Se vivêssemos em um lugar normal

Por Juan Pablo Villalobos

Parroquia Nuestra Señora de la Asunción"Exteriores",Lagos de Moreno,Estado de Jalisco,México

Em 1938, André Breton, o ditador do movimento surrealista, visitou o México. Ele ficou fascinado pelo “passado mitológico” do país e pela “conciliação da vida e da morte”. Acabou resumindo suas impressões em uma frase categórica que iria se converter, com o passar do tempo, em um clichê que condicionaria o olhar estrangeiro (e o dele próprio) sobre a realidade mexicana: “o México é um país surrealista”. Hoje, a frase é usada para justificar as mais variadas situações: a atroz violência dos traficantes, a lacerante corrupção dos governantes, a terrível desigualdade social, a absurda ineptidão da burocracia. Mas a realidade do México não é surrealista: é atroz, lacerante, terrível, absurda.

Se vivêssemos em um lugar normal é, desde o título, uma paródia da identidade mexicana. O México não é um lugar normal? Existem os lugares normais? O Brasil é normal, aliás? O romance conta a história do adolescente Orestes – apelidado Oreo, igual às bolachas – e sua família nos anos 1980 em Lagos de Moreno, uma pequena cidade do estado de Jalisco, próxima de Guadalajara. É, por coincidência, a cidade onde cresci e morei até os 15 anos. Vocês foram pra lá alguma vez? Não, né? Imaginem uma cidadezinha do interior de seu estado, um lugar muito religioso onde gostam de rodeios e música caipira. Provavelmente alguém vai identificar sua cidade nas palavras do Orestes:

“Deixem-me explicar de uma vez quatro coisas sobre a minha cidade, para quem nunca esteve aqui: há mais vacas que pessoas, mais charros que cavalos, mais padres que vacas, e as pessoas gostam de acreditar na existência de fantasmas, milagres, naves espaciais, santos e similares.”

A família de Orestes é uma grande família (sete filhos) que mora em uma “caixa de sapatos” no alto do Morro da Puta Que Pariu – isso na bela tradução da Andreia Moroni, em espanhol é o Cerro de la Chingada. A maior preocupação de Orestes é determinar se eles são pobres ou da classe média, enquanto luta com seus irmãos pelas quesadillas que a melodramática mãe prepara cada noite. O pai é professor de educação cívica, um grande admirador dos gregos e um profissional dos insultos. Sua atividade favorita é assistir o jornal nacional na hora do jantar e gritar pra televisão frases como: “corja de bandidos! Seus corruptos de merda!” ou “seus desgraçados filhos da puta, será que vocês não estudaram matemática!? Como vocês podem ser tão estupidamente imbecis!? Será que vocês não conseguem ver que as pessoas estão morrendo de fome!? Em que merda de planeta vocês vivem?”. Acho que dá para entender.

A admiração do pai pela cultura helênica não conhece limites, nem os filhos conseguiram se salvar: eles se chamam Aristóteles, Orestes, Arquíloco, Calímaco, Electra, e Cástor e Pólux – os gêmeos de mentira. E é justamente com a desaparição dos “gêmeos de mentira” no primeiro capítulo do romance, em meio à turbulência política na cidade por uma fraude eleitoral, que começam as aventuras de Orestes (as quais incluem vizinhos poloneses, naves espaciais, inseminação artificial de vacas, melancias psicodélicas e o exército aqueu), sua viagem para fugir do tédio municipal. O outro elemento que movimenta o enredo é a ameaça de perder a casa – a chamada “caixa de sapatos” – por causa de um novo projeto imobiliário de luxo no Morro da Puta Que Pariu.

Escrevi Se vivêssemos em um lugar normal sete vezes ao longo de dois anos e meio. A cada vez o romance mudava, se convertia em outra coisa. A última versão, a definitiva, foi escrita no Brasil. É um romance meio brasileiro. Acho que a realidade mexicana também é meio brasileira. Ou a realidade brasileira meio mexicana. Aliás, o Brasil não tem sido vítima também de um olhar estereotipado, esse olhar que só quer ver o exótico?

O capítulo final, intitulado “Esta é a minha casa”, é uma explosão pirotécnica de non-sense. Orestes leva às últimas consequências a procura de seu lugar no mundo, a construção de sua casa.

Se vivêssemos em um lugar normal é como uma casa.

A ficção é uma casa.

É minha casa.

Sejam bem-vindos.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal. http://www.juanpablovillalobos.com/

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SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL
Sinopse: Na periferia de Lagos de Moreno, no México, a casa do adolescente Orestes e sua família é a única construção humana à vista. Minúscula e mal-acabada, a “caixa de sapato” atrai a atenção de um grupo de especuladores que pretende erguer ali um condomínio de luxo. O pai é um mestre do insulto e defensor de uma moral que parece não caber no mundo em que vive. A mãe recusa a sua condição social bradando aos quatro ventos que a família pertence à classe média, “como se os níveis socioeconômicos fossem uma questão de estado mental”. Tudo aconteceu nos anos 1980, o herói desta saga moderna reconstrói o passado escancarando a violência cotidiana e desmantelando as fronteiras entre o trágico e o cômico.

Eventos de lançamento:

Campos Gerais, PR: Sábado, 14 de setembro, às 19h – participação na Feira do Livro dos Campos Gerais – Praça Central – Sala da Orquestra Sinfônica – Centro de Música

São Paulo: Sexta-feira, 20 de setembro, às 13h – Bate-papo com Valter Hugo Mãe na Pauliceia Literária – Sede da Associação dos Advogados de São Paulo, AASP – Rua Álvares Penteado, 151 – Centro

Santos, SP: Sexta-feira, 27 de setembro – Bate-papo na Tarrafa Literária – Teatro Guarany – Praça dos Andradas, 10 – Centro