“10, 20, 31” – Homenagem a Ana C.

Por Mariano Marovatto

Não me aproximava muito de Ana porque achava que ela não era pro meu bico. “O mais alto e longínquo dos planetas”, como escreveu a portuguesa Joana Matos Frias. Aqui da Terra, todos sabem reconhecer o planeta Ana no céu, todos são adoradores do planeta Ana. Todos têm uma versão personalíssima de Ana, uma história intransferível, um testemunho. Alguns certamente reveladores, outros claramente equivocados. Todo poema de Ana é um poema de alguém entre todos. Ana é reproduzida por falsários e se torna péssima companhia. Ana é exposta pelos seus comparsas mais íntimos e se torna assustadora. Ana está em todos os lugares. Portanto, como me aproximar dessa onipresença transbordante sem me contaminar? Impossível. Se deixasse por minha conta, Ana ficaria em Colchester enquanto eu olharia os Dois Irmãos do Arpoador sem ela. Num dia chuvoso talvez, abriria o Luvas de pelica e a visitaria educadamente, da forma mais britânica, em Colchester. Mas Ana também estava no Arpoador. Com minha idade exata ela já havia mergulhado 10 vezes mais no Arpoador do que eu. Colocar os pés para fora de casa impunemente, jamais: Ana também é da Gávea, morou a 20 metros de mim, frequentou a mesma Faculdade de Letras da PUC com muito mais dedicação e conheceu todos os meus mestres e meus amigos 30 anos antes de mim. Colocava todos no bolso. Ana nunca perdeu um jogo, nunca errou de figurino e aprendeu a sorrir somente no momento preciso. Imbatível. Melhor seria nunca sair de casa.

30 anos depois e veio uma oportunidade única de desarmar Ana. Quinze dias, nem mais nem menos, para mergulhar em todos os seus papéis adormecidos, resgatar o que nunca foi lido, examinar como ela construiu os seus livros, selecionou os seus textos, reescreveu, datilografou, jogou fora os excessos e se tornou um planeta. Acesso irrestrito e silencioso. Um único ataque. Estratégia napoleônica. Ninguém poderia me deter. Cronometrado, entre gelados corredores metálicos, descobri Ana. Guardados em caixas brancas reluzentes, todos os seus cadernos adormecidos. Abri um a um. Conheci Ana criança, feroz, cínica, engraçadíssima, metódica, desenhista, orgulhosa de mostrar para seus pais e irmãos suas criações nos papéis. Ana aos 13, 14, 15 anos, debaixo do sol do sítio de Pedra Sonora destravando palavras novas, procurando assonâncias, golpes especiais, aprimorando de versão em versão seus poemas, selecionando, jogando fora. Ana aos 16, 17, entregando poemas para a professora de português na aula de redação, sempre premiada com nota 10. Sempre. Ana aos 18 anos entrando na PUC, desconversando sobre amores e literatura em trechos espalhados pelos cadernos. Anotei todos os movimentos de Ana ao longo do seu período de formação como se fosse um enxadrista. Mesmo assim, invasor e voyeur, sabia que a partida seria ganha por ela. Ana aos 20 e poucos anos: uma avalanche inescapável. Feroz como na infância, dona de seus próprios golpes como na adolescência e mestra como ninguém em prestidigitação. Até os 31 anos, minha mesma idade, nada subiu mais violentamente aos céus como Ana, o mais alto e mais longínquo dos planetas. Me rendi.

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Mariano Marovatto é compositor, poeta e foi responsável pelo estabelecimento do texto e pela pesquisa de inéditos de Poética, de Ana Cristina Cesar.

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Poética, de Ana Cristina Cesar, chega nas livrarias dia 25 de novembro. Encomende o seu exemplar na pré-venda da Livraria Cultura ou da Livraria da Travessa e receba a edição facsimilar de Correspondência completa.

O evento de lançamento acontecerá no dia 30 de novembro, no Instituto Moreira Salles – RJ:

16h – Exibição do filme Bruta aventura em versos (2011), 74 minutos, de Letícia Simões. Seguido de bate-papo com Letícia Simões e Bianca Comparato.

18h30 – Debate com Armando Freiras Filho, Flávio Lenz, Italo Morriconi, Laura Liuzzi, e Mariano Marovatto. Exibição de trechos do filme Ana C., de Claudia Maradei.

20h – Leitura de Correspondência completa, com Louri Santos e Simone Spoladore.

Local: Instituto Moreira Salles – Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea – Rio de Janeiro, RJ
(As senhas serão distribuídas 30 minutos antes de cada evento na recepção. Limite de duas senhas por pessoa. Sujeito à lotação.)

6 Comentários

  1. Rogério Marcks disse:

    O pai de Ana Cristina foi um grande intelectual e sociólogo brasileiro. Mas ignorado.
    Seus tios criaram no início da década de oitenta de oitenta a Revista Ultimato e Editora Ultimato.

  2. Paulo disse:

    Estou achando a companhia muito fraca nesses últimos meses do ano. Poucas publicações realmente interessantes. Sem falar em dezembro que, de acordo com a parte do blog referente aos “futuros lançamentos” não promete nada demais.

  3. Ana Cristina Cesar me encantou depois que se suicidou.
    Não gosto e não entendo de poesias.

  4. Mariano disse:

    Sofia! Obrigado digo eu por tudo, tudo! Dia 30 aí vamos nós!!

  5. sofia disse:

    obrigada por tudo, mariano! grande parceria, e agora o livro já deve estar pronto, chegando da gráfica… agora é brindar no dia 30!

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