Do catálogo: Viena fin-de-siècle (Carl E. Schorske)

Por Leandro Sarmatz


Café Griensteidl (1896), quadro de Reinhold Völkel.

Não — eu não andava sobre as águas nem lia O capital em alemão aos dezesseis anos. O fato é que foi por um desses acasos benfazejos nessa idade (outubro, Feira do Livro em Porto Alegre, livros com desconto) que levei todo pimpão para casa aquela edição de Viena fin-de-siècle, um livro que inicialmente atraiu minha atenção pela capa — um elegante desenho art noveau em fundo dourado — e pelas lâminas com reproduções de Klimt e Kokoschka. Eu não tinha ideia do que me esperava. Mas antes, um breve suspense e uma pequena reflexão sobre estes meus acanhados textos sobre livros aqui no blog.

(Depois de alguns posts, percebo que são mesmo as leituras de juventude aquelas que mais nos marcam. Claro que também há o risco da autocomplacência, esse fantasma forrado de glicose, porém são os textos que descobrimos, ou a eles fomos apresentados, quando ainda estamos formando um repertório que passam o resto da vida dentro de nós.)

Pois então, de volta ao livro de Schorske. É daquela Viena, encruzilhada em leste e oeste, entre razão e convulsão, de que se ocupa este erudito e fluente ensaísta. A cidade que viu nascer a Psicanálise, que forneceu o terreno para a música mais inovadora de sua época, que ofereceu as condições necessárias (vida judaica florescente e antissemitismo brutal) para que Herzl sonhasse com o sionismo. E os cafés, o erotismo, a série de cisões, dúvidas e conflitos que esculpiram a alma do homem moderno.

É nada menos que extraordinário o capítulo sobre Freud. Está tudo lá: o fascínio do jovem Sigmund pelo Império Austro-Húngaro, a formação e os primeiros anos loucos da Psicanálise. No espaço de algumas poucas dezenas de páginas Schorske mostra por a + b toda a carga altamente transgressora do legado de Freud, sem esquecer de cotejá-lo, claro, com o clima da época (zeitgeist, em bom português).

É a presença desse espírito da história, aliás, que faz de Viena fin-de-siècle um livro determinante para entender não só aquele tempo em particular, mas também aquela geografia — e aqui estou falando tanto daquela de que se ocupam os mapas quanto de um tipo muito especial, que tem a ver com os encontros propiciados dentro de umas poucas cidades ao longo do tempo. Assim como alguns desencontros.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.