A caixa de ferramentas

Por Érico Assis


Batman por Rafael Grampá. Clique para ver a página inteira.

WHAM. Batman joga-se contra o meliantezinho que apontava o 38. BLAM BLAM BLAM. Batman fica de cara com outro meliante armado, que atira mas só atinge a capa. KRAK. Batman acerta um cotovelo que afunda a cara do novo meliante. KLOPH. O mesmo meliante da cara afundada leva um chute na cintura. THUD. Colidem as cabeças de dois outros meliantes que vinham na direção de Batman. O primeiro meliantezinho sai correndo pelas escadas. Batman observa-o de punhos cerrados. THE BATMAN paira onomatopeicamente sobre a cabeça de Batman.

São duas páginas de um gibi recente pelo brasileiro Rafael Grampá. E, sem exagero, todo mês saem uns dez gibis novos de Batman enfrentando meliantes. Na grande maioria, ao final da cena de exercício cotidiano meliantesco, Batman faz uma pose séria, soturna, ameaçadora, eu-sou-foda. Mas em nenhum outro gibi se vê Batman tão foda, mas tão foda, que esta fodolância vira seu próprio nome pairando no ar, sobre sua cabeça, como um halo. THE BATMAN.

A HQ de Grampá é típica dos gibis de super-herói em todos os outros aspectos. São oito páginas em que Batman desbarata um plano do Coringa, sendo as primeiras quatro de armação do plano, duas de pancadaria, uma de captura do meliantezinho fugitivo e a última de reviravolta na trama. É típica também em termos de linguagem: fora a pancadaria, são quadrinhos quadradinhos justapostos em ordem determinada, balões de fala e recordatórios de um narrador onisciente.

As duas páginas de pancadaria são dinâmicas como manda o gênero desde Kirby, e fluidas, dispensando requadros, que nem gostava o Eisner. As onomatopeias que se integram à arte são Howard Chaykin, Walt Simonson. No meio da dinâmica há o exagero de detalhes — olha o drapeado na capa — que começou lá nas virtuoses do Neal Adams e vem até caras contemporâneos tipo Geof Darrow, Frank Quitely, Paul Pope, passando pelas hachuras do Jim Lee e por todo mundo que leu, deglutiu e vomitou Katsuhiro Otomo e Goseki Kojima. Paira sobre todos os nomes, e principalmente sobre Batman, o halo de Frank Miller.

Tem também aquele seriado do Batman dos anos 60, com os cartões BIFF! POW! WHAM!. O que foi marcante para uma geração inteira, que começou a dizer que Batman, o seriado de TV, apesar de ser TV, era linguagem de gibi. No sentido de que não é real, pois não aparece um POW! no ar quando você soca outra pessoa. Não só não é real, mas também não é sério. Fora BIFFs e WHAMs, tinha Batusi, spray repelente de tubarão, a barriguinha saliente do Adam West. Coisas de gibi.

Os gibis de super-herói passaram anos tentando buscar respeitabilidade virando sérios, virando realistas, pra mostrar que linguagem de gibi não significava só BIFF! POW! WHAM!. Podia haver profundidade, ou fingir-se profundidade e sisudez mesmo com um homem vestido de morcego. O que não era realista aos poucos foi sendo cortado, ou usado com parcimônia: onomatopeias, balões de pensamento, linhas de movimento. Watchmen, apesar de ter vários méritos, é o cúmulo deste movimento sisudo: aboliu balões de pensamento, aboliu linhas de movimento (tem apenas uma), os recordatórios não são os “enquanto isso” ou “mais tarde” de um narrador, mas apenas para indicar local ou trazer fragmentos de textos escritos pelos personagens. É como se cada quadro quase só pudesse representar o que captaria uma foto.

Quadrinhos, porém, não precisam ser sequências de fotos. Se forem, tendem a ser chatos. Importa a relação entre os quadros na página, as deformações e estilizações que o desenhista faz das figuras, do cenário. Mais aqueles elementos que fogem a uma foto, como os balões, os recordatórios, as onomatopeias, as linhas de movimento, os diagramas, a ornamentação da página e uma caixa bem grande de ferramentas narrativas.

Aquele THE BATMAN não está lá só por ser legal. Tem uma função narrativa: é como se aquela pose de Batman exigisse um letreiro, um anúncio publicitário de si mesmo para reforçar a potência do que o herói acabou de fazer e amedrontar o meliantezinho fugitivo. Aquele THE BATMAN faz parte da caixa de ferramentas. Não é necessariamente uma inovação, mas é uma ferramenta que raramente sai da caixa. Como sai pouco, aqui serve de lembrete de que se pode fazer um monte de coisas com a linguagem dos quadrinhos — e que às vezes algumas ferramentas ficam guardadas porque se quer ser sério.

Apesar de haver indicações bem claras na capa, numa página de apresentação e na primeira página da HQ de que a história é dele, Grampá não deixa de colocar “R. GRAMPÁ” na direita inferior de cada página de pancadaria. Coisa dos quadrinistas dos anos 90, quando queriam sublinhar eu-sou-foda numa página especial. Dava para discutir ainda mais se aquela assinatura devia ou não estar ali, mas o fato é que ela também se inclui na caixa de ferramentas. Coisas de gibi.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – TwitterOutros Quadrinhos

5 Comentários

  1. […] é de “Batman: Black & White”, resenhado muito bem pelo Érico Assis no blog da Companhia das Letras, esse trabalho com certeza entrará para a história da DC como uma de suas HQ’s mais […]

  2. Cyro disse:

    O Gibi já saiu?
    Se não, quando sai??
    Curto o trabalho do Grampá.
    Valeu Érico pelo texto.

  3. Muito bom o texto Érico, é bom ver trabalhos que sabem utilizar da linguagem dos quadrinhos de super-heróis, numa forma eficiente e bem colocada.

  4. Ótimo texto Érico. No aguardo para poder prestigiar o trabalho do Grampá

  5. Jurema disse:

    Mastiguei forte o texto.
    58Adorei!!

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