Em tradução

Por Caetano Galindo
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Curiosidades. Trívia. Coisa assim.

Dia desses o cara postou uma história que achei que valia comentar aqui.

Nas palavras do caubói-cantor da sessão da tarde, ‘diz mais ou menos assim’:

* * * * *

Ucrânia. 2004.

As eleições para o cargo de primeiro-ministro transcorreram sob pesadas suspeitas. O candidato à reeleição, segundo a boa e velha escola ranço-pós-comunista, aparentemente estava, digamos assim, dando um jeito para garantir um resultado favorável.

E resultado favorável foi o que veio mesmo. Claro.

Repórteres de todo o país, especialmente das duas redes de televisão que aparentemente dividiam a audiência, se viram diante da ingrata tarefa de anunciar um resultado oficial que todos sabiam (ou no mínimo suspeitavam) ser em algum grau ilegítimo.

Muitas foram as vozes que estrilaram, mas sempre com o devido cuidado e o devido respeito que se deve às suspeitas e aos suspeitos.

Mas uma não-voz falou mais alto que todo mundo. Uma tradutora. Uma intérprete, na verdade.

Nataliya Dmytruk era a reponsável por traduzir as notícias de uma das redes de televisão para a linguagem de sinais ucraniana*, e enquanto o âncora dava as notícias ela, calmamente, dizia a seu público que tinha vergonha de ser obrigada a traduzir mentiras, e que não ia compactuar com aquilo. E, só para garantir, já meio que se despedia por ali, sem saber se voltaria.

O desenlace da história é interessante. Quando a notícia da sua subversão vazou, vários colegas a apoiaram, outros se apoiaram no factoide para ganhar coragem e abrir a boca, uma série de manifestações de rua se seguiu, e acabou que houve nova eleição e derrota do candidato à reeleição.

Mas aqui, o que nos interessa é a posição do tradutor.

Porque sempre se cobra a tal da fidelidade.

Porque muito já se disse (aqui inclusive) que uma versão bobamente literal dessa ideia pode acarretar numa anulação de personalidade, estilo, de voz, que se coaduna muito pouco inclusive com noções de responsabilidade literária, por exemplo.

* * * * *

O tradutor tem que ser fiel a quem?

Ao autor? Aos editores? A si próprio? Aos leitores?

E quando essas múltiplas responsabilidades se chocam?

Devo traduzir uma mentira?

(Já falei aqui de corrigir autores, né? Mesmo na ficção.)

Devo traduzir um texto que manifeste preconceito racial? De gênero? Eu sou só um transmissor de mensagens e tenho direito de gritar não matem o mensageiro!?

E um texto literário ruim?

Na minha vida pregressa, a.C.dasL., tive que encarar uns textos bem feinhos, sabe?

Se eu te disser que dei uma melhoradinha neles, você me perdoa?

Se eu te disser que pensei nisso quando ouvi a história da Dmytruk, você me acha muito leviano?

*Não. As línguas de sinais não são todas iguais. Os ucranianos usam uma versão da Língua Russa de Sinais. Aliás, até o estatuto da fronteira linguística Rússia-Ucrânia é coisa das mais interessantes… Mas outra hora, ok?

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

6 Comentários

  1. Acho que não devemos ter o projeto de melhorar o original. Por outro lado, acho inevitável que isso aconteça aqui e ali quando o texto não é primoroso.

  2. Suzana disse:

    essa é a melhor coluna desse blog! pertinente sem ser chato.

  3. Rodrigo disse:

    Galindo, provavelmente tu já conhece, mas tem uma cena hilária e bem interessante no “Coração tão branco”, quando os protagonistas se conhecem, trabalhando como intérpretes em uma conversa a portas fechadas entre uma estadista britânica (Thatcher) e um estadista espanhol (Felipe González, dizem), em que um deles (Juan) passa a alterar as frases da conversa, e a outra (Luisa) decide não intervir.

  4. Rafael disse:

    Entendo o tradutor ter de fazer certas correções quando necessário, como você havia mencionado no outro artigo. Mas daí pra cortar preconceitos raciais ou de gênero no texto já é um pouco estranho, não? Acho no mínimo questionável. Fazendo essas omissões a tradução se torna moralista, e não creio que seja da alçada do tradutor fazer esse tipo de julgamento.

  5. Tiago disse:

    Não acho que o tradutor deva mudar o tom do texto original em nenhum sentido… Para ‘explicar’ ou ‘corrigir’ existem ferramentas coma as boas e velhas notas de rodapé.

    Até porque, todo leitor compra um livro pelo autor original… Não pelo tradutor (sem querer desmerecer o trabalho realizado, obviamente).

  6. Marco Severo disse:

    Tema espinhoso, Galindo. Mais uma ótima coluna!

    Já está se preparando para o novo do Thomas Pynchon? ha ha!

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