“Minha fantasma de ombreiras” – Homenagem a Ana C.

Por Natércia Pontes


Foi o Eduardo Verderame (alô, Edu!) a primeira pessoa a me falar da Ana C. Faz mais ou menos uns dez anos. O Edu gostava de ler meu blog e um dia ele me perguntou se eu conhecia a tal. Respondi que não. Aí ele comentou que meu texto lembrava o dela e que eu ia pirar. Pois que pirei.

Ele me emprestou o A teus pés. E lá fiquei. Lia e relia enfeitiçada. O jeito louco que ela metia as palavras: “Quererá ainda, querida?” As imagens e os olores: “Cheiro eterno de Proderm”. Os mistérios que ela soltava no ar: “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios”. A maravilhosa mulher adernou meu barco. Daí pra frente, vesti os óculos escuros redondos e parti rumo ao mar escuro de Ana C.

Logo em seguida li os impressionantes e tão bonitos Cenas de abril, Correspondência completa e Luvas de pelica. Lembro que pelejei para achar o Inéditos e dispersos. Lembro também não ler outra coisa senão a misteriosa carioca de olhos de fada triste que classificou os gêneros da poesia como: “lírico, satírico, didático, épico, ligeiro”. Lia seus livros como se fossem edições alternativas do Minutos de Sabedoria.

Acho que passei um ano lendo só Ana C., praticamente. Lendo e copiando, na cara dura. Tinha até uma teoria para explicar a mão leve literária: uma vez uma sensitiva me disse que o espírito de uma mulher de ombreiras me acompanhava sempre e soprava palavras nos meus ouvidos quando eu escrevia. Decidi que era a Ana C. e pronto. Éramos até vizinhas (eu morava bem próximo a seu prédio na Tonelero, em Copacabana); podia ser tão somente uma facilidade geográfica, pensava. Só depois vi o tamanho da bobice e da petulância. Até parece.

Com o tempo, a obsessão dissipou de mansinho. Segui em meu barquinho variando o cardápio de leituras e acreditando em fantasmas de ombreiras. Sinto que nunca mais esbarrei em um poeta que me fisgasse com “garras afiadas, e pernalta”.

* * * * *

A coletânea Poética chega nas livrarias dia 25 de novembro e já está em pré-venda. Ouça a leitura de “24 de maio de 1976”, de Ana Cristina Cesar, por Natércia:

* * * * *

Natércia Pontes é cearense e autora de Copacabana dreams (Cosac Naify, 2012).

 

4 Comentários

  1. Ana glaucia disse:

    Adorei saber que teremos uma nova publicação sobre Ana C.
    Parabéns,estou terminando um TCC onde abordo sobre a vida e as obras de Ana C.Cesar e estou muito ansiosa!
    abraços em ti Natércia!

  2. Stephanie disse:

    Natércia, se não me engano, Ana C. escreveu que gente sempre acha que é Fernando Pessoa – tem gente que acha que tem encosto de Ana C. [eu também tive um fase de ler & reler muito e fiquei chocada ao descobrir que ela se matou em 29/10 e eu nasci um ano depois]. Belo texto!

  3. natércia disse:

    FANHA. pode falar. eu aguento.

  4. EV disse:

    boa lembrança Natércia!
    e que bom ouvir tua voz, ainda que…

Deixe seu comentário...





*