Estamos vivos: Bruce Springsteen aos 62 anos

Bruce Springsteen live at Ippodromo capannelle Roma

Já está disponível em todas as lojas o novo e-book da Breve Companhia: um perfil de Bruce Springsteen escrito por David Remnick, diretor de redação da New Yorker.

Springsteen nasceu nos Estados Unidos há mais de 60 anos, mas segue o emblema da juventude e da rebeldia do rock norte-americano. Ele cristaliza como poucos os anseios de toda uma geração, assim como um estilo de vida que segue a cativar adeptos ao redor do mundo.

Neste livro curto e singular, conhecemos não apenas a história de uma lenda viva, mas vamos ao âmago da cultura norte-americana. O autor nos apresenta ao dia a dia de Springsteen — sua vida familiar, a rotina regrada, as megaturnês, a relação fraterna com os colegas de banda –, assim como desenha um retrato da “geração perdida”, incompreendida pelos pais conservadores e descobrindo no rock um caminho de escape e contestação.

Estamos vivos é um perfil na melhor tradição do jornalismo literário norte-americano: investiga cada detalhe da trajetória do compositor, traz precisão minuciosa de apuração e narração fluente e cristalina, como nas melhores histórias de ficção.

Leia abaixo um trecho:

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Estamos vivos: Bruce Springsteen aos 62 anos

Por David Remnick (Tradução de Pedro Sette-Câmara)
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Quase meio século atrás, quando Elvis Presley estava filmando Feriado no harém e Help! dominava as paradas, um rato de praia do litoral de Nova Jersey, intempestivo, atormentado pelo pai, mas misteriosamente carismático chamado Bruce Springsteen estava criando uma certa reputação na região como guitarrista de uma banda chamada Castiles. O nome vinha da marca de sabonete favorita do vocalista. Seus membros eram de Freehold, uma cidade industrial a meia hora de carro dos parques de diversões dos calçadões e do mar. Os Castiles tocavam em bailes de debutantes e de organizações de caridade, em drive-ins e em inaugurações de supermercados, num estacionamento de trailers em Farmingdale, no rinque de patinação Matawan-Keyport. Certa vez tocaram para os pacientes num hospital psiquiátrico em Marlboro. Um cavalheiro de terno apareceu no palco e, num discurso de apresentação que durou uns bons vinte minutos, declarou que os Castiles eram “melhores do que os Beatles”. Nesse momento, veio um médico e levou-o de volta para o quarto.

Numa tarde da primavera de 1966, os Castiles, sonhando com o sucesso, e de preferência rápido, foram para um estúdio no Brick Mall Shopping Center e gravaram duas canções originais, “Baby I” e “That’s What You Get”. Seu repertório, porém, era composto na maior parte de covers, que iam de “In the Mood”, de Glenn Miller, a “I Understand”, dos G-Clefs. Eles tocavam Sonny and Cher, Sam and Dave, Don & Juan, The Who, The Kinks, Rolling Stones e The Animals.

Muitos músicos em sua grisalha e tardia maturidade não se recordam muito bem de seus primeiros dias de palco. (Não são poucos os que têm lembranças confusas até mesmo da semana passada.) Mas Springsteen, que tem 62 anos e está entre os músicos de carreira mais longeva desde B. B. King e Om Kalthoum, parece se lembrar de cada noite extravagante desde o momento, em 1957, em que viu com sua mãe a apresentação de Elvis no Ed Sullivan Show — “Olhei para ela e disse: ‘Eu quero ser… assim” — até suas proezas mais recentes como astro milionário do rock que defende a ideia de poder popular e é recebido de braços abertos nos shows pelo público que o idolatra. Hoje em dia, ele é assunto de exposições historiográficas; no Hall da Fama do Rock and Roll, em Cleveland, e no National Constitution Center, na Filadélfia, houve uma exposição de letras manuscritas, carros antigos e roupas desbotadas de palco, tratados como se fossem pedaços do Santo Sudário. Mas, ao contrário dos Rolling Stones, digamos, que não compõem uma grande canção desde os tempos da discoteca e só se reúnem para engordar suas fortunas como banda cover de si própria, Springsteen se recusa a ser um curador mercenário de seu passado. Ele continua evoluindo como artista, enchendo um caderno atrás do outro com ideias, citações, perguntas, recortes e, acima de tudo, músicas novas. Seu álbum mais recente, Wrecking Ball, é o indiciamento melódico do momento da recessão, da disparidade de renda, dos trabalhadores emasculados e daquilo que ele chama de “a distância entre a realidade e o sonho americano”. Um trabalho que não lembra em nada suas primeiras operetas com úmidos interlúdios de verão e abandono pelas estradas de Nova Jersey. Em seu desejo de ampliar uma certa tradição contracultural de posições políticas progressistas, Springsteen cita canções rebeldes irlandesas, baladas da época do Dust Bowl, músicas da Guerra Civil e cantos de presidiários acorrentados.

No início de 2012, Springsteen estava comandando os ensaios para uma turnê mundial em Fort Monmouth, base militar que foi fechada ano passado — o local tinha sido um posto avançado de comunicações e de inteligência desde a Primeira Guerra Mundial, e chegou a empregar Julius Rosenberg e milhares de pombos correios militarizados. A propriedade, com seus quase cinco mil metros quadrados, é hoje uma cidade fantasma habitada apenas por bonecos de aço, que estão lá só para afugentar os onipresentes gansos do Canadá, que não resistem aos apelos de uma superfície verde bem no meio do estado de Nova Jersey. Dirigindo até o outro lado da base, cheguei ao teatro feioso que Springsteen e Jon Landau, seu empresário há muitos anos, tinham alugado para os ensaios, onde Springsteen tocara para os filhos dos oficiais do “clube teen” (podia haver dança, mas não bebida) do Fort Monmouth com os Castiles, 47 anos antes.

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Outros lançamentos da Breve Companhia:

Triste Bahia – Seleção de poemas de Gregório de Matos
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Daqui estou vendo o amor – Seleção de poemas amorosos de Carlos Drummond de Andrade
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O homem que odiava ilhas – Crônicas de Paulo Mendes Campos
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Próximo lançamento: Mobilidade Urbana, o que você precisa saber, de Eduardo Vasconcellos

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