Longe da árvore

Por Vanessa Ferrari


Andrew Solomon (à direita) com o marido e o filho.

Como a ladainha monótona das carolas, que se repete à exaustão e usa a ideia do amor e do respeito como carro abre-alas, o mantra em prol da tolerância se vale do mesmo método mas infelizmente com resultados bem menos eficientes. Em tese somos todos receptivos às diferenças, na prática, qualquer estranheza nos irrita.

E na lista das intolerâncias a questão gay parece avançar com a mesma intensidade que retrocede. Há cidades como Nova York e Londres, que bocejam sobre o assunto porque há tempos já viraram essa página; outras como São Paulo, que estão no meio do caminho, são receptivas e fazem jus à reputação de cidade cosmopolita, mas também espancam gays sempre que podem. E há o extremo oposto como Uganda, que promove nesse momento um projeto de lei apelidado de Morte aos Gays.

No tête-à-tête, acho pouco eficaz advogar a favor dos gays para um homofóbico, pois quem é contra dificilmente mudará de ideia, porque entre o seu argumento e o sujeito há Deus, a família, os amigos, o medo, o instinto sexual e as excrescências de programas como o Zorra Total, cuja expertise é sedimentar todos os tipos de preconceitos usando o humor baixo. E como ser contra os gays é tão inútil quanto ser contra o sol nascer, pouco me anima entrar no debate para argumentar a favor do inevitável.

Quando há alguma mudança de posição normalmente ela ocorre à força, quando alguém bem próximo se assume e os parentes e amigos têm de escolher entre o amor àquela pessoa e a rejeição ao tema. Nesse caso, depois de um tempo, as coisas costumam se acomodar.

Mas a intolerância aos gays parecerá historinha de ninar se comparada aos relatos de Longe da árvore, de Andrew Solomon, sobre famílias que tiveram filhos com características excepcionais. Para o leitor que estiver disposto a promover um desmonte de suas certezas e se confrontar com questões éticas bastante complexas, esse livro é um prato cheio. Quando o tema é sobre como vivem os surdos, os autistas, os esquizofrênicos, os prodígios, os filhos de um estupro, os pais de criminosos, a constatação é que não sabemos nada, embora opinemos sobre tudo.

É possível que o leitor mude de ideia sobre o aborto ao ler sobre a relação das mães violentadas com seus filhos. E ficará surpreso com a constatação de que ser prodígio pode ser tão problemático quanto ter limitações intelectuais, que muitos anões não querem ter filhos de estatura convencional, e que depois de sofrerem feito cão nos primeiros anos, muitos familiares não trocariam os seus filhos “problemáticos”, a experiência que viveram, a mudança radical na percepção do mundo por nada. Se pudessem reconstituir o passado, recusariam a oferta gentilmente e seguiriam exatamente como estão.

Embora a homossexualidade não seja um dos temas contemplados, o autor, que é disléxico desde criança e hoje gay assumido, abre a reportagem narrando a sua própria experiência no terreno dos estigmatizados e fazendo um apanhado geral. E uma das conclusões diz respeito à pressão que os grupos retratados devem fazer para se colocar em pé de igualdade na sociedade. E que a diversidade e as imperfeições fazem o mundo seguir em frente e tiraram a humanidade do “lodo primordial”. E que sofrer preconceito não blinda a pessoa de, no futuro, ser ela mesma o algoz em outra situação.

Longe da árvore é certamente um daqueles livros que modifica o leitor. Destrói o lugar comum, escancara os preconceitos e os julgamentos precipitados. De vez em quando é bom ter um livro assim na cabeceira porque, como diz uma amiga, “que graça tem só ler autores com os quais você concorda?”.

[Veja abaixo o booktrailer de Longe da árvore. Assista também à apresentação de Andrew Solomon no TED.]

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Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.