Você é minha tradução?

Por Érico Assis


Não era para eu ter sido tradutor de Você é minha mãe?. Existia um tradutor mais apropriado para o serviço, que traduzira a HQ anterior de Alison Bechdel — Fun Home — e que por acaso também é o chefinho da Quadrinhos na Cia.: mr. André Conti. Ele me ligou aí pelo meio do ano passado, comemorando que tinha conseguido os direitos da nova gréfic novel, que tinha adorado e que voltaria a traduzir Bechdel.

Nossa conversa sobre Bechdel era antiga. Lá nos primórdios dos papos sobre o que acabaria virando a Quadrinhos na Cia., sugeri que Fun Home tinha a cara dos “quadrinhos literários” que a Companhia das Letras gostava (Maus, Persépolis, Will Eisner), e que tinha sido a gréfic novel mais importante de 2006 nos EUA. Não estava dizendo nenhuma novidade: a Time já tinha chamado Fun Home de “livro do ano” (não “HQ do ano”, e sim “livro do ano”) e havia toda a babação merecida sobre a autobiografia que trata, nas palavras da autora, de “como meu pai gay enrustido se matou uns meses depois de eu revelar pra ele e pra minha mãe que sou lésbica.”

Uns meses depois, mr. Conti me mandou um e-mail: “infelizmente não vou editar, mas olha a coincidência: vou traduzir”. (Estou parafraseando.) Fun Home saiu no Brasil em 2007, pela editora Conrad, e também foi bem falada por aqui.

Li Are You My Mother? pouco depois do lançamento. Enquanto lia, desejava boa sorte a mr. Conti: ia dar uma dor de cabeça traduzir todas aquelas citações de Winnicott, para não falar nos trechos de Virginia Woolf. Aí mr. Conti me liga e diz: “estou muito ocupado com meus cigarros, meu PS3 e em conduzir a literatura brasileira contemporânea. Traduz você o My Mother.” (Estou parafraseando.) “Cuidado com as orações coordenadas. O prazo é para o ano passado.” (Estou parafraseando.)

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Lembro de uma aula sobre Winnicott no mestrado. Ou melhor: era sobre outro autor, que propunha que a televisão era um objeto transicional, o que demandava explicar a teoria winnicottiana. Me interesso por psicologia, mas entender psicologia exige uma lógica que me parece exclusiva dos psicólogos.

Resolvi que ia precisar de ajuda. Tenho uma prima psiquiatra. Enviei para ela Fun Home e Are You My Mother?. Seria a pessoa a quem eu poderia fazer perguntas não só sobre Winnicott, mas também sobre Freud e Alice Miller, também citados no livro, e mais tarde conferir se minhas traduções deles não fugiam demais da teoria.

Meu plano foi por água abaixo devido a um fim de ano cheio de complicações. Acabei recorrendo direto aos livros traduzidos de Winnicott e dos outros (eles estão citados no final de Você é minha mãe?veja a pilha). Só fui falar com a minha prima depois da tradução já estar entregue, para agradecer mas informar que não precisaria mais da ajuda.

E ela: “Érico, que notícia bem boa. Eu li os quadrinhos. Mas só até uma parte. Que mulher bem INSUPORTÁVEL essa Alison!” (Estou parafraseando.)

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Carol Bensimon já escreveu, neste mesmo blog, sobre o “problema (?) ético (?)” (interrogações dela) de Alison ao retratar a mãe, Helen. Enquanto Fun Home tratava da relação entre Alison e o pai falecido há mais de vinte anos, Você é minha mãe? traz interações entre Alison e mãe — que estava bem vivinha —, as quais Alison armou já pensando em transformar em autobiografia. O que rende várias elocubrações sobre a ética memorialista, como a Bensimon já apontou.

Em perfil na New Yorker, a jornalista Judith Thurman descreveu o dia em que acompanhou Bechdel filha e Bechdel mãe num passeio a Nova York. Thurman e a namorada de Alison observam as duas de longe. A namorada comenta: “Helen é uma mulher muito inteligente e fascinante, mas expressa o que sente de um jeito meio torto. Por exemplo, ela fica se gabando da Alison com outros, mas nunca a elogia em pessoa.”

Mais tarde, a jornalista pergunta à mãe Bechdel o que achou do livro. “‘Acredito que todo escritor tem a obrigação de ser fiel a sua história’, ela me respondeu. Mas emendou: ‘A história de Alison é dela, não minha.’ A resposta que deu à filha foi ainda mais lacônica: três palavras sobre seis anos de trabalho e cinco décadas de experiência em comum. A seu modo, porém, foi, se não a benção de uma mãe, a benção de uma crítica: ‘Bom’, ela disse, ‘tem consistência.'”

“Às vezes eu acho que virei cartunista porque quadrinho não entra na cabeça da minha mãe”, Alison diz na matéria. Helen Bechdel morreu em maio deste ano, um ano após o lançamento de Você é minha mãe?

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Não bastassem os trechos de Winnicott, não bastassem os trechos de Virginia Woolf, não bastasse aquela página intrometida do Dr. Seuss — inimigo mortal dos tradutores —, eu ainda tinha que entregar a tradução a quem deveria ter sido o verdadeiro tradutor. Pior que essa situação, só aquela vez em que traduzi para o português uma HQ do Fábio Moon e do Gabriel Bá, que entendem muito bem de português e das suas próprias HQs (conto essa em outro momento).

Anticlímax: Mr. Conti foi compreensivo (assim como foram as revisoras Viviane T. Mendes e Adriana Cristina Bairrada). Até aquele “she has given me the way out”, a frase final, que rende horas de repensar e refazer, como é próprio das frases finais, ficou como eu sugeri. Obrigado. Não ouvi nenhum comentário, mas vale como um “bom, tem consistência”.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – TwitterOutros Quadrinhos

6 Comentários

  1. Érica disse:

    Poxa…. A Companhia das Letras não pode incorporá-lo ao catalogo? Se sim, fica a dica!

  2. admin disse:

    Oi, Érica!

    “Fun home” não faz parte do catálogo da Companhia das Letras e foi publicada no Brasil pela Conrad. :)

  3. Érica disse:

    Olá! Vocês poderiam publicar novamente “Fun Home”… Esse livro, infelizmente, está esgotado.

  4. […] foi o infográfico The Chris Ware Sadness Scale no Supergraphic. Meu quadrinho favorito de 2013 foi Você é Minha Mãe? e o molho de chaves do Rafael Sica no Claviculário. Meu quadrinho favorito de 2013 foi Harmatã, […]

  5. Fratureto disse:

    Medo!!!!!!!!!!
    Se ficou igual aquela FRASE INICIAL da Hq dos Beats que vossa excelência traduziu…..

  6. Paulo disse:

    Sobre ela, não podemos esquecer que, à maneira de cientistas que batizam estrelas e doenças, Bechdel batiza um teste para analisar a presença de mulheres na ficção. Tem até verbete no Wikipedia.

    Li ontem Você é minha mãe? e a tradução está impecável. Gostei mais da “montagem” de Fun Home, e convenhamos que citações de Proust e Wilde são bem mais agradáveis que estes textos de psicologia. O capítulo que mais gostei foi aquele com o musical de Sondheim, o mais fluente, em minha leitura. Claro que, nem por isto, Você é minha mãe? deixa de ser uma grande obra.

    Quero ler este perfil da New Yorker, pra ver o que ela tem a acrescentar sobre uma pessoa que achamos que sabemos tudo.

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