As miudezas da vida

Por Vanessa Ferrari

Every Little Thing

Há dois anos entrei pela primeira vez na Penitenciária Feminina de Sant’Ana para mediar um clube de leitura com um grupo de detentas. Em poucos lugares fui tão bem acolhida. Dizem que na amizade e no amor não adianta forçar a barra. A coisa é simples e pronto, não depende de esforços extras, malabarismos intelectuais, estratégias de sedução. Eu não sabia o que esperar delas, elas tampouco de mim. Amizade boa é assim, começa a partir de um tremendo vazio.

Agora, depois de tantos encontros, entendo que a minha avaliação sobre os clubes de leitura foi subestimada, pois seria um erro entender essa experiência como algo a ser reproduzido apenas em outras penitenciárias. Nós chegamos com uma mala cheia de literatura e muita disposição, mas elas nos deram a resposta que muita gente vem buscando.

Se para ser leitor é preciso ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses, eu conheço muita gente que não é leitor. É uma turma que cresceu com uma brisa leve soprando no fim de tarde. Bons colégios, boa formação, pais cultos, leitura na cama antes de dormir, e mesmo assim leem muito pouco ou não leem nada. O que deu errado?

No primeiro ano, o grupo da penitenciária leu doze livros. A média nacional é de três por ano. Começamos com leitoras em busca do final feliz e encerramos o primeiro ciclo com um debate caloroso sobre o Desonra, de J.M. Coetzee. É muito pouco tempo para um resultado tão eficaz. O que deu certo?

Há quem justifique o sucesso desses encontros ao tempo livre de quem participa. Não é verdade. Até pouco tempo, todas as detentas trabalhavam como bibliotecárias ou professoras, cumprindo horário de funcionário padrão. E o ócio, até onde sei, não necessariamente induz o não leitor à leitura.

Quando comecei a mediar clubes de leitura achei que iria descobrir a lista ideal de livros para fisgar o jovem leitor na escola. Enquanto fazia inúmeras combinações possíveis, percebi que estava fazendo a pergunta errada. A lista ideal não existia e qualquer seleção seria falha, restrita, pouco ousada e pesaria sobre ela o manto da tradição.

A leitura é uma atividade solitária, mas aprender a ler não precisa ser. Entendi que todo leitor é capaz de identificar excessos narrativos, autores que não confiam no leitor e explicam demais, personagens inverossímeis. As pessoas não são bobas. Não precisam ter aulas sobre movimentos literários para perceber que aquele personagem não convence. E como leitor você pode construir preferências e antipatizar com quem quiser. Há gente chata em todo lugar, inclusive nos livros.

Talvez o grande mérito dos clubes de leitura seja poder criticar um livro. E a discussão, se bem conduzida, é muito mais que um trololó que patina no “acho” isso e aquilo. Normalmente o leitor chega com uma ideia cristalizada que se desmonta na conversa.

Ser mediadora é uma das coisas que mais gosto de fazer. Faço porque me dá prazer e não porque sou boa; porque me fascina a ideia de seduzir o não leitor para a literatura. Porque quero que ele sinta o mesmo prazer que eu tenho ao ler um livro. Não quero ensinar nem salvar ninguém. Não sou condescendente e peço sempre que elas expliquem os seus argumentos. Mas, acima de tudo, eu gosto delas.

Recentemente uma ex-integrante me procurou no Facebook. Ela disse que depois que saiu da prisão nunca mais leu nada e que sentia falta dos nossos encontros. Perguntou de um e de outro, contou que tinha entrado na faculdade e, de novo, lembrou do clube com saudade.

Na sua nova vida as chances de ela ler doze livros por ano são muito pequenas. Doze livros por ano, aliás, é bastante para qualquer vida. Uma pena, porque ela é uma boa leitora e agora que voltou para casa a literatura parece não caber mais.

Me despedi da conversa com a convicção de que os clubes não tem nada a ver com livros nem literatura. Tanto faz se o assunto for quadrinhos, romance ou um narrador espúrio. As histórias são falsas, os personagens não existem, os conflitos são inventados. E essa conversa que se deu numa caixa de mensagem, com frases curtas, sem ritmo nem encadeamento, tudo meio torto e rápido, que me encheu de alegria e melancolia, foi mais impactante que muitos romances que li ultimamente; porque se em matéria de comoção cada um sabe de si, a minha ultimamente está mais para as miudezas da vida.

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Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.