O que o autor quis dizer

Por Vanessa Barbara

Não há dúvida de que o conceito de leitura obrigatória é um dos grandes males da sociedade contemporânea, perdendo apenas para a violência, o totalitarismo, a ganância e as sobremesas com café — pois que se propõem a se passar por chocolate quando estão longe disso. É desonesto.

Sobretudo na época escolar, quando nos obrigam a ler Senhora, de José de Alencar, ou Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou Eurico, o Presbítero (que eu chamava de Eurico, o Burrico), a compulsoriedade da leitura geralmente tem como efeito o ódio extremo a essas obras, sobretudo as mais clássicas, ainda que sejam boas ou contenham elementos interessantes para aquela faixa etária.

O problema é sempre a obrigação: se no ensino fundamental me mandassem ler O Gênio do Crime ou qualquer coisa do Pedro Bandeira, só o fato de consistir num dever já tiraria a graça da atividade. E geraria todo tipo de revolta não só ao título em questão, mas à leitura em geral.

Sempre gostei de ler e me esforçava para tirar alguma coisa de útil das tarefas que me impunham, mas ficava frustrada por arruinarem uma atividade que devia ser tranquila e saltitante. Por isso encarava os trabalhos de leitura como obrigações que se deviam cumprir sem demora, a fim de poder me dedicar às coisas que realmente importavam: ler livros da minha escolha quando eu quisesse, se eu quisesse e por nenhum motivo senão a curiosidade. Ou uma capa bonita. Ou uma fonte com serifas especialmente sedutoras. Ou porque alguém disse que tinha um personagem que morria de tanto beber água.

A consequente profissionalização e setorização das tarefas escolares para maior eficiência coletiva segundo os interesses de cada membro da turma foi uma decorrência natural dessa obtusa lógica didática, e ocorreu muito cedo, quando passamos a repartir entre os colegas os trabalhos em grupo com vistas a maximizar o aproveitamento do nosso tempo livre — que podia ser gasto na internet, no vôlei, na socialização generalizada ou na leitura de títulos proibidos pelo conselho docente.

Desde o ensino médio, fiquei responsável pelos trabalhos de pesquisa do grupo, enquanto uma amiga cuidava das tarefas matemáticas e outra redigia resumos burocráticos das matérias da semana. Havia ainda uma especialista em fazer relatórios das experiências em laboratório e outra que resolvia fórmulas de física.

Lembro também de quando um professor de filosofia nos mandou ler O mundo de Sofia e fazer um resumo dos capítulos. No máximo cinco pessoas da classe de fato leram o livro, três delas pulando as páginas e sublinhando aleatoriamente trechos que lhe pareciam relevantes. Uma delas pediu para a irmã executar a tarefa, em troca de favores domésticos. A grande maioria copiou resenhas da internet, trocando os verbos e a ordem das frases. Alguns se tornaram especialistas em simulação intelectual, embromação estilística e de fato aprenderam lições importantes de como sobreviver neste mundo. Só eu e a Alessandra lemos o livro inteiro, e devo confessar que fui eu que redigi sete dos trinta trabalhos individuais da minha classe, cobrando caro para tanto. Tirei dez em quase todos, inclusive no meu, que foi o mais caprichado. Minha popularidade aumentou de forma notável. A Alessandra também aceitou encomendas, acho, mas não se dedicou com tanto afinco à empreitada.

Gostei bastante do livro, mas não importa. O fato é que, como disse Pierre Bayard, autor de Como falar de livros que não lemos, “é justamente essa obrigação de ter que ler que nos impede de chegar aos livros. Sacralizamos tanto os livros, o fato de ler e ter que guardar todas as informações e detalhes dos textos, que acabamos morrendo de medo das palavras e, então […] não lemos. Prefiro evitar todo tipo de ‘dever’ ou ‘obrigação’ sobre esse assunto. A leitura é um ato de liberdade. Não há como impor regras a ela”.

Na obra, Bayard ensina algo que minha mãe aprendeu desde cedo: como burlar a obrigatoriedade da leitura sem perder muito tempo lendo livros que não nos interessam — o oposto do meu método nerd de realmente fazer tudo o que os outros mandam. A técnica tem grandes méritos próprios: exige criatividade, intuição e esforço de síntese. Meu irmão também era bom nisso e adivinhava com maestria o que o professor gostaria de ler na prova; quanto a mim, jamais consegui atingir verdadeira excelência no método, que realmente requer treino constante e habilidade acima da média.

Na Flip de 2008, Bayard inclusive sugeriu o uso de técnicas de leitura que as escolas não ensinam e que professores e críticos literários cansam de usar para poupar tempo com livros que merecem apenas ser folheados. “O crescimento da exigência da leitura tem feito mais vítimas que grandes leitores”, explica.

Muitos podem argumentar que ter disciplina é importante, que a vida é dura e devemos aprender desde cedo a fazer coisas de que não gostamos, já que, no futuro, teremos muitas vezes que nos submeter a elas. Mas parte da graça de ser adulto é ter escolhas, poder partir para um novo emprego ou uma profissão diferente — ou, no mínimo, trabalhar para que no futuro isso seja possível. Outra habilidade essencial para um adulto é saber identificar prioridades e dispensar as coisas que não são relevantes, sendo, portanto, seletivo.

Poder escolher suas leituras é essencial. Mesmo que os professores julguem saber quais livros são apropriados para os alunos, nunca devem limitar as opções. O fato de haver na minha escola uma “lista negra” com livros proibidos para a minha faixa etária (romances policiais sanguinolentos, livros com cenas picantes e coisas para as quais ainda “não estávamos prontos”) apenas aumentou minha vontade de lê-los, ao passo que a existência de uma lista obrigatória acabou relegando os títulos recomendados a uma categoria enfadonha e nada atrativa.

Bayard é defensor da descoberta pessoal de títulos, sem quaisquer restrições e imposição de critérios. “Nos Estados Unidos, ao contrário da França, as bibliotecas permitem que o usuário circule entre os livros, levando-o a títulos que não pretendia tomar emprestado. A curiosidade ainda é o melhor incentivo que um leitor pode ter”, afirmou.

O livro de Bayard, por exemplo, eu não li. Por nenhum motivo em especial. Contudo, depois de conferir algumas resenhas, acabo de ceder à vontade — contanto que não me peçam para resenhá-lo.

(Se me proibirem de lê-lo, aí é que o título sobe direto para o topo da lista de prioridades.)

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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22 Comentários

  1. […] Na coluna anterior, falei de Pierre Bayard e da importância de poder escolher suas leituras, protestando contra a obrigatoriedade imposta pelas escolas. […]

  2. […] Na coluna anterior, falei de Pierre Bayard e da importância de poder escolher suas leituras, protestando contra a obrigatoriedade imposta pelas escolas. […]

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