Em tradução

Por Caetano Galindo

Gente joia…

Nesses posts simpaticões que mostram a cara do pessoal que trabalha na editora, pedem pra eles falarem do motivo de estarem nessa profissão. E nesse emprego.

O amor pelos livros aparece sempre como motivo principal.

E tinha que ser, né?

Bom mesmo.

Mas aí tem outro negócio. Um prazerosíssimo elemento freaks flock together (pra usar as palavras do grande Beck Hansen) que rola nessa coisa do mundo editorial, e de que eles nem sempre lembram de falar, mas que transparece nos comentários dos colegas.

Que é aquele negócio do paradoxo, né? De que quanto mais você gosta de livros, das pessoas nos livros, menos você tende a ter tempo pras pessoas de verdade. Você passa a ser aquele cara que, entre sair pra conversar com o povo e ficar em casa pra terminar o segundo livro de Guerra e Paz, escolhe a companhia do príncipe Bolkónski…

E aí a gente lê pra se sentir menos só, como dizia o Wallace, mas precisa ficar cada vez mais só pra ler mais.

E aí a gente lê pra entender ‘o outro’, mas precisa pedir pra ‘ele’ não fazer barulho enquanto a gente lê.

E aí a gente vira gente de livro. Aqueles….

 

E aí uma vez um pessoal de uma livraria aqui de Curitiba entrou em contato comigo pra me convidar a participar de um ato, uma caminhada, tipo uma flash mob pela leitura. No centro da cidade.

E eu até expliquei pra guria, sabe?

Que era meio um contrassenso, né? Se neguinho é pró-leitura ele deve ser contra caminhadas públicas… pela leitura… estranho…

Tipo passeata dos agorafóbicos…

Vigília dos narcolépticos…

Piquenique dos anoréxicos…

 

Mas aí como é que faz pra encontrar as outra abelhinhas?

(Sabe aquele vídeo do Blind Melon? Da abelhinha? A gente é super-abelhinha-solitária, meu… (como bem o sabe o Chris Ware))

Bom. Você encontra o lugar onde os teus freaks flocam. Eu entrei pra universidade. Cheio de irmãozinhos, lá.

Mas o que eu queria dizer mesmo é que, na primeira vez em que eu botei o pé na sede da Companhia das Letras, eu senti um misterioso e calorosíssimo pertencimento, sabe como? Como se aquelas pessoas que eu não conhecia fossem todas minhas semelhantes, minhas irmãs, como queria o Baudelaire…

Eu entendia aquele povo. E eles me entendiam.

Foi bem massa…

Rolou até uma trilha de violinos e una furtiva lacrima

 

Mas eu vou pouco lá. :(

Só que nos últimos dias, por causa de dois eventos diferentes, pude rever o grande scefigno André Conti (devolve minhas meias, rapá!), conhecer a Heloisa Jahn e matar saudades acumuladonas da suprema Maria Emilia Bender.

E fiquei pensando que, no fundo, um dos maiores motivos que deve levar aquele pessoal todo a viver no mundo editorial não são os livros.

Os livros a gente leva com a gente, afinal.

Mas as pessoas que gostam de livros, ah, meu amigo, minha amiga… essas é bem mais raro a gente achar.

E é bom manter-se perto…

Elas fazem falta…

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

16 Comentários

  1. […] como eu andei falando tempos atrás por estas bandas: coisas de livros tendem às vezes a te […]

  2. Bruno disse:

    Que texto sensacional, cara!

  3. Flavia disse:

    Me lembrou suas aulas de Bakhtin. Bom texto!

  4. Ramon Rossi disse:

    Excelente texto..o autor conseguiu verbalizar as contradições dos amantes da literatura em poucas linhas. Além disso, que leitor compulsivo e obsessivo não se se identifica com a frase “Mas as pessoas que gostam de livros, ah, meu amigo, minha amiga… essas é bem mais raro a gente achar” ? Obrigado.

  5. GABRIEL LEAL disse:

    belo texto.

  6. rogerio disse:

    Estava (sem dúvida) sob efeito da Infinity Jest.

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