Como organizar uma biblioteca pública

Por Vanessa Barbara


Perigo: é proibido ingerir comida ou bebida nas proximidades deste computador, sob pena de incitar a fúria do diretor da biblioteca.

O texto a seguir é a tradução de um artigo de Umberto Eco publicado no livro How to Travel with a Salmon & Other Essays. Foi escrito em 1981 e sugerido por uma leitora deste blog.

Lembramos aos presentes que se trata de um artigo bem-humorado e crítico sobre os vícios na administração das bibliotecas públicas escrito por um usuário frequente destas, não um libelo antibiblioteca ou uma tentativa de exterminar todos os profissionais da área e trocá-los por vendedores de livrarias, favorecendo assim a sanha capitalista em detrimento do processo de equalização social das bibliotecas públicas e renegando os valores elementares de acesso à leitura e melhoramento da humanidade, a fim de perpetrar a estratificação social e impedir a ilustração de todos os setores da sociedade etc. etc.

(Por favor, não me excomunguem do cadastro unificado do Sistema Municipal de Bibliotecas.)

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Como organizar uma biblioteca pública
por Umberto Eco (tradução de Vanessa Barbara)

1. Os diversos catálogos devem ser alocados com o máximo possível de separação entre si. É preciso apartar adequadamente o catálogo de livros do catálogo de periódicos, e ambos do catálogo por assunto; da mesma forma, as aquisições recentes devem ser mantidas bem distantes do acervo antigo. Se possível, a grafia adotada nos dois catálogos (aquisições e acervo) deve ser diferente. No caso das aquisições, por exemplo, assovio deve ser grafado com v, e no acervo deve constar assobio com b. Um Chaikovskii da área de lançamentos irá seguir a classificação da Biblioteca do Congresso; no acervo o nome será grafado à moda antiga, com Tch.

2. A classificação por assunto deve ser determinada pelo bibliotecário. Na folha de rosto com os dados para catalogação não deve haver nenhuma indicação do assunto sob o qual o livro poderá ser listado.

3. Os códigos de catalogação devem ser incompreensíveis e, se possível, extremamente complexos, a fim de que não haja espaço na papeleta de solicitação de livros para incluir os últimos numerais, que portanto seriam descartados como irrelevantes. Então o atendente pode devolver o papel com uma advertência para o usuário preenchê-lo de forma adequada.

4. O tempo decorrido entre o pedido e a entrega do livro deve ser o mais longo possível.

5. Deve-se liberar apenas um volume por vez.

6. Assim que o pedido de consulta for corretamente preenchido, os livros cedidos pelo atendente não podem ser transportados à seção de obras de referência, forçando assim os pesquisadores a cindirem sua vida profissional em dois aspectos fundamentais: de um lado, ler, e do outro, consultar referências. A biblioteca deve desencorajar, mencionando os perigos do estrabismo, quaisquer tendências multidisciplinares ou tentativas de leitura de vários livros ao mesmo tempo.

7. Na medida do possível, não deve haver máquinas de xerox disponíveis; se tal máquina existir, o acesso a ela precisa ser necessariamente demorado e cansativo, as taxas devem ser bem mais altas do que as praticadas nas copiadoras da região e o número máximo de páginas reproduzidas não pode exceder dois ou três.

8. O bibliotecário deve tratar o leitor como um inimigo, um perfeito desocupado (caso contrário estaria trabalhando) e um ladrão em potencial.

9. A sala do bibliotecário-chefe deve ser inexpugnável.

10. Empréstimos devem ser desencorajados.

11. Empréstimos entre bibliotecas devem ser inexequíveis ou, no mínimo, demandar vários meses para se concretizarem. Em todo caso, o ideal é garantir a impossibilidade de consultar o acervo das outras bibliotecas.

12. Devido a essa política, o roubo se torna bastante fácil.

13. O horário de funcionamento deve coincidir precisamente com o horário comercial, determinado em reuniões prévias com os sindicalistas locais e a Câmara do Comércio; o não funcionamento aos sábados e domingos, à noite e no horário de almoço é uma prerrogativa óbvia. O maior inimigo da biblioteca é o estudante que trabalha; seu melhor amigo é Thomas Jefferson, que possuía uma enorme biblioteca privada e portanto não precisava frequentar bibliotecas públicas (às quais ainda assim legou seus livros como herança).

14. Deve ser proibido consumir qualquer tipo de lanche no interior da biblioteca; tampouco permitido sair desta para alimentar-se em outro lugar sem antes devolver todos os livros em utilização, obrigando assim o estudante a preencher novas solicitações depois de tomar um mísero café.

15. Deve ser impossível encontrar, no dia seguinte, o livro consultado na tarde anterior.

16. Deve ser impossível descobrir quem está na posse de um volume atualmente em empréstimo.

17. Se possível, não manter nenhum banheiro público disponível.

18. Idealmente o leitor deve ser impedido de entrar na biblioteca. Se por acaso conseguir fazê-lo, usufruindo com tediosa insistência de um direito garantido nos princípios de 1789, porém jamais assimilado pela sensibilidade coletiva, ele nunca, mas nunca mesmo — com exceção a rápidas visitas às seções de referência — deve ter acesso ao templo sagrado das estantes.

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Meus acréscimos:

19. Quarenta minutos antes do fechamento da biblioteca, é necessário fazer soar um alarme estridente e dúbio, a fim de inquietar os usuários e incutir-lhes a dúvida de incêndio.

20. Meia hora antes do fechamento da biblioteca, deve-se acionar uma buzina e um aviso ao microfone anunciando que o estabelecimento está para encerrar suas atividades. Solicitações de empréstimo não serão mais aceitas, assim como devoluções — sobretudo as de última hora. Recomenda-se que a buzina esteja sempre com defeito e funcione por aproximadamente dez minutos ininterruptos, sem que ninguém faça caso disso.

21. É sempre mais importante terminar a leitura do catálogo de cosméticos antes de atender os usuários. O mesmo vale para sessões vigorosas de lixamento de unhas e telefonemas pessoais.

22. O real fechamento da biblioteca deverá ocorrer quinze minutos antes do fechamento oficial, acelerado por rondas insistentes de funcionários que começarão a varrer o chão e empilhar as cadeiras.

23. O processo de apagar as luzes e trancar as portas deve levar exatos quinze minutos, e não por desejo de cumprir o expediente: é que deve haver funcionários para balançar a cabeça em negativa quando um leitor fatalmente aparecer atrasado para devolver um livro.

24. Convém se queixar o tempo todo do aumento no índice de furtos e da lamentável depredação ao patrimônio emprestado, dando a entender que o povo não merece um serviço gratuito e de qualidade.

25. O estatuto administrativo deve se sobrepor a toda e qualquer noção de bom-senso no atendimento. Donde: é proibido trazer lanche para prevenir as manchas de molho de tomate na página e a proliferação de insetos alados no ambiente da biblioteca; é proibido espiar a lombada de um livro e empurrá-lo de volta porque assim se pode arruinar todo o sistema de catalogação e condenar determinada obra a um vórtice temporal; é proibido entrar com bolsas e mochilas para não incentivar meliantes; é proibido se emocionar com um romance porque as lágrimas podem apodrecer o papel; é proibido, enfim, o que quer que você esteja arquitetando ao olhar para essa estante de forma duvidosa e com as mãos para trás. Movimentos suspeitos serão punidos e a multa para atraso na devolução deverá ser maior do que a de tráfico de drogas. O roubo de livros será julgado por uma corte marcial e até crianças poderão ser condenadas à prisão.

26. Na dúvida, dificulte.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook

9 Comentários

  1. Vanessa Barbara disse:

    Ahhhh, esqueci mesmo de devolver a Pedra de Roseta – William, foi mal! Será que vocês não me dão um abono nessa multa?

  2. Angela Maria Arantes Figueiredo disse:

    Prezada Vanessa Bárbara

    Realmente, a maioria das bibliotecas públicas não recebem do poder público,a importância devida, apesar das recomendações de “O Manifesto da Unesco para as Bibliotecas Públicas”.
    Porém, na rede municipal de bibliotecas da cidade de São Paulo há, apesar das dificuldades, condições bem melhores das que foram apresentadas no velho texto de Umberto Eco.
    São 55 bibliotecas municipais, espalhadas por toda a cidade, sem contar com 12 ônibus biblioteca, pontos de leitura e bosques de leitura, nas regiões mais distantes da cidade.
    O acervo pode ser consultado on line, via internet: http://www.bibliotecas.sp.gov.br
    O usuário cadastrado em uma biblioteca pode retirar livros em uma das Unidades da Cidade.
    As bibliotecas são de livre acesso, isto é, o usuário vai à estante escolher o material desejado e se precisar solicita ajuda ao profissional da biblioteca.
    Há compras de material bibliográfico constantemente e o acervo é atualizado.
    Mensalmente,são editadas duas publicações: “Em Cartaz” e “Agenda Bibliotecas”, em que são divulgadas as programações realizadas durante o período, como palestras, cursos como “A hora e vez do vestibular”, oficinas, contação e mediação de histórias etc etc
    Tem-se trabalhado intensamente a Leitura de Textos Literários e, capacitado os funcionários para que se tornem mediadores de leitura. Trabalhar a Leitura é o foco entre outras demandas, da Biblioteca Pública. E, na cidade de São Paulo podemos dizer que as bibliotecas representam o maior equipamento democrático/aberto ao público.
    Apesar de estarmos longe de uma situação ideal, estamos infinitamente melhor do que foi apresentado no velho texto de H.E.
    Grande abraço
    Angela A. Figueiredo
    Tel: 30-641133

    Venha nos visitar:
    Biblioteca Alceu Amoroso Lima
    Rua Henrique Schaumann, 777
    Pinheiros – Tel: 30641133

  3. William Okubo disse:

    Bárbara,
    Esse texto é velho conhecido nosso….
    Mas notei uma falta. Quando o li no “Segundo diário mínimo” aonde foi publicado por aqui havia uma Nota Reservada, que é o ápice do texto em minha opinião.

    Transcrevo-o aqui:
    NOTA RESERVADA: Todo pessoal lotado na biblioteca pública deve ser portador de defeitos físicos, porque uma das coisas que se espera de um órgão público é que ofereça possibilidades de emprego aos cidadãos vítimas de deficiências (está presentemente em estudos a extensão deste requisito também ao Corpo de Bombeiros). O bibliotecário ideal deve ser, antes de mais nada, manco, a fim de estender o tempo que transcorre entre o recebimento da ficha preenchida, a descida ao subterrâneos e a volta com os livros pedidos. Para os servidores destinados a subir em escadas para atingir as prateleiras de altura superior a oito metros, recomenda-se que o braço que lhe falta seja substituído por uma prótese em gancho, por questões de segurança. Os funcionários totalmente desprovidos de membros superiores devem pegar os livros pedidos com os dentes (disposição que tem como finalidade impedir a entrega aos leitores de volumes maiores que o formato in-oitavo).

    O texto trata de uma crítica ao funcionamento típico do serviço público, setor que ainda tem muitos e muitos problemas que todos sabemos, mas que precisam ser atacados e não abandonados, pois se deixarmos como está, todos perdem.

    Ah… não deletei sua matrícula aqui no Sistema, mas coloquei uns 10 livros com atraso de 2.500 anos, o que gerará uma multa de R$20.000.000,00! Brincadeira!

    William

  4. nene disse:

    Caramba, artigo escrito em 1981. Mas, ainda me dah a sensacao de que eh o retrato das bibliotecas publicas do Brasil de 2013….o que voce acha?

  5. Roberto disse:

    Ampliação de horário eu acho bom. Poderia ser horário comercial de shopping center. Em São Paulo, o Prefeito havia proposto/pensado a respeito de ampliação dos horários de biblioteca (http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/18981). Mas o que me deixa maluco mesmo são os eventos bacanas sobre literatura que acontecem nas bibliotecas às 16h no meio da semana. Como faz pra ir? Dá para pegar um atestado literário para entregar no RH da firma?

  6. chico disse:

    na mosca!

  7. […] Vanessa Barbara em Blog da Cia. das Letras, Crônicas Tags: bibliotecas, umberto eco 0 ImprimirBlog da Companhia das Letras 12 de agosto de […]

  8. Coincidentemente, estive hoje na Biblioteca Pública da minha cidade, depois de muito tempo. Dei boa tarde e disse que fazia muitos anos que eu não vinha; perguntei onde se localizava a seção de Literatura Estrangeira. Fui levado até um canto distante, com apenas uma prateleira. Constatei que eu fora conduzido à seção de livros em língua estrangeira. Me expressei mal, parece. Algum tempo depois, voltei a incomodar os atendentes. Perguntei se havia um terminal para consulta ao acervo. Sim, foi a resposta. Mas, constatei, apenas os próprios atendentes tinham acesso ao terminal. Perguntei por livros do Mishima, o que foi o mesmo que recitar hai-kais em japonês, julgando pela cara dos atendentes. Soletrei. Mas não, não havia qualquer livro do Mishima. Pra coroar tudo, tinha uma criança mimada zunindo pelos corredores, diante de um pai indiferente. Confesso que esperava mais da Biblioteca Pública de uma cidade com quase 300 mil habitantes.

  9. C o o l tura disse:

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