa “brincar com uma palha”? A misteriosa passagem só começou a fazer sentido quando mergulhei a cabeça nas rigorosas categorias da embriaguez medieval. A tradição judaica da época tinha uma deliciosa teoria zoológica quanto aos efeitos do álcool. Noé, ao plantar o primeiro vinhedo da história, regou o solo com o sangue de quatro animais, abatidos nesta ordem: uma ovelha, um leão, um macaco e um porco. Por isso — continua a tese, com humor rabínico — os quatro estágios da bebedeira humana equivalem até hoje ao temperamento daquelas quatro vítimas. O primeiro patamar da embriaguez é o “estágio da ovelha”, quando nos tornamos afáveis ou ingênuos em demasia (a bebedeira gentil de Polifemo na Odisseia é um excelente exemplo). Em seguida, o vinho transforma o ser humano em um leão — é o momento da fanfarronice, das mentiras mirabolantes, das confidências agressivas e das eventuais brigas de boteco. O terceiro estágio é o do macaco – mais desastroso que a alegria ovina inicial, ele nos leva à pantomima e a pronunciamentos saltitantes e sem fundamento. Por fim, o rabino nos ensina que o vinho acaba transformando o ser humano em um suíno — e sobre esse ponto em particular não é preciso explicar mais nada.

O “vinho do macaco”, portanto, simboliza o penúltimo estágio da bebedeira, quando o bêbado está prestes a chafurdar na lama — seja a lama real ou a metafórica. (Aqui, sempre me recordo dos macacos de Rudyard Kipling — notoriamente, os animais mais irritantes do Livro da Selva). Mas faltava ainda explicar a outra observação: quando os homens brincam com uma palha. A opinião tradicional é a seguinte: quando chega ao estágio do macaco, o bêbado fica como uma criança, brincando com palhas, ou gravetos, ou outras coisas sem importância. Sempre achei essa interpretação pouco convincente: brincar com uma palha não parece coisa de quem já passou pelo estágio do leão, e está prestes a cair no abismo do porco. Encontrei a solução em uma nota de rodapé de Nevil Coghill, autor da mais respeitada tradução de Chaucer para o inglês moderno. Coghill relata que alguns trabalhadores dos portos de Londres tinham o mau hábito de entrar nos depósitos de vinho, à noite, fazer buracos nos barris com a ajuda de uma verruma, e chupar o conteúdo por meio de um canudo. A gíria para essa prática antiga e engenhosa era to suck the monkey — “chupar o macaco”.

Não pretendo experimentar isso na prática, mas suponho que chupar vinho por um canudo, direto do barril, seja uma forma mais extrema de alcançar o êxtase sufi do que por meio de um copo ou taça. Portanto, aquela passagem no “Prólogo do Provedor” ficou assim:

“Te juro, estás prontinho e preparado,
Pois já chupaste o vinho do macaco
Por um canudo; a pipa está vazia!”
E o Cozinheiro, ouvindo, refervia.

Levei exatamente duas semanas e três dias para decidir que um canudo, nesse caso, valia bem mais do que uma palha.

[A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano. Leia o post anterior, “Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução”.]

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.