Brasil — Alemanha

Por Ilija Trojanow


Nos primeiros dias após chegarmos a um país estrangeiro, os temas atuais que carregamos conosco continuam ressoando. E encontram um eco surpreendente.

1. Correspondência silenciosa – protesto ruidoso

A última notícia que li na Alemanha referia-se a mais um aspecto da vigilância na telecomunicação: recebemos, muitos de nós, correspondência silenciosa dos serviços secretos. Não percebemos que somos contatados por SMS. Mas nosso celular responde de maneira arbitrária ao provedor, que encaminha a informação sobre nosso paradeiro às autoridades. Apenas no primeiro semestre deste ano foram enviados mais de 250 mil SMS silenciosos! Sim, a Alemanha está fervilhando de terroristas silenciosos.

A primeira visão no Brasil: duas capas de revista dignas de nota; numa delas, um Obama como Exterminador (“OBAMACOP”), noutra o presidente visivelmente envelhecido com uma expressão contraída (“Vacilou”). A primeira notícia: uma matéria no site da TV Globo descreve como o NSA, serviço secreto dos EUA, conseguiu acesso à rede de computadores de empresas, por exemplo a petroleira brasileira Petrobras. É revigorante que países como a Índia, a África do Sul ou o Brasil não levem a sério a retórica habitual dos EUA (defesa dos direitos humanos, proteção contra o terrorismo), mas sejam diretos: espionagem econômica, interesses do poder e uma burocracia do serviço secreto que saiu dos eixos.

2. Homem da igreja – rato da igreja

Combina com o novo papa a igreja mais famosa de Salvador ser dedicada a são Francisco. Combina menos com o novo papa seu interior ser dominado por madeira entalhada, dourada. Uma opulência exuberante, espantosa. No claustro inferior, há 37 conjuntos de azulejos, importados de Portugal, intitulados com emblemas latinos de Horácio sobre dinheiro, avidez e inveja: Pecuniadonatomnia. Não fica claro se os emblemas devem servir como alerta (“Não ajunteis tesouros na Terra, onde traças e vermes os consomem. Ajuntai tesouros no céu.”) ou como confirmação de que não resta mais nada ao ser humano sobre a Terra do que reconhecer a onipotência de Mamon e, como homem da igreja, se submeter a isso.

Esse seria o entendimento de Franz-Peter Tebartz-van Elst, bispo de Limburg, que no momento causa alvoroço na Alemanha, pois também ele assumiu um estilo barroco, viajou de primeira classe até as favelas indianas, mandou construir um palácio episcopal por 10 milhões de euros e apareceu com hábitos entretecidos com fios de ouro. Em outras palavras, ele cultiva — assim acabei de aprender em Salvador da Bahia — o estilo colonial.

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Ilija Trojanow escreve em alemão, mas nasceu em Sófia, na Bulgária, em 1965, e viveu em países como Índia, Quênia, Alemanha e África do Sul, até fixar-se em Viena, na Áustria. Entre outros romances, é autor de Degelo e O colecionador de mundos, sobre o orientalista e etnólogo inglês Richard Burton. Foi laureado com prêmios como o da Feira do Livro de Leipzig e o prêmio de literatura de Berlim. Trojanow também é tradutor e editor, e está fazendo uma residência literária em Salvador.

Um Comentário

  1. rogerio disse:

    Texto bom. Muito bom.

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