O indiscreto charme da bruxaria

Por José Francisco Botelho

Richard Doyle (British, 1824-1883) - "In fairy land"
“A Inglaterra é um país que ama a magia e as tempestades”. Não lembro em qual ensaio de Borges li essa frase; mas sempre me identifiquei com os gostos atribuídos por ele à pátria de sua avó, Frances Anne. Me agradam tanto as tempestades que, de fato, tenho certa tendência a assisti-las como se fossem um espetáculo: um hobby eventualmente perigoso e pouco recomendável, confesso. Certa vez, observando uma dessas performances meteorológicas no interior do Rio Grande do Sul, quase fui estupidamente trespassado por um relâmpago. Mas, bem, isso não vem ao caso: as tempestades, neste texto, são circunstanciais. Meu assunto aqui é a fantasia em Chaucer – a começar por suas fantasias sombrias e perturbadoras. Ontem pela manhã, vi pela primeira vez a capa de minha tradução dos Contos da Cantuária: o desenho foi feito pelo espanhol Joan Cornellà, artista que tem a capacidade de sugerir profundezas perturbadoras sob a aparência dos mais coloridos sorrisos. Escolha perfeita para ilustrar essa obra em que se misturam o quotidiano e o prodigioso, o sublime e o perverso, a santidade e a barbárie.

Alguns afirmam que, ao compor o Paraíso Perdido, John Milton pretendia escrever um libelo a favor da obediência cristã; mas ao relê-lo, em uma noite de mau tempo no século XX, Harold Bloom se deparou com uma aventura fantástica cujo herói era o Diabo. A literatura de Rudyard Kipling talvez fosse originalmente uma defesa do Império; mas seu romance Kim sempre me pareceu cheio de desavisados colonialistas levando excelentes rasteiras. Não tentarei falar das intenções de Geoffrey Chaucer ao escrever seus contos, mas uma de minhas leituras (por enviesada que seja) é esta: o implacável realismo da obra-prima medieval parece um núcleo ameaçado pelas marés do horror e da fábula.

O livro que tive o prazer de traduzir começa com um tour de force de minúcia social: o Prólogo Geral, em que os contadores de contos são apresentados com um poder de observação que devassa até o tecido de suas vestes. As roupas, por sinal, estão entre os grupos de palavras mais divertidas e difíceis de traduzir na obra de Chaucer (as roupas, e os palavrões). Sabemos que o Cavaleiro usa uma bata de fustão manchada pelos elos da cota de malha – sinal de suas incansáveis andanças em prol do heroísmo e da cortesia; o Mercador tem a barba bifurcada e um chapéu extravagante, feito com pele de castor; a Mulher de Bath exibe meias vermelhas, usa um toucado de tamanho descomunal, e tem um pequeno espaço entre os dentes da frente (nas ciências fisionômicas da época, isso era sinal de um temperamento lascivo). A sensação de realidade gerada por essas páginas efetua de forma magistral a suspensão da descrença exigida por Coleridge: perdão pelo clichê, mas o fato é que a Inglaterra da época de Chaucer se transforma em nosso próprio mundo, na duração mágica da leitura.

E é graças a esse realismo quase epidérmico que o maravilhoso e o fantástico, quando surgem, nos acertam em cheio e nos deixam com a sensação de que universos incongruentes se aproximam e se subvertem. Existe um veio de perturbação cósmica percorrendo secretamente a obra de Chaucer. No relato do Cavaleiro, em que os temperamentais deuses pagãos decidem o destino dos mortais, um satânico Saturno domina o clímax da narrativa com estas palavras inesquecivelmente sinistras: “O meu olhar é o pai da pestilência”. (Sempre me pareceu que, nesse trecho, Saturno estava olhando para mim). No Conto do Vendedor de Indulgências, um homem decrépito, sofrendo de uma incômoda espécie de imortalidade, vaga pelo mundo sem conseguir dar fim à própria vida; ele bate com o cajado no solo e implora que a Terra o engula, mas é tudo em vão. (Por que o pobre sujeito não consegue morrer? Chaucer, sabiamente, não explica).  Nos bosques dessa Inglaterra tão verossímil, um demônio epigramático anda disfarçado em trajes que lembram os de um casual Robin Hood, e arcanjos cruéis ciceroneiam pecadores ainda vivos em um passeio obsceno nos porões do universo. Aliás, a sensação de horror é acentuada nos relatos mais próximos à esfera do cristianismo. Quanto mais pia a moral da história, mais escabrosas são suas circunstâncias: no Conto da Prioresa, por exemplo, um menino-mártir, após ser degolado e jogado em uma cloaca, passa dias entoando hosanas, apesar do buraco em sua garganta. Um milagre certamente edificante em sua época, mas que me rendeu pesadelos muito interessantes nos últimos meses.

Em outros momentos, contudo, a fantasia dos Contos da Cantuária torna-se límpida e hilariante. Uma das habilidades características de Chaucer é fazer com que seus personagens caiam no ridículo de forma milimetricamente orquestrada: Moira, a deusa do destino, tem um queda por trotes maneiristas. Meus contos favoritos são precisamente aqueles em que a farsa virulenta se mistura ao sabor feérico – é o caso do maravilhoso Conto do Mercador, em que deuses e duendes interferem em uma comédia de patetices e percalços demasiado humanos. A história fala sobre Januário, um cavaleiro velho, rico e cego, que se casa – insensatamente – com a jovem, bonita e hormonal Maia. Um silogismo cuja conclusão lógica é o adultério (a infidelidade conjugal, aliás, é tema que o humor desbragado de Chaucer leva a proporções épicas).  O local escolhido para os encontros entre Maia e seu amante, o escudeiro Damião, é um jardim no centro do castelo. A providencial cegueira de Januário permite que a necessária traição ocorra bem diante de seus olhos. No entanto, existem criaturas invisíveis naquele jardim, observando a cena patética. Lá está a rainha Perséfone ao lado de Plutão – fantasmas do paganismo que, nesse conto, são soberanos das fadas e dos gnomos medievais. Querendo defender a honra universal dos maridos, Plutão resolve curar a cegueira de Januário no momento exato em que a transação ilícita é consumada. Traduzi assim o momento-chave da narrativa:

Não sei ornamentar, sou grosseirão:
Num instante, esse afoito Damião
Levanta a saia dela – e mete o pau.
Plutão, vendo esse crime capital,
Devolve a vista ao velho num instante
– Januário enxerga até melhor que dantes.
Jamais homem algum foi tão contente
De tão mágico e súbito presente;
Ver sua esposa é tudo o que ele quer;
Mas quando os olhos ergue à sua mulher,
Vê que outro está engatando-a de tal jeito
Que, por pudor, nas regras do respeito,
Não posso descrever em termos finos.
Januário solta um retumbante grito
Qual mãe que vê seu filho massacrado.
“Por Deus! Que horror! Socorro!” – foi seu brado…

E, bem, o resto da história estará nas estantes na próxima semana – e assim encerro minha parceria com o velho Chaucer e sua barulhenta obra-prima. Da euforia ao horror, da divina sisudez à mais obscena felicidade, poucas criações humanas captaram de forma tão pungente a caótica coerência da vida.

* * * * *

José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

 

Um Comentário

  1. Viviane Serra Negra disse:

    Boa noite José Francisco. Vc quem escreveu o artigo “Excentricidade” na Revista Vida Simples ? Gostaria de falar com Vc , gostei muito de sua matéria! Qual seu contato email? Grata, Viviane serra negra

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