O fantasma de Frankfurt

Por Tony Bellotto

Frankfurt am Main sunset skyline

Agora que todos os escritores que eu conheço foram para Frankfurt, aproveito para correr ao computador e tratar de adiantar o trabalho no meu quase finalizado novo Bellini. O tamanho desse “quase” é que são elas. Todo escritor que eu conheço está sempre “quase” terminando ou começando algum livro.

Bem, de volta ao meu computador: aproveito a debandada geral para me adiantar e ganhar alguma vantagem em relação aos colegas. Já que eles foram agraciados com a viagem grátis a Frankfurt, e lá dificilmente encontrarão tempo para escrever, eu honrarei a classe. Alguém tem de trabalhar, afinal de contas. Embora não admita para ninguém, nem para mim mesmo, estou morrendo de inveja deles. Por que não me convidaram para Frankfurt?

Deixa pra lá, vou encarar o Bellini. Tento entrar no clima, releio umas três vezes o último capítulo escrito, troco uma vírgula por um ponto e vírgula, apago um no entanto e substituo por um portanto e… volto a pensar em Frankfurt. Ah, o que estarão fazendo os escritores agora em Frankfurt? Imagino meu amigo Ignacio de Loyola Brandão sorvendo cerveja escura de uma caneca gigante ao lado de outro amigo, o Marçal Aquino. Azar deles. Terminarei meu livro antes deles. Do jeito que esses escritores viajam, quando encontram tempo para escrever?

Sim, o Bellini. Nada. Minha mente não sai de Frankfurt. Imagino Daniel Galera e Michel Laub no vietnamita transado que encontraram perto do hotel. Observarão belas loirinhas sorridentes na mesa ao lado enquanto degustam especiarias de Ho Chi Minh? Ah, a dura vida do escritor… e o Joca? Imagino-o caminhando à beira do Main, quem sabe soltando uma fumacinha de frio pelas narinas, absorto em ideias profundas e insondáveis… Por que não me convidaram para Frankfurt? Meus bons amigos e xarás Paulo Coelho e Paulo Lins me elucidam: porque sou negro e bestseller. Ah, como é dura a vida de um escritor negro e bestseller no Brasil…

Bellini, oi?

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

3 Comentários

  1. Leonardo Azambuja disse:

    OI Tony! Desculpe invadir esse seu espaço aqui que é mais voltado pra sua literatura e livros, por razões óbvias, mas eu estava ouvindo as músicas novas de vocês (Titãs) e estou achando muito bom, bem pesado, meio “O blesq” com Cabeça” … Cara, já deu uma testada nos amplis da Blackstar? Acho, questão de achismo mesmo, que seria bacana darem uma testada nesses amps… Dão uma timbrada legal! (Firme mesmo)

    Abraços e parabéns pelo “Machu Picchu”!

    Leonardo

  2. Daniel Abreu disse:

    Não deixe o Bellini fugir, rs. Eu tô correndo atrás de um sem-número de personagens, em meio à correria do dia a dia…

  3. Marco Severo disse:

    Também sempre me perguntei sobre o ato de escrever relacionado aos escritores que viajam muito. Acho que Saramago não escreveu mais porque ele e Pilar viviam dando voltas pelo mundo. De qualquer forma, você está aqui, sua obra está aqui, e tratemos de enaltecê-la e, aos poucos, ela pode ir para além de Frankfurt… e, quem sabe, você com ela.

    PS: Gostaria de deixar registrado a minha felicidade por ALICE MUNRO ter ganhado o nobel de literatura deste ano. Antes tarde do que nunca. Talvez a Companhia devesse fazer uma homenagem a ela aqui no blog, já que há obras dela publicadas pela casa, não? PARABÉNS, Alice!

Deixe seu comentário...





*