Depois de Nick Hornby

Por Carol Bensimon

É comum que se pergunte aos escritores, ou ao menos aos considerados jovens, o que eles leram na infância e na adolescência. Acho que isso parte do pressuposto de que o que a gente lê numa tenra idade vai refletir em nossos gostos futuros, em nosso “fazer literatura”, muito mais do que as obras lidas já na vida adulta. Ou simplesmente as pessoas querem que você dê conselhos sobre “como começar”.

Eu costumo dizer que comecei com os livros policiais, e é verdade. Digo que as aventuras infantojuvenis da Coleção Vaga-Lume foram importantes para mim e para toda a minha geração, e é verdade. Eu já falei mais de uma vez que um livro do Marcos Rey, cuja trama se desenrola no Edifício Martinelli abandonado, foi muito marcante lá pelos meus treze anos. Mas, pessoalmente, o romance que transformou a literatura em outra coisa, na minha coisa, foi Alta fidelidade, do Nick Hornby.

Antes de Alta fidelidade, acho que dá pra dizer que a literatura era parte da minha vida porque me distraía, me ensinava, me mostrava outros universos. Naquela época, além de ler, de ir a boates estranhas, festas em casas modernistas da Zona Sul de Porto Alegre, e de tentar beber café na Casa de Cultura Mário Quintana, eu jogava RPG (alguém ainda faz isso? Espero de verdade que sim). O fato de eu jogar RPG me levava a um universo fantasioso extremo, o que de certa forma era divertido, mas preciso admitir que tanta honra, armaduras, tavernas e amores impossíveis não me pareciam o suficiente porque não estavam dizendo nada sobre mim e sobre o mundo que todos os dias eu via assim que levantava da cama.

Alta fidelidade foi o primeiro livro contemporâneo que eu li. Era uma obra (também) sobre fracasso, e isso parecia estabelecer um diálogo profundo com minha vida de adolescente. Além disso, aquela fusão da literatura com as canções que eu ouvia — e com as que eu logo passaria a ouvir — gerou uma espécie de clique decisivo para mim.

Depois de Alta fidelidade, eu me joguei em muitos livros da dita “literatura pop”, esses que de alguma forma tentavam surfar na onda do Nick Hornby. Alguns eram legais, outros nem tanto, mas pelo menos eu me sentia o universo representado. Quem já teve algum contato com a minha literatura deve ter percebido. No fim das contas, essa história de personagens movidos pela música, ações cujo clímax é desencadeado por causa de uma canção, ídolos mortos, dancinhas constrangedoras, trilha sonora de fundo — tudo isso se tornou uma parte considerável das minhas narrativas. Da mesma forma, aliás, que os lugares abandonados — cujo fascínio original, demarcado, está lá no já citado livro do Marcos Rey lido aos treze anos, aquele protagonista que via marcas na parede ou objetos deixados para trás e imaginava histórias — foi essa arqueologia da cidade que nunca me deixou, então eu coloquei uma casa abandonada no meu primeiro livro e coloquei uma cidade inteira em ruínas no meu próximo livro.

E também um pouco de Led Zeppelin, claro.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu próximo livro, Todos nós adorávamos caubóis, está previsto para outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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