O Bellini profundo e os outros eus.

Por Tony Bellotto

Foto: Fábio Assunção em cena do filme “Bellini e o demônio”.


Quando decidi escrever meu primeiro romance, Bellini e a Esfinge, lá pelos idos de 1993, já tinha o plano de escrever outras histórias com o mesmo personagem, inspirado principalmente pelos romances de Georges Simenon protagonizados pelo Inspetor Maigret. Também gostava muito dos livros com o detetive Nero Wolf, de Rex Stout. Aliás, a dupla Nero Wolf e seu assistente Archie Goodwin foram os modelos para a minha dupla Dora Lobo (o nome é uma homenagem a Nero Wolf) e seu assistente, Remo Bellini. Mas logo depois que Bellini e a Esfinge foi publicado, resolvi escrever outro livro, uma história não policial, sobre um russo exilado num dos Gulags do regime comunista. Não sei por que escrevi esse livro, que era péssimo, e, para minha sorte, a Editora recusou.

Por alguns dias achei que minha carreira literária tinha chegado ao fim. Mas decidi prosseguir, retomando o projeto da série com o Bellini. Foi então que me deparei pela primeira vez com a dificuldade de recriar num novo romance um personagem já existente. Quem disse que eu conseguiria? Como Simenon e Rex Stout conseguiram recriar a mesma atmosfera e o mesmo ritmo das histórias anteriores? E como conseguiram manter as mesmas características dos personagens sem que soassem falsos ou esquemáticos? Eis a questão. Foi um aprendizado.

Respirei fundo, reli alguns trechos de Bellini e a Esfinge e mandei bala. Tive de jogar alguma coisa fora e reescrever alguns trechos, mas consegui manter o personagem vivo no segundo romance da série, Bellini e o Demônio – aliás, o mais vendido dos Bellinis. Após seu lançamento exitoso, ganhei autoconfiança e decidi seguir os passos de Simenon, que alternava as histórias do Inspetor Maigret com outras fora do universo do personagem que o tornou famoso. Escrevi BR 163, e, dessa vez, a Editora não recusou. Foi uma vitória pessoal, que comemorei escrevendo outro Bellini, Bellini e os Espíritos. Nas primeiras tentativas de escrever o novo Bellini, novamente a angústia se abateu sobre mim: seria capaz de reencontrar o personagem? Ele voltaria pra mim?

De novo reli trechos de Bellini e a Esfinge, e agora necessitei também da releitura de partes de Bellini e o Demônio. Novamente deu certo. Planejei, em seguida, prosseguir com meu projeto Simenon, alternando Bellinis e não Bellinis. Escrevi Os Insones. E então algo estranho aconteceu, pois perdi a vontade de escrever Bellinis. Ainda que eu soubesse que o personagem voltaria algum dia, emendei outros dois romances na esteira de Os Insones: No Buraco e Macchu Pichu – não por acaso os meus romances menos “policiais”. Durante esse período, André Conti, que ainda não era meu editor, me propôs criar uma graphic novel do Bellini, em parceria com o Pedro Franz. Escrevi um conto intitulado Bellini e o Corvo, para servir de base para os desenhos do Pedro. Foi o que bastou para eu reencontrar meu personagem. Depois de escrever a sinopse da graphic novel (uma ótima ideia do André) -uma aventura do Bellini já idoso, num futuro indefinido em Florianópolis – comecei a escrever um novo Bellini com o prazer de quem reencontra um velho amigo. Reencontrei-o um pouco mudado, é verdade, mas, depois de rápidas releituras de trechos dos Bellinis anteriores, compreendi que suas transformações foram naturais, afinal ninguém permanece igual depois de sete anos.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

 

3 Comentários

  1. Danilo Silva Belchior disse:

    Tony, boa noite.

    Sou Danilo Belchior e gostaria de falar com você sobre um projeto para uma de suas músicas em parceria com o Arnaldo Antunes. Ele, inclusive, já aprovou a ideia e pediu para que eu lhe procurasse. Depois de algumas tentativas, seu blog foi o meio que consegui para entrar em contato com você diretamente.

    Gostaria que você me informasse um e-mail para contato, por favor, para que eu possa lhe explicar detalhes sobre o projeto.

    Muito obrigado,

    Danilo Belchior.

  2. Roberta Resende disse:

    Que boa notícia! Nós, leitores, ficamos no aguardo.

  3. De escritor para escritor: manda bala. Tenho meu próprio detetive e te garanto que é difícil, mas quando conseguimos fazer a sequência… é maravilhoso.
    Manda brasa, Tony. Aguardo ansioso pelo retorno.

    em tempo: ainda não consegui editora para os meus dois primeiros, mas vamquevamo hahahaa

Deixe seu comentário...





*