Por que quadrinhos? (4)

Por Érico Assis


(Ilustração de João Montanaro)

Perguntei a vários quadrinistas brasileiros por que eles e elas fazem quadrinhos. Já rendeu três colunas: esta, esta e esta. Fiz uma pausa na série, mas agora retomo.

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“Quando era pequeno e minha família abria uma caixa de bombons Garoto, todo mundo logo pegava aqueles bombons maiores, tipo Serenata de Amor. Já eu, adorava o bombom Crocante. Na minha casa, ele era o meu favorito e era só o meu favorito, de mais ninguém. Uns anos depois encontrei o ovo de páscoa do bombom Crocante. De repente, apareceu no supermercado um pacote de bombons Crocantes. Um pacote só dele. Nesse dia, vi que eu não era o único que gostava desse bombom, tinha mais gente no mundo. E eu achei até legal compartilhar esse meu bombom com o mundo. Pra mim, ler quadrinhos tem um pouco disso. Sempre li quadrinhos. Quando nenhum outro menino da minha sala de aula lia mais quadrinhos, eu continuei lendo. Ler quadrinhos era a minha coisa. Sempre foi. Fazer quadrinhos foi consequência. Todo mundo sempre tem histórias pra contar, e era natural que as minhas fossem em quadrinhos. Sempre faço histórias pra mim, a história que eu tenho pra contar, a história que eu quero ler. Quadrinho ainda é a minha coisa. Fazer o meu quadrinho, com a minha cara, é o meu bombom Crocante hoje em dia. E eu acho até legal compartilhar essas minhas histórias com o mundo.”

Vitor Cafaggi, junto à irmã Lu, publicou há pouco Turma da Mônica: Laços, uma versão diferente da HQ mais conhecida do Brasil. Foram e continuam sendo muito elogiados, com todo mérito. Vitor também publica HQs independentes, como Duo.Tone, e é autor das tiras Puny Parker e Valente.

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“Confesso que, atualmente, minha resposta seria hiper-personalista: não falaria a respeito da HQ em termos de sua atualidade hoje — mercado, mídia, utilidade em escolas etc. — mas como uma escolha artística bastante pessoal, perante os mestres que me impressionaram desde os primeiros gibis.

Este ano estive na Argentina e fiquei muito impressionado com os guiones de H.G. Oesterheld dos anos 50, de quem li El Eternauta. É um desses clássicos obrigatórios, fundamentais.

Por que gibis? É simples. Cada vez que descubro um mestre ou uma obra muito impressionante, eu acho que tenho obrigação de aprender com eles a melhorar minha arte.

Quero fazer quadrinhos porque conheci bons quadrinhos. É redundante, circular, mas é a verdade.”

Spacca tem trinta anos de cartunista e lança em breve Pelas barbas do imperador, nova colaboração com Lilia Moritz Schwarcz sobre o período imperial brasileiro retratado em quadrinhos — os dois já trabalharam juntos em D. João Carioca.

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“Tenho um amigo que diz que os cartunistas são gente que nunca acaba de crescer, e acho que tem mesmo uma boa dose de sonho de guri nisso de virar um autor de quadrinhos, ainda que dê menos grana e mais trabalho que outras áreas de atuação como ilustrador. É um fetiche de brincar de Jack Kirby ou de Hugo Pratt, e o prazer de contar uma história em imagens. E tem de se admitir que a coisa melhorou muito em termos profissionais. Eu, por exemplo, tenho apenas nos quadrinhos a possibilidade de ser reconhecido no meio editorial como autor e ganhar um dinheiro (bem razoável) com os direitos autorais dos meus quadrinhos”.

Rodrigo Rosa é um porto-alegrense que mora em Medellín. Adaptou para os quadrinhos várias obras da literatura (Dom Casmurro, Os Sertões, Memórias de um Sargento de Milícias, O Cortiço) e tem outras tantas HQs, cartuns, ilustrações publicadas.

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“Nos quadrinhos eu posso fazer um filme inteiro com papel e caneta, posso fazer uma pessoa rir de uma tira de jornal e deixar o dia dela melhor, posso criar um ícone que vai aparecer em todo protesto ao redor do mundo, posso ganhar um Pulitzer, posso fazer um político ficar enojado… Mas tudo isso acontece só uma vez ou outra.

Quadrinho ainda é uma arte muito ingrata, pelo menos aqui no ocidente. Quadrinista tem que ser muito apaixonado pelo que faz.

Acho que precisaria de uma segunda pergunta: ‘Por que ainda fazemos quadrinhos?’

Mas acho que todos vão falar ‘amor’.

E é isso mesmo: é lembrar da infância e os riscos em papel de pão, os desenhos do Homem-Aranha, a alegria de fazer uma coisa tão besta como dar seu gibi para um cara que você admira ou ser publicado pela primeira vez.

Quadrinista vê alegria em pequenas coisas usando boneco narigudo e onomatopéias. Tudo isso pra um estranho e pequeno número de gente. É muito amor.”

 

“Fiquei uma meia hora na frente do computador tentando pensar no porquê de eu fazer quadrinhos e não me veio nada claro.

Acho que faço quadrinhos pois quando eu era criança, fiquei fascinado por esse treco e decidi que era a forma mais divertida que eu poderia me expressar…

Eu podia fazer um filme inteiro ou apenas uma piadinha com papel e caneta.

Creio que, quando se cresce, a maior motivação para continuar fazendo isso é a memória afetiva. Não quero fazer apenas quadrinhos para sempre, mas não vou conseguir viver sem, numa hora ou outra, pensar num cartum ou uma tirinha.

É como assistir um desenho que você curtia quando tinha 7 anos, você sempre vai gostar e sempre vai querer assistir de novo.”

João Montanaro começou a rabiscar com seriedade aos 9 anos, a publicar HQs aos 12 e lançou o primeiro livro, Cócegas no Raciocínio, aos 14. Já está com 17 e colabora com a Folha de S. Paulo.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – TwitterOutros Quadrinhos

2 Comentários

  1. Clayton Barbosa disse:

    Essa série de colunas está demais!
    Tomara que venham outras.
    Parabéns érico pela iniciativa!!!

  2. rogério rezende disse:

    Quando li o texto do Vitor, pensei: pqp, eu também gosto do bombom Crocante. Era meu preferido. Moro há 12 kilômetros da fabrica da Garoto na Glória. O bairro se chama Glória (que glória). Quando passava em frenta a fábrica o cheiro de chocolate no ar (literalmente) me lembrava o chocolate crocante. Gostava tanto que tinha um ritual: colocava inteiro na boca, “roía” com os dentes a cobertura de chocolate até o recheio super crocante que mastigava com todo gosto.

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