Ana Cristina Cesar

Há exatamente trinta anos, Ana Cristina Cesar se suicidou. Ela se jogou da janela do apartamento dos pais aos 31 anos, no Rio de Janeiro.

Ana Cristina Cesar deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino — pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época.

Em novembro a Companhia das Letras lançará Poética, que reúne Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, da obra de Ana Cristina, Armando Freitas Filho.

Para celebrar este acontecimento, convidamos diversas pessoas para prestar homenagem a Ana Cristina. Abaixo você lê a primeira delas, de Ana Martins Marques. Fique de olho nas nossas redes sociais para ver as próximas homenagens.

* * * * *

Comecei a ler Ana Cristina Cesar na adolescência, naquele pequeno volume rosa (vermelho?) da editora Brasiliense que reunia três livros seus, com o título de A teus pés. Saí de cada leitura desse livro com a impressão de ter sido lançada em cheio numa intimidade estranha, que ao mesmo tempo me interpelava e me mantinha à distância. Como quem descobre por acaso as cartas de amor de um desconhecido. Ou chega sem ser convidado a uma festa e, em trânsito pela sala, capta o burburinho das conversas já começadas. Essa sensação era produzida sobretudo pelo flerte com a correspondência (o diário, o bilhete, o lembrete, a anotação pessoal), e pela força ambígua dos dêiticos quando usados fora de uma situação enunciativa particular: é para você que escrevo, você. Sempre saí da leitura dos poemas da Ana me perguntando menos sobre aquela que no texto diz ‘eu’ do que sobre aquele/aquela em que me via transformada pela força dessa interpelação. Aprendia aí alguma coisa sobre a poesia, alguma coisa que tem a ver com destinação, desejo e drama. Ou com cena, segredo e sereias. Ou com texto, tesão e teatro. Ou com corpo, conversa e corte. Foi ainda a essa solicitação ambígua que procurei responder, muitos anos depois, com um poema-carta que publiquei no meu primeiro livro, endereçado simultaneamente a ela e a você, sim, você:

Self safári (Carta para Ana C.)

Ciganas
passeando
com um rosto escolhido
por paisagens cegas de palavras
traduzidas
inconfessas
rabiscos
ao sol.

Cotidianas
vivendo dias de diários
e mentindo descaradamente
nos silêncios das cartas
(selos postais
unhas postiças
versos pós-tudo).

Fulanas
de nomes reversíveis
para ir e voltar
sem sair do lugar:
self safári
por essa paisagem toda
que no fundo

Ana
nada tem a ver conosco.

 

* * * * *

Ana Martins Marques é poeta de Belo Horizonte, autora de A vida submarina (Editora Scriptum, 2009) e Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011).

12 Comentários

  1. Ana Cristina Navarro Abreu disse:

    Maravilhoso ver uma publicação com os poemas de Ana Cristina Cesar, estou ansiosa para pegar esse livro nas mãos, a poesia dela nos toca na alma.

  2. Luis F. de Carvalho disse:

    Poeta = homem.
    Poetisa = mulher.

Deixe seu comentário...





*