Em tradução (Vida querida)

Por Caetano Galindo


(Detalhe da capa de Vida, querida. Capista: Elisa von Randow.)

Com o ritmo mensal aqui no blog, e com o ritmo maluco aqui em casa, algumas coisas perdem a hora boa de aparecer aqui.

Mas agora é exatamente a hora de falar de uma delas: Alice Munro.

Ok, agora ela ganhou o Nobel, está em evidência pra todo lado. E tem que estar mesmo. A mulher merece, camaradas.

E já de saída vem essa mesma questão: a mulher. Será que ela não ganhou esse Nobel só pra contrabalançar os anos de ausências femininas nas listas do pessoal de Estocolmo?

Olha, dá uma olhada nesse livro e me conta. Me conta se ela está no nível das escritoras que precisam ser defendidas e que alguns críticos às vezes podem querer exaltar apenas por serem mulheres. Faz favor…

Escritora bom é escritor boa. Seja ele homem, mulher, hermafrodita ou indeciso. Lydia Davis, Cynthia Ozick, Ali Smith, Alice Munro, são escritoras que estão no meu panteão particular. E não precisam de favor de ninguém. Vamos parar com isso, ok? A mulher que há em mim fica de fato ofendidona com essa história!

* * *

Traduzir Munro foi um grande prazer. Especialmente porque, como de regra, fui lendo enquanto traduzia. E é simplesmente genial quando tudo se encaixa assim. A prosa dela me sai bem, os recursos formais vão me encantando e eu quero saber por onde vão aquelas histórias! É uma tensão disgramada!

Mas extremamente recompensante…

Agora, quer saber uma mini-anedota que tem a ver com ela ser mulher? E com tradução?

Então.

No último livro da Ali Smith uma menina, negra, fica pensando por que é que sempre que num livro se disser ‘a menina’, a gente vai pensar numa menina branca, a não ser que se diga ‘a menina negra’.

E o mesmo vale pra mulheres, né?

Sou eu, somos os homens, ou somos todos, tão condicionados por décadas (séculos?) que direto pensamos que um ‘eu’ numa narrativa é homem até prova em contrário?

E aí a experiência Ali Smithiana me vacinou, e acabou que em ao menos dois casos eu pensei, no automático, que o narrador da Munro era mulher… talvez equivocadamente. Num caso eu me corrigi, e com a ajuda da Ana Cecília, que preparou o livro, retransformamos o personagem em homem. No outro, nós e a Sofia, a editora, ficamos sem conseguir decidir, e optamos pela saída Ali Smith (cirurgicamente empregada pela Sofia): retirar toda e qualquer marca de gênero…

Sexismo meu?

Ao contrário?

A ver…

Mas, agora que o livro está pra sair, fique com o começo de um conto, em vez de aguentar o meu falatório, só pra ver a habilidade da moça pra te envolver já de cara na história.

* * *

[Trecho do conto “Deixando Maverley”, do livro Vida querida — que chega nas livrarias dia 5 de dezembro.]

Nos tempos antigos quando havia um cinema em toda cidade havia um cinema nessa cidade também, em Maverley, e ele se chamava Capital, como era comum se chamarem esses cinemas. Morgan Holly era o proprietário e o projecionista. Ele não gostava de lidar com o público — preferia sentar no seu cubículo lá no alto e cuidar da história na tela — então naturalmente ele ficou contrariado quando a menina que recolhia as entradas lhe disse que teria de pedir demissão, porque ia ter um bebê. Ele podia ter previsto isso — ela estava casada havia meio ano, e naquele tempo era costume sumir dos olhos do público antes de a barriga começar a aparecer — mas ele era tão avesso a mudanças e à ideia de que as pessoas tinham vidas particulares que foi tomado de surpresa.

Felizmente, ela sugeriu alguém que podia ficar no seu lugar. Uma moça que morava na rua dela havia mencionado que ia gostar de ter um emprego noturno. Ela não podia trabalhar durante o dia, porque tinha que ajudar a mãe a cuidar dos irmãos mais novos. Era inteligente o bastante para se virar no emprego, apesar de tímida.

Morgan disse que tudo bem — ele não pagava uma recolhedora de entradas para ficar batendo papo com os frequentadores.

Então a moça veio. O nome dela era Leah, e a primeira e única pergunta de Morgan para ela foi para saber que nome era esse. Ela disse que vinha da Bíblia. Ele percebeu então que ela não estava maquiada e que o cabelo dela estava puxado sem elegância bem junto da cabeça e era mantido no lugar com grampinhos. Por um momento ele se perguntou se ela tinha mesmo dezesseis anos e se podia ser legalmente empregada, mas bem de perto viu que devia ser verdade. Ele lhe disse que ela teria que trabalhar em uma sessão, a partir das oito horas, nos dias de semana, e em duas sessões, a partir das sete, nas noites de sábado. Depois de fechar, ela seria responsável por contar a receita e trancar o caixa.

Só havia um problema. Ela disse que podia ir a pé sozinha para casa durante a semana, mas que não teria permissão para fazer isso nas noites de sábado e que o pai dela não podia vir pegá-la nesse dia porque ele também tinha um emprego noturno na serraria.

Morgan disse que não sabia o que havia a se temer num lugar como aquele, e estava prestes a lhe dizer para dar no pé, quando lembrou do guarda-noturno que vivia interrompendo a ronda para assistir a um pedacinho do filme. Talvez ele pudesse ficar com a incumbência de levar Leah para casa.

Ela disse que ia perguntar ao pai.

O pai dela consentiu, mas tinha que ser atendido quanto a outras questões. Leah não podia olhar para a tela nem ouvir pedaços dos diálogos. A religião a que a família pertencia não permitia. Morgan disse que não pagava suas recolhedoras de entradas para elas ficarem dando espiadelas nos filmes de graça. Quanto aos diálogos, ele mentiu e disse que o cinema tinha isolamento acústico.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.